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Alterações climáticas estão a mudar investimentos e carteiras


(TRIBUNA de Isabel Reuss, Diretora Global de Análise ISR (Investimento Socialmente Responsável), Allianz GI. Comentário patrocinado pela Allianz Global Investors.)

Independentemente da forma como os investidores veem a questão das alterações climáticas – inclusive como uma ameaça às indústrias intensivas em carbono ou uma oportunidade de contribuir para um bem maior – ignorar os seus efeitos sobre as carteiras parece cada vez mais uma opção de vistas curtas. Felizmente, existem muitas formas de os investidores incorporarem essa urgente questão nas suas estratégias.

Os avisos dos cientistas sobre um planeta em constante aquecimento aumentaram a consciencialização sobre as alterações climáticas – e a indústria da gestão de ativos está atenta. A razão para esse interesse crescente é simples: para desacelerar ou mesmo reverter o aquecimento global, o mundo deve transitar para um modelo económico de baixo carbono ou mesmo de neutro. E isso virá com um preço para consumidores, empresas e governos.

Claramente, os investidores são livres de escolher a forma de incluir esses custos nas suas decisões de investimento, ou podem optar por investir proativamente em soluções que ajudam a combater esse desafio global. Mas ignorar os efeitos das mudanças climáticas numa carteira parece uma opção cada vez mais difícil.

Considere, por exemplo, como certas classes de ativos ou setores poderiam ser forçados a fechar, direta ou indiretamente, em resultado de novas políticas e regulamentos destinados a refrear o aquecimento global. É por isso que alguns investidores filtram os combustíveis fósseis como “ativos ociosos” – ativos que podem, prematuramente, tornar-se obsoletos e devem ser registados ou vendidos – nos seus modelos de investimento.

Ao mesmo tempo, alguns investidores estão a utilizar a questão das alterações climáticas para contribuir positivamente para a transição para uma economia de baixo carbono – investindo, por exemplo, em empresas que já têm baixas emissões de carbono face a outras do seu setor ou em empresas com planos ambiciosos para reduzir as suas emissões de CO2 em linha com as metas internacionais.

Há ainda empresas de setores intensivos em carbono que oferecem produtos e serviços que facilitam a redução das emissões de gases de efeito estufa. Acima de tudo, é importante não pensar no investimento em alterações climáticas em termos de “bom” ou “mau”, mas em termos da melhor forma de conseguir mudanças reais por via da reestruturação de modelos de negócios, processos de fabricação ou setores inteiros.

Enquanto gestores ativos de investimento, não abordamos a questão climática aplicando filtros "bons" ou "maus" ou apenas enfatizando a exclusão. Em vez disso, procuramos acelerar a velocidade das mudanças positivas e, ao mesmo tempo, aumentar o valor dos ativos dos nossos clientes dentro de estratégias específicas, especialmente aquelas com um impacto social ou ambiental identificável para os nossos clientes.

Uma forma de fazer isso é ver como as emissões de carbono afetam um determinado investimento no passado, presente e futuro. Por exemplo, o passado pode manifestar-se através de litígios ou penalizações relacionadas como emissões anteriores, o presente pode ser afetado pelo “preço do carbono” e o futuro pode ser definido por ativos ociosos e setores destruídos.

Abordamos a questão das alterações climáticas igualmente de outras formas – incluindo avaliando as flutuações do preço das ações face à volatilidade nos preços da energia e examinando como os incentivos da gestão estão vinculados a metas corporativas relacionadas com o clima. Exploramos ainda a forma como os empregados são requalificados no decurso de uma reestruturação relacionada com o clima para refletir a “transição justa” – conceito promovido pelos Princípios do Investimento Responsável (PRI). Além disso, trabalhamos diretamente com os clientes e empresas para refletir as metas climáticas no contexto das suas próprias políticas de investimento.

Os riscos de não agir. As alterações climáticas mostram que a consideração dos fatores ASG (ambiente, social e governança) tornou-se uma necessidade na criação de valor de longo-prazo para os investidores. Basta olhar para o movimento dos “coletes amarelos” em França para ver como estas questões se cruzam, movimento social que surgiu dos protestos contra os impostos sobre combustíveis, para incentivar a conservação da energia e combater as alterações climáticas. E uma política que os legisladores pretendiam ter um efeito positivo provocou uma reação negativa que enfraqueceu a capacidade de França para aprovar novas reformas.

Para os investidores, isto evidencia a necessidade de efetuar análises abrangentes dos riscos e dos custos associados às políticas relacionadas com as alterações climáticas. Todos temos a oportunidade de ajudar a limitar o aquecimento global, promover a mudança ecológica de uma maneira socialmente responsável e preservar a Terra como um habitat para as gerações futuras. Mas, mesmo os investidores que operam num calendário muito mais imediato, devem incorporar as alterações climáticas nas suas decisões de investimento. Os riscos de não o fazer vão apenas continuar a aumentar.

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