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Alternativas aos ativos livres de risco para se proteger em momentos de crise dos mercados


Os investidores começam a procurar alternativas aos ativos livres de risco. A razão é simples. Num contexto no qual a dívida pública de países tradicionalmente considerados como refúgio oferece yields negativas, existe uma crescente necessidade de procurar diversificação que não só traga descorrelação, mas também rentabilidade em momentos de crise dos mercados. “No contexto atual, os investidores estão a sentir a necessidade de diversificar e reduzir o risco das suas carteiras. Para isso, estão a utilizar diferentes ferramentas que historicamente ofereceram uma menor correlação, como os fundos de retorno absoluto, ativos alternativos (infraestrutura, energias alternativas...), estratégias com coberturas, divisas ou o próprio ouro”, indica Sasha Evers, diretor geral da BNY Mellon IM para a Península Ibérica e América Latina.

Neste sentido, o ouro está a posicionar-se como o ativo que mais interesse está a despertar, como evidencia a forte subida sentida no preço do metal e também os fortes fluxos que estão a captar os ETC que replicam o seu comportamento.

É tanto assim que o dinheiro que estes produtos estão a atrair movimenta-se numa zona de máximos históricos. Em 2012, com a crise do euro, atingiu um pico e agora alcança níveis muito semelhantes. “Hoje o ouro é absolutamente chave numa carteira”, assegura Andy Warwick, gestor do BNY Mellon Global Real Return, fundo que historicamente manteve exposição áurea. No último ano duplicou-a. “Atualmente 12,5% da nossa carteira está investida num ETC sobre ouro. Em 2011 tínhamos 14% por isso a nossa exposição à matéria-prima está atualmente muito próxima de máximos”, revela numa entrevista à Funds People.

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Mas... o que explica este repentino interesse pelo ouro? Segundo César Muro, especialista de Investimento em Gestão Passiva na DWS, na realidade não é um, mas vários fatores. Alguns são fundamentais e outros relacionados com o ciclo. “O dinheiro não para de entrar em produtos de ouro, algo que se acentuou após se perceber que existe uma correlação negativa entre taxas de juro e a evolução do preço do metal. Os investidores com carteiras multiativas estão a incorporar o ouro como elemento de diversificação, com o objetivo de estas serem mais robustas. Isto está a impulsionar o preço do ouro, assim como fatores relacionados com tensões geopolíticas, como a guerra comercial, o risco do Brexit...”, indica.

302e0bc9237be6e3De acordo com Warwick, uma das vantagens dos ETC de ouro é que são instrumentos muito líquidos. “Pode transacionar 1 000 milhões de dólares numa hora”, assegura. Para o gestor canalizar a exposição ao metal amarelo através de ações de empresas mineiras não  é uma boa solução. “Podem funcionar bem a curto prazo, mas a longo prazo está demonstrado que destroem valor”, indica. A única alternativa que vê viável para proteger a carteira é construir posições num ETC sobre o ouro. Antes de o fazer, o investidor deve analisar que fatores empurram a sua evolução porque nem sempre são os mesmos.

“Algumas vezes são as taxas de juro nos EUA, outras a inflação americana, o dólar, as taxas reais, as ações, os ativos reais... Num contexto deflacionista, no qual parece que estamos agora, no qual o dólar valorizou e as taxas de juro nos EUA estão a descer, é provável que o ouro continue a funcionar bem. Acrescentaremos mais”, adianta.

Para saber qual é o efeito real de incorporar ouro numa carteira a longo prazo, na Invesco compararam o comportamento de duas carteiras durante 20 anos. O objetivo é comparar no comportamento de duas carteiras em momentos pontuais, o ouro tem um efeito positivo sobre a carteira de forma continuada, a longo prazo. “A comparação realizada deixa-nos como conclusão que, historicamente, ter 5% de ouro na carteira teve um efeito combinado: protegeu melhor a carteira em momentos de incerteza, sem que isso representasse menos rentabilidade a longo prazo, muito pelo contrário”, sublinha Laure Peyranne, responsável de ETF da Invesco para a Península Ibérica e América Latina.

