As marcas que provocou a MiFID II na indústria da gestão de ativos


A maior revolução regulatória na indústria financeira europeia da última década já soprou as primeiras velas. A MiFID II entrou em vigor no passado dia 3 de janeiro. Nesse tempo, o pacote de legislações introduziu mudanças significativas nas empresas de investimento e nos mercados financeiros desde as normas sobre “inducements”, a regular o pagamento do research de terceiros.

Este último foi um grande disruptor já que sob a MiFID II as empresas provedoras de análise – bancos e brokers –  devem fixar preços pelos seus pacotes de análise de maneira independente dos custos de trading (comissões e spreads). Por sua vez, as gestoras tiveram de decidir assumir este custo ou imputá-lo a clientes. Estas mudanças, motivadas por querer evitar possíveis conflitos de interesse entre empresas e brokers, “romperam com o modelo de negócio histórico das empresas de investimentos”, afirma um recente estudo elaborado pelo CFA Institute.

Os clientes das grandes empresas de investimentos tomaram por garantido que as gestoras assumiriam os novos gastos. Assim, a pressão competitiva “forçou” a que a maioria das gestoras absorvesse os custos de análise. Também foi determinante o facto das empresas que passaram o custo aos seus clientes terem de estabelecer contas novas para o pagamento, com os consequentes requerimentos regulatórios adicionais.

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Segundo o relatório, não há dados que mostrem que as gestoras tenham incrementado as suas comissões de gestão para compensar os custos de análise. Isto é positivo para os clientes, mas revela também maior pressão nas margens para a indústria. “Isto sente-se mais nas pequenas empresas, que proporcionalmente têm maiores custos de análise por unidade de ativos sob gestão, o que sugere uma curva competitiva para as entidades maiores”, aponta o estudo.

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As gestoras estão a cortar nos seus orçamentos de análise de terceiros e quem está a sofrer mais são as empresas mais pequenas. Como se pode ver no gráfico anterior, as de tamanho menor, reduziram mais essa parcela. Além disso, as gestoras maiores são as que têm mais capacidade para mover a sua produção de análise interna à medida que reduzem a sua dependência de provedores externos.

E isto também tem consequências para os mercados. Como bem assinala um gestor que respondeu ao inquérito, reduzir na análise de terceiros implica ter menor acesso a distintas fontes de informação das quais obter ideias e conselhos de investimento. Outro gestor de obrigações vê que uma queda na quantidade de análise disponível influi numa queda de qualidade e profundidade da mesma. “E isto tira mais liquidez a um mercado já ilíquido por si só”, sentencia.

Há números que mostram que certos espaços do mercado foram impactados. Ao fim e ao cabo, as empresas de análise cobriram os nichos que maior rentabilidade lhes dá, isto é, as large-caps. “Se esta redução na qualidade e cobertura da análise de ações small e mid caps contínua poderá danificar a liquidez e a formação de capital nesse setor”, vaticinam no CFA Institute.

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“Está-se eliminar a sobre capacidade da oferta de análise, mas a pergunta sobre se o equilíbrio alcançado é em melhor interesse dos investidores ainda está por responder”, conclui o relatório. De momento, as gestoras têm-no claro:

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[Pode aceder ao estudo completo aqui]

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