As eleições europeias acalmam os ânimos... mas a curto prazo


Mais de 400 milhões de pessoas estavam convocadas para ir votar nas eleições europeias e desta vez foram menos as que ficaram em casa perante umas eleições que historicamente nunca tinham despertado o mesmo interesse que as nacionais. Em concreto, segundo os dados que se conhecem até agora, quase 51% dos eleitores votaram o que representa o número mais alto dos últimos 20 anos. Isto tem muito a ver com o facto da data eleitoral ter coincidido em muitos países com os comícios locais.

O resultado, pelo menos o que se conhece até agora já que há muitos países onde o escrutínio não alcança 100%, foi o esperado. Ganhou o bloco maioritário formado por populares, que mantiveram a sua primeira posição, e socialistas com a segunda posição, mas o auge de outros partidos, incluindo os mais eurocéticos, evitou que os partidos tradicionais mantivessem essa maioria absoluta de que disfrutaram os últimos 40 anos. Aqui também, acabou-se o bipartidismo.

De momento, o facto de que o maior risco, o de uma forte subida dos eurocépticos, tenha ficado um tanto suavizado – conseguiram segundo os primeiros resultados menos de 30% dos votos – é o que explica que a reação das principais praças europeias tenha sido em alta, ainda que seja uma subida tímida. “Do nosso ponto de vista, parece que o risco de uma grande ascensão dos partidos eurocépticos não aconteceu. As subidas foram tão pequenas que não parece ter havido uma união maior do que a que se viu no parlamento anterior”, afirmam na ING Economics. Assim, tal como explica Matt Siddle, gestor do Fidelity Funds European Larger Companies Funds, “em termos de ações europeias, grande parte da incerteza relacionada com o resultado das eleições no Parlamento europeu já estava prevista. Ainda assim, os mercados de ações europeias estão a sofrer uma incerteza maior do que a habitual, com uma grande amplitude de resultados potenciais para 2019:  de um mercado em baixa por recessão até um auge impulsionado pelas políticas que se podem aplicar a partir de agora”.

E não nos podemos esquecer de que grande parte dessas incertezas saíram precisamente dos comícios europeus. Por exemplo, em Itália, o partido de extrema direita, a Liga, de Matteo Salvini, foi o mais votado com 34,3% dos votos, e segundo comentava na semana passada Philippe Waechter, economista chefe da Ostrum AM, “o resultado de Itália será o mais monitorizado já que provavelmente é o único que pode ter um impacto no seu balanço interno no curto prazo”.

França e Alemanha eram outros dos países que mais interesse apresentavam por parte dos investidores e o resultado também foi o esperado, com punições aos partidos governantes, segundo os primeiros dados. Concretamente, em França, o partido mais votado voltou a ser o de Marine Le Pen, uma clara forma de punição a Macron pela gestão da crise dos coletes amarelos. Na Alemanha também houve um voto como forma de punição a Merkel já que ainda que os conservadores se tenham mantido como primeira força ao somar 28,9% dos votos, o número é 6,4% menos do que nas eleições europeias anteriores.

“A incerteza política não acabou e não só porque é um ano muito ativo em eleições mas também porque a política europeia ainda não se deu conta do mal que pode fazer um aumento da insurgência populista que se criou”, assegura Jörg de Vries-Hippen, CIO European Equities, da Allianz Global Investors.

A preocupação com o Brexit

Mas para além do que hoje as eleições europeias refletirem no mercado, a grande incerteza que a Europa enfrenta continua a ser o Brexit, mas depois da demissão de Theresa May na passada sexta-feira dispararam as opções de que finalmente aconteça um Brexit sem acordo. “Consideramos que há uma probabilidade entre 30% a 35% do que aconteça um Brexit sem acordo, não tanto por ser o que as pessoas querem mas porque não há tempo para alcançar um acordo que o evite”, assegura David Zahn, responsável de ações europeias, da Franklin Templeton.

Mas tendo em conta que o parlamento europeu estará com uma presença maior a partir de agora os artífices precisamente a campanha a favor do Brexit já que a formação de Nigel Farage se impôs com 28 eurodeputados de um total de 73, o que também não impulsiona a possibilidade de alcançar um acordo que evite um hard Brexit.

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