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Algoritmos nos canais digitais e na consultoria para investimento: que riscos... e soluções?


Na era das fintech, robótica e plataformas digitais, a CMVM não quis passar em branco todas estas temáticas na semana mundial do investidor. Em território nacional, a “digitalização ao serviço do investidor” foi uma das conferências a inserir-se no âmbito desta semana e, no ISEG houve lugar para um painel onde se debateu precisamente a proteção do investidor no contexto da digitalização.

Numa interessante troca de ideias entre A. Barreto Menezes Cordeiro, da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Bruno Padinha, da E&Y, Hélder Rosalino, do Banco de Portugal, Manuel Caldeira Cabral, da ASF, e Vinay Pranjivam, da Deco/FSUG da CE, e moderação a cargo de Maria João Teixeira, da CMVM, houve lugar para explorar, entre muitos outros temas, a questão dos algoritmos, nomeadamente na consultoria para investimento num contexto de robot advising.

Ser humano ou ser 0 e 1: eis a questão

Numa conversa que tocou no ponto dos riscos associados ao uso dos algoritmos em canais digitais para fazer consultoria de investimento, A. Barreto Menezes Cordeiro, da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, foi o responsável por elencar alguns desses problemas. “A perceção da informação é totalmente diferente quando estamos cara a cara com alguém, do que quando se trata de informação escrita, por exemplo. Portanto, quando o investidor está numa plataforma online a receber uma série de informações e a decidir sobre elas, a perceção que existe é completamente diferente e, portanto, este configura-se como o primeiro risco”, iniciou, elencando os restantes riscos.

Achar que o algoritmo não tem falhas, foi outro dos riscos assinalados. “Do ponto de vista do investidor, quando este entra numa plataforma online, começa a inserir uma série de dados, uns simples outros menos, um dos primeiros riscos é achar que o algoritmo é perfeito, é científico. O algoritmo é feito por seres humanos. Somos irracionais em grande medida e, portanto, os algoritmos também o serão. Situações de conflitos de interesse, por exemplo, não serão afastadas simplesmente porque temos um algoritmo”, assinalou o profissional, lembrando ainda mais um risco inerente. “Outro dos riscos trata-se do risco de concentração, que se verifica por exemplo na Amazon ou no Facebook, e que se poderá vir a verificar nestas plataformas. Se determinadas plataformas têm dinheiro para contratar os melhores alunos que por sua vez conseguem fazer os melhores algoritmos (na China, nos EUA, etc), porque é que alguém acederá a um algoritmo de um banco português?”, perguntou retoricamente.

Por parte da CMVM foi trazida para mesa, ainda, o papel da regulação a este nível: Soft law? Mecanismos de orientação? – O que pode ajudar neste processo?

Da ASF, Manuel Caldeira Cabral, falou da necessidade de “uma regulação atenta aos riscos de insolvência”, pois estas plataformas “crescem muito depressa”. Não tirando o foco do facto de os riscos na proteção do investidor existirem, o profissional fez um paralelismo com o passado. “Os riscos atualmente não são assim tão diferentes dos riscos que existiam anteriormente; o robot pode ter um algoritmo que é enviesado, mas sabemos que os gestores de conta evidenciaram, muito antes da crise, 'algoritmos' também muito enviesados”, relembrou. Neste sentido, para Manuel Caldeira Cabral, é muito importante a existência de um código de ética, por exemplo, quando se investe numa carteira de investimentos. “Deveria existir um aviso claro de quais são os conflitos de interesse, porque se estão a vender produtos do próprio grupo vendedor, etc. Este tipo de informação deveria estar bastante clara tanto quando se trata da intervenção humana de um gestor de conta, como também quando falamos de um algoritmo posto em prática numa plataforma”, concluiu.

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