Os pontos chave para entender o que se está a passar na economia e nos mercados


O panorama é bastante incerto. Isto afecta tanto a economia como os mercados, embora nesta ocasião pareça que são as questões macro que estão a condicionar a evolução dos mercados financeiros. Nos últimos meses, observámos uma deterioração dos dados económicos, ainda que apontem para um contexto de crescimento. Os dados PMI continuam, na maioria dos países, acima dos 50, com os países desenvolvidos a mostrarem um melhor comportamento do que os emergentes. O problema é que a fotografia é estática e não reflete a tendência. Neste sentido, a direção que seguiram os PMI de produção industrial tem sido contrária. Os índices dos mercados desenvolvidos têm mostrado quebras, se bem que ainda estejam em níveis que indicam expansão; isto enquanto os países da periferia europeia continuam a mostrar os valores mais elevados. Os PMI dos mercados emergentes também sofreram, ainda que em menor medida, e estão abaixo dos 50. De tudo isto, o que mais preocupa as gestoras de ativos é que a deterioração teve origem no arrefecimento do sector de serviços (gráfico 1: Market Insights da J.P.Morgan AM).

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A robustez do consumo de países desenvolvidos é o que muitos consideram o ‘floor’ sobre o qual se cimentam as suas expectativas de crescimento económico. Tudo parece indicar que o sector privado conserva intacta a sua capacidade para consumir. Nas economias desenvolvidas, o desemprego tende a baixar e os salários a aumentar. Além disso, o preço das matérias primas parece estar a consolidar-se em níveis contidos. No entanto, o crescimento do consumo global ronda os 2%, um dado que muitas entidades consideram decepcionante. “Provavelmente, no primeiro trimestre veremos uma das taxas de crescimento mais baixas do último ciclo expansivo. Ainda assim, será um crescimento positivo entre 0% e 1%, ritmo que acelerará durante os próximos trimestres”, assegura Manuel Arroyo, diretor de Análise e Estratégia da J.P.morgan AM para a Península Ibérica. O curioso é que isto seria uma reedição do que sucedeu no ano passado, quando o PIB experienciou, no primeiro trimestre, uma notável desaceleração, para depois disparar. Nesta ocasião, a recuperação não seria tão forte.

Do que não há dúvida é de que, no plano macro, os bancos centrais continuam a ser os grandes protagonistas. As distintas medidas aplicadas têm tido efeitos evidentes sobre as divisas e os ativos reais. O impacto nos mercados de obrigações é mais que evidente. Cerca de 65% do índice global cota atualmente a uma yield inferior a 1%, e uma em cada quatro obrigações oferece uma rentabilidade negativa (gráfico 2: Brandywime – Legg Mason). Por agora, nada faz prever que os bancos centrais mudem a sua política monetária. O Banco do Japão continuará a expandir o seu balanço e o BCE não será diferente. A Janet Yellen também não parece sentir-se especialmente pressionada para continuar a subir taxas nos EUA. “A robustez do dólar não está a ser ignorada pela Fed. Está a ter efeitos muito severos sobre a sua economia. Provocou uma queda dos lucros das empresas do S&P 500, para mínimos de 2009, e um abrandamento das exportações. A banqueira central não fará nada que provoque a apreciação da divisa. Enviou uma clara mensagem dovish”, assegura Richard Lawrence, gestor da Legg Mason Global Fixed Income, numa apresentação em Madrid.

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Essa preocupação relativa aos efeitos da robustez do dólar é evidente no número de vezes que Janet Yellen menciona a divisa nos seus comunicados (gráfico 3: Market Insight, J.P.Morgan AM). O extraordinário é que, por vezes, o mercado não acredita no que diz. Existe uma clara desconexão entre o que diz a autoridade monetária e o que pensam os investidores. Em dezembro deu a entender que em 2016 haveriam quatro subidas de taxas e o mercado antecipou menos de duas. E tudo leva a crer que os investidores tinham razão. “O mercado começou a questionar a efetividade das políticas monetárias que estão a implementar os principais bancos centrais. Este é um dos factores que gerou tanta volatilidade no primeiro trimestre. É um problema de credibilidade”, sublinha Arroyo. As flutuações dos preços dos ativos tem sido elevada.

Captura_de_pantalla_2016-04-26_a_la_s__12Nas obrigações, em 2007-2008 produziu-se um pico muito importante na volatilidade de obrigações do Tesouro dos EUA. Neste início de ano isto não aconteceu. Nas ações, no fecho do primeiro trimestre, tínhamos assistido a já 26 dias com variações de mercado de +/-1%, o que anualizado significaria que este ano teríamos mais de 100. Se se comparar com outros anos, 2016 seria um ano com muito movimento. O investidor está a encontrar motivos para duvidar da efetividade da política monetária. E há motivos para preocupação. Entre eles, figura o facto de que, depois de vários programas de QE, os bancos centrais não tenham conseguido alcançar ainda o que, a priori, era um dos seus grandes objetivos: gerar inflação. Se forem analisados de maneira agregada os IPC das principais economias desenvolvidas, observa-se que não só não foram atingidos os seus objetivos de inflação, como esta está próxima dos 0% (gráfico 4: Brandywine – Legg Mason). E as expectativas continuam cair, não existindo probabilidade de que subam no curto prazo.

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“Os mercados não devem concluir que a re-aceleração do crescimento irá ter consequências inflacionistas significativas. Não será assim durante algum tempo. A terceira onda de deflação castigou recentemente as previsões da inflação. A oferta na maioria dos mercados é abundante e poucos sectores ou empresas mostram alguma capacidade de fixação de preços“, afirma Dominic Rossi, diretor de investimento em ações da Fidelity. Na ausência de impedimentos sob a forma de inflação ou contração monetária, muitos acham improvável uma dinâmica recessiva. “A recuperação lenta, embora duradoura, com múltiplos miniciclos intercalados, pode acompanhar-nos durante muito tempo. As principais causas desses miniciclos frequentes nos mercados desenvolvidos são as políticas dos bancos centrais e a maneira como os mercados as interpretam, fatores políticos e a confiança dos particulares, empresas e investidores. Tudo isso leva a oscilações e a muitas surpresas nos dados”, sentencia Valentijn van Nieuwenhuijzen, chefe de multi-ativos no NN IP.

 

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