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Assim se comportarão os mercados em caso de Brexit...


O preço dos ativos move-se ao ritmo que marcam as sondagens sobre o referendo que decidirá a saída ou não do Reino Unido da União Europeia. O resultado da consulta marcará, quase seguramente, a direção que seguirão as distintas classes de ativos a curto/médio prazo. A experiência histórica sugere uma inclinação para o status quo na votação final. Outros termómetros, como as casas de apostas e as taxas de câmbio, indicam que a permanência continua a ser o resultado mais provável, ainda que os últimos debates públicos tenham provocado um repentino surgimento dos partidários de abandonar a UE. Mas... o que ocorrerá em caso de Brexit?

Impacto no mercado de ações

Em caso de triunfo dos partidários do abandono da UE, não há dúvida de que seria negativo para os mercados, se bem que não é claro qual seria a magnitude do impacto. A Equipa de análise da AXA IM calcula que, “em caso de triunfo dos partidários do ‘não’ à UE, as ações europeias, tanto da Zona Euro como as britânicas, poderão cair entre 10% e 15%. Nos mercados de fixed income, com a saída do Reino Unido da UE, as rentabilidades da dívida europeia core cairiam ainda mais, com os vencimento mais curtos das bunds alemãs a recuar. No que respeita os spreads de crédito, a empresa francesa estima que estes se ampliariam entre 15 pontos base para a dívida periférica e 50 pontos base para as emissões em libras”. Quantificar com exatidão é complicado, já que é muito difícil saber o que está já a ser descontado. Do que não haveria nenhuma dúvida – segundo Neil Dwane, estratega global da Allianz Global Investors – é de que “o 24 de junho seria um dia de volatilidade e trading semelhante ao observado em 1992, quando a libra esterlina abandonou o Mecanismo Europeu de Taxas de Câmbio”.

Ainda que o triunfo do Brexit seja negativo para os mercados de ações em geral e para a bolsa britânica em particular, veríamos, por outro lado, ações muito concretas que poderiam ser beneficiadas. “Num cenário em que ganhem os partidários de abandonar a União Europeia, as ações ligadas à saúde, como GSK, AstraZeneca e Shire seriam as ganhadoras, já que apresentam uma exposição significativa a receitas de fora do Reino Unido, impulsionadas por uma suposta libra mais débil. As ações da Shire, com 73% das suas receitas obtidas na América do Norte, são bastante sensível às flutuações da libra”, assinala Mads Koefoed, chefe de estratégia macro e ações do Saxo Bank.

Impacto na dívida pública britânica

Onde não há tanto consenso é na altura de antecipar o que ocorreria com os gilts britânicos. “Há quem pense que o preço das obrigações soberanas britânicas poderia cair; outros consideram que poderia subir, considerando que é o ativo de menor risco. Na realidade, ninguém sabe o que poderá ocorrer”, reconhece Olivier de Larouzière, responsável de taxas de juros na Natixis AM (filial da Natixix Global AM). Dierk Brandenburg, analista sénior de dívida pública na Fidelity, e Andrea Lannelli, diretor de investimentos na entidade, atrevem-se a fazer um prognóstico. “O mais provável é que a reação inicial a uma saída do Reino Unido dê impulso à dívida pública, pelo aumento da aversão ao risco e pela procura de segurança na dívida pública, por parte do mercado. No entanto, as implicações a mais longo prazo, para a dívida pública britânica com vencimentos mais longos, são menos óbvias. Os títulos a dez anos enfrentariam a dificuldade adicional de uma maior prémio de risco que aumentaria as yields e elevaria a curva. Os investidores estrangeiros desempenhariam um papel protagonista, pela elevada percentagem de títulos em circulação que possuem”.

Impacto no mercado de crédito britânico

Ketish Pothalingam, gestor da PIMCO, revela que há três sectores do universo de obrigações corporativas britânicas que se veriam especialmente afetados por um resultado a favor de que o Reino Unido abandone a UE, se bem que este risco já está descontado em alguma medida:

1. Sector Financeiro: “Os bancos britânicos são o sector mais exposto ao Brexit e o principal risco está relacionado com o impacto que poderá sofrer o PIB e os preços das casas. Os bancos não enfrentarão o risco soberano ou de redenominação, mas é provável que o Brexit implique maiores custos de financiamento e  um menor crescimento do crédito”.

2. Utilities: Segundo Pothalingam, o sector das empresas utilities poderá estar a subvalorizar o risco do Brexit. “Se uma vitória dos que defendem a saída da UE voltar a ativar o debate sobre a independência da escócia, a incerteza sobre o futuro contexto político e regulatório poderá levar as agências de rating a baixar a qualificação de crédito de algumas empresas. Este risco, juntamente com a elevada exposição das empresas de utilities ao mercado britânico, fazem com que sejamos especialmente cautelosos com este sector”.

3. Retalho não relacionado com alimentação: “O sector de retalho não alimentar também está bastante exposto ao risco de Brexit, já que a maioria dos produtos são importados, pelo que a desvalorização da libra esterlina encareceria os custos de produção. Além disso, o gasto discricionário poderá sofrer um significativo abrandamento como consequência da incerteza geral e de uma possível queda do PIB”.

Impacto na libra esterlina

No que respeita a libram no caso de ganharem os partidários de uma saída da UE, Brandenburg e Lanneli mostram-se convencidos de que os desequilíbrios internos e externos da economia britânica penalizariam imediatamente a taxa de câmbio, já que os investidores esperariam um aumento do défice orçamental e comercial no curto-prazo. “Assim ocorreu em março, quando se anunciou o referendo e a libra cotou muito abaixo da taxa de câmbio teórica ajustada pelo diferencial de taxas de juro. A situação poderá repetir-se facilmente no caso da saída do país da UE, possivelmente com um maior prémio pelo risco político”. Numa linha muito similar pronuncia-se Adrien Pichoud, economista chefe da SYZ Asset Management, que prevê uma pronunciada queda do valor da libra, considerando os menores fluxos de investimento direto estrangeiro em consequência das incertezas sobre o resultado das negociações. Adicionalmente, poderemos ver o capital estrangeiro a abandonar o Reino Unido e os agentes da economia britânica a iniciar uma busca pela segurança, provavelmente refugiando-se no dólar.

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