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As novas tendências: sustentabilidade, digitalização, unicórnios…


Os mercados financeiros também têm as suas modas, não tão frequentes como o vestuário, mas de tempos a tempos aparecem novas tendências.

Como acompanho os mercados financeiros há mais de 30 anos, já assisti a diversas tendências ou modas: a fase das obrigações de dívida pública portuguesa na década de 1990 e a seguir ao resgate de 2011 (yields elevadas e atrativas), a fase das empresas tecnológicas em 2000, a fase dos fundos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) em 2004/7, a fase das obrigações high yield, a fase do imobiliário com os ciclos de recuperação económica e mais recentemente, a fase dos investimentos sustentáveis, da digitalização, dos unicórnios...

A crescente preocupação com as alterações climáticas tem obrigado a que os intervenientes nos mercados financeiros, pensem cada vez mais em investimentos sustentáveis. É necessário financiar projetos que preservem o clima, os recursos naturais, a biodiversidade, potenciem uma melhor distribuição de riqueza, ajudem as regiões mais pobres a ter melhores perspetivas de vida e fomentem um melhor nível de governance das empresas e da sociedade em geral.

Nos últimos tempos, aconteceram várias emissões de obrigações de empresas que visam financiar projetos deste tipo: green ou sustainability bonds. As rendibilidades variam com a maturidade e principalmente com o risco do emitente. Dos casos que conheço, as rendibilidades têm variado entre 0,375% e 2,5%.

Estas obrigações obedecem aos princípios internacionais respeitantes à preservação do clima e são um bom instrumento de canalização de poupança para projetos sustentáveis. Penso que esta é uma moda / tendência para ficar.

Outro conceito que tem ganho relevo desde 2014/5 são as empresas startup, algumas designadas por unicórnios. São empresas normalmente apresentadas aos investidores como tendo excelentes perspetivas económicas. Algumas têm confirmado, outras nem tanto.

Respeitando a máxima de quando a esmola é grande o pobre deve desconfiar, é necessário que o investidor analise detalhadamente cada unicórnio onde deseje investir, numa perspetiva de puro capital de risco, atividade onde trabalhei vários anos.

A análise deve recair no grau de envolvimento e de entusiasmo dos promotores, sócios ou acionistas das empresas, na oportunidade do negócio, no valor do investimento e se o mesmo é adequado ao volume de negócios estimado, na razoabilidade das metas do volume de negócios, na política de preços de venda, na estrutura de custos do projeto (produção e marketing) e no modelo de comercialização para fazer chegar depressa e bem o produto / serviço ao cliente.

Em qualquer moda e estou a lembrar-me do que aconteceu em 2000 com as empresas tecnológicas, algumas prometeram muito, mas passado algum tempo desapareceram.

Tendo em atenção a performance recente de alguns unicórnios, ou apresentam rapidamente resultados ou vai ser muito difícil conseguirem atrair capital aos atuais e potenciais investidores. Algumas poderão mesmo desaparecer nos próximos tempos.

Por fim, a crescente digitalização nos mercados financeiros. É uma tendência inevitável e irreversível. As vantagens são a maior facilidade em efetuar transações financeiras e a diminuição dos custos das mesmas.

Contudo, como em quase tudo na vida há o brinde, mas também há a fava, ou seja, é necessário que os níveis de segurança e de confiança sejam pelo menos os mesmos dos canais tradicionais, nomeadamente ao nível do risco operacional, do respeito das regras prudenciais e da prevenção do branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, especialmente saber qual a origem do dinheiro e quem é o beneficiário efetivo de cada transação.

Esperemos que não tenhamos que esperar por um grave problema com uma plataforma digital, para que se tomem medidas adequadas de rastreio à sua atividade.

Depois, é necessário ter em atenção que o nível de literacia financeira é, em geral, reduzido. Nem todas as pessoas têm condições para fazer investimentos financeiros através de algoritmos e de aplicativos informáticos.

O gestor de conta faz falta a essas pessoas. O estar diante de alguém, ouvir a sua opinião sobre o produto e acima de tudo, ver a sua reação às questões ou dúvidas que lhe são colocadas é fundamental para a existência de um bom nível de confiança.

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