Segundo explicam na entidade, ter posições em yenes pode funcionar como um elemento de diversificação da carteira. “Historicamente, esta divisa mostrou características defensivas semelhantes às do dólar americano, comportando-se razoavelmente bem em períodos de crise das ações. De facto, se analisamos a relação entre a divisa japonesa e as ações, vemos que o yen se revalorizou em duas em cada três ocasiões em mais de 30 trimestres nos quais as ações caíram desde 1990”, revelam. Em oito dos piores 10 meses do S&P 500, o metal teve um comportamento positivo, destaca Benjamin Louvet, cogestor do OFI Precious Metals (OFI AM).

É tarde para investir em ouro? Obstáculos e catalisadores: a sua evolução

A pergunta que se fazem os investidores que até agora se mantiveram fora do ativo é se, após o rally, não será demasiado tarde para apostar no metal.

De acordo com Gilles Seurat, gestor de multiativos da La Française AM, um dos obstáculos à subida do ouro é o posicionamento dos investidores, que parece estar saturado. “Isto poderá abrandar os avanços, mas provavelmente não conseguirá inverter a tendência de subida dos preços dos metais”, afirma. Historicamente, o ouro esteve altamente correlacionado com as taxas dos Estados Unidos. “Sofrerá num cenário no qual a Reserva Federal começa a subir agressivamente as taxas ou no qual o dólar continua a valorizar-se, contextos que não parecem os mais prováveis”, indica o gestor do BNY Mellon IM.

Não obstante, também há fatores que poderão antecipar uma continuação da tendência mantida pelo metal nos últimos tempos. “O mercado de ouro está em equilíbrio, mas há cada vez mais pressões no lado da oferta por três motivos: falta de descobertas, acesso cada vez mais difícil e custos de produção mais elevados”, aponta Louvet.

Segundo diversificador

As tensões comerciais tendem a favorecer as moedas defensivas. A razão principal é que uma guerra comercial baixa as perspetivas de crescimento mundial e o apetite por risco. Por isso, tal como assegura Christophe Donay, estratega chefe da Pictet WM, estando as coisas neste estado, as divisas de países com superávit estrutural de conta corrente e propriedade líquida positiva de ativos estrangeiros tendem a evoluir melhor.  É o caso do franco suíço e, em menor medida o yen japonês. “É uma divisa defensiva, à qual os investidores recorrem na procura por refúgio em períodos de volatilidade”, explica Luca Sibani, responsável de Investimento Discricionário e de Retorno Total da Epsilon SGR (uma subsidiária da Eurizon).

Trata-se de uma divisa que, além da descorrelação, no passado trouxe rentabilidade em períodos de stress de 31d6ae48856994demercado. “A correlação a seis meses da dívida pública japonesa e o ouro (em euros) a respeito do EuroStoxx 50 foi historicamente negativa. Isto significa que, em momentos de descorrelação das ações europeias, uma estratégia equiponderada composta por dívida pública europeia, obrigações soberanas japonesas e ouro pode proteger a carteira de um investidor num drawdown de ações”, indica Muro. O yen é também um ativo que utiliza o gestor do BNY Mellon Global Real Return. Atualmente, estão longos em yenes face a euros.

“É certo que é uma divisa que tradicionalmente funcionou em momentos de risk off. Quando o índice de volatilidade (VIX) aumenta, o yen aumenta o seu valor. Poderá registar-se 1% e 2% num só dia em fases de stress de mercado. Isso foi o que aconteceu no passado. Não obstante, o contexto atual é muito diferente. É preciso ter em conta que as divisas estão a ser manipuladas pelos bancos centrais, o que as torna menos fiáveis. No caso do yen, a sua velocidade reduziu-se como consequência da política monetária seguida pelo Banco do Japão, que a tornou numa divisa menos responsiva. Continua a funcionar, mas o ouro oferece mais proteção”, conclui Warwick.

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