“As empresas líderes nos seus setores na China irão acabar por ser líderes globais em poucos anos”


“Na última década era possível fazer dinheiro sem ser necessário investir em mercados emergentes. Para quê arriscar, se podem obter o mesmo retorno investido em grandes capitalizações norte-americanas?”, reflete Austin Forey, gestor do JPM Emerging Markets Equity Fund. O especialista visitou a Funds People recentemente, com uma missão muito específica: explicar que as ações, hoje em dia, representam uma oportunidade de investimento.

“As valorizações atuais das ações desenvolvidas são muito elevadas. Vemos retornos mais competitivos nas ações emergentes, face a outros mercados”, continua o gestor da J.P. Morgan AM, que declara: “Nos últimos anos, nunca o contexto tinha sido tão animador para nós como nos dias que correm”. É certo que alerta os investidores que querem aventurar-se em águas emergentes que deverão esperar “que aconteçam grandes correções, que acontecem de vez em quando”. Apesar destas oscilações, o que é importante para o gestor é manter a perspetiva cronológica: “Não é preciso preocupar-se com a volatilidade no curto prazo, o que importa são os retornos no longo prazo”.

O grande passo em frente

Em 2018 celebrou-se o 30º aniversário da criação do índice MSCI Emerging Markets. Forey explica que, em 1988, só haviam 10 países representados no índice, sendo a Malásia o de maior ponderação. A capitalização do indíce subia para 52.000 milhões de dólares, equivalente a 1% das ações globais da época. Atualmente, o índice engloba 24 países e apresenta uma capitalização equivalente a 12% das ações globais.

O gestor destaca que agora o indicador “reflete melhor a realidade económica dos emergentes, com uma maior representatividade da China”. De facto, este considera que este maior protagonismo chinês será a chave para investir no futuro: se agora as ações de classe A (as que cotam em Shangai) representam menos de 1% do índice, Forey calcula que poderão alcançar uma ponderação de 13%-14% para 2025.

O gestor sublinha também, a melhoria da liquidez neste mercado: “Agora há mais liquidez na China do que em todo o universo emergente. É a maior mudança para os investidores em emergentes dos últimos 20 anos”. Forey acrescenta outra observação importante para os investidores, e evidencia o grande passo em frente dado pelo país em termos bolsistas: “Temos de nos habituar à ideia de que as empresas líderes nos seus setores na China irão acabar por ser líderes globais em poucos anos”.

A disrupção que está por vir

“Atualmente o MSCI Emerging Markets tem tanta tecnologia como um índice de ações desenvolvidas”, continua o gestor. Segundo Forey, a história recente dos emergentes “tem mais a ver com a criação de novas oportunidades de investimento em empresas, num mundo que evolui rapidamente”, ao ponto do especialista opinar que “já não podemos ver o Ocidente como a representação do futuro claro para os emergentes”. Refere-se ao famoso fenómeno que os anglo-saxónicos definem como “leapfrogging”: mercados em desenvolvimento que se incorporam diretamente nas últimas inovações, sem passar pelas fases intermédias que os mercados desenvolvidos viveram.

O gestor exemplifica com o desenvolvimento do negócio dos seguros na China: “As seguradoras estão a registar um crescimento mais rápido que o PIB. À medida que a população chinesa vai acumulando bens e riqueza depois de aceder a classes médias ou altas, terão mais disposição para contratar seguros de vida. Atualmente, o gasto per capita em seguros é de 100 euros, que continua a ser um valor muito baixo em comparação com o Reino Unido ou até em relação à Coreia.” A particularidade deste desenvolvimento do negócio dos seguros, segundo o especialista, é que “as seguradoras chinesas não são nada parecidas às ocidentais, pelo uso que fazem da tecnologia: investiram em cibersegurança, desenvolveram software de reconhecimento facial para conhecer o cliente e introduziram o uso de Inteligência Artificial (IA) através de apps; são todos usos tecnológicos que empregam para obter eficiência e nível num país com muita população”.

Este comentário serve para o especialista se focar sobre a tão comentada disrupção tecnológica, mas implementada ao mundo em desenvolvimento: “Estão a acontecer inovações tecnológicas nos emergentes que ainda não conhecemos nos mercados desenvolvidos”, afirma. Exemplifica com a empresa chinesa Tencent, que oferece através de uma mesma aplicação, serviços próprios de uma rede social, mas também de jogos online e de sistemas de pagamento eletrónico. Outro exemplo que o especialista usa é a empresa argentina Mercado Libre, que é líder em vendas retalhistas no sul da América, ao oferecer um serviço que se trata de uma combinação das funcionalidades que empresas como Amazon y Paypal oferecem . “A inovação em emergentes vai mais além da que está a acontecer nos mercados desenvolvidos, e é diferente da que aconteceu em mercados desenvolvidos”, afirma o gestor.

O fundo

O JPM Emerging Markets Equity Fund está qualificado como Blockbuster Funds People. É um produto que se alavanca nas fenomenais capacidades da J.P.Morgan AM em mercados emergentes: conta com 99 profissionais do investimento no terreno, repartidos por nove localizações e que falam 21 línguas diferentes, dos quais 18 analistas se dedicam exclusivamente ao segmento de ações chinesas de classe A. A equipa do fundo mantém cerca de 5.000 reuniões por ano para poder avaliar em profundidade as oportunidades e riscos que as empresas representam do seu conjunto.

A análise ESG tornou-se numa parte fundamental deste processo, com ênfase no G de Bom Governo: “Ao investir em emergentes, é sempre importante pensar na qualidade das equipas de administração, entender quais são as suas motivações, os seus objetivos e a sua tolerância ao risco, assim como identificar aos seus acionistas de referência”, indica Forey. Este acrescenta que também são importantes os riscos sociais e do meio ambiente que as empresas do conjunto possam apresentar, uma vez que a abordagem do fundo se foca em negócios sustentáveis no longo prazo e com modelos de alta qualidade: “Somos investidores a longo prazo e os riscos a longo prazo preocupam-nos, por isso é que ESG é importante para nós”.

O fundo apresenta um horizonte de investimento de muito longo prazo. Atualmente sobrepondera o setor de matérias-primas e aumentou a exposição ao consumo. A China representa a maior sobreponderação por país pela primeira vez para o fundo, que historicamente sobreponderou esta região em carteira.

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