Alejandro Arévalo (Jupiter AM): “Gostaríamos que se mudasse a percepção de que a dívida corporativa emergente é apenas high yield”


Os verdadeiros fundamentais dos mercados emergentes não “vieram à luz do dia no ano passado”. Ora o que Alejandro Arévalo, gestor de fixed income emergente da Jupiter AM, quer efetivamente dizer, é que o que acabou por conduzir os mercados emergentes no decurso do ano de 2018 foram “factores externos”, não tendo sido refletidos os fundamentais destes mercados.

Em conversa com a Funds People Portugal, o gestor nascido na Guatemala explica que quando se olha para “os fundamentais dos mercados emergentes - mesmo que se tenha assistido a um abrandamento dos números do PMI - continua a existir um crescimento decente em alguns países”.  O especialista realça que as tendências referentes à inflação continuam a ser baixas, o que “tem aberto a porta ao corte de taxas por parte de muitos bancos centrais”. Caso que sucedeu por exemplo com o Brasil, “que cortou as taxas mais de 11 vezes no ano passado”. Em muitos países do universo emergente começou a assistir-se portanto a um crescimento “não do lado das exportações, mas sim do lado do consumo”. “Esse é o tipo de crescimento que queremos ver nos EM, porque é aquele que é sustentável. Os bancos estiveram dispostos a emprestar e os consumidores dispostos a gastar. Embora esta tenha sido uma “win-win situation”, contudo, os factores externos, como a chegada do novo presidente da Fed, o fortalecimentno do dólar, ou as tensões comerciais entre a China e os EUA, acabaram por ofuscar os fortes fundamentais que se sentiam nos mercados emergentes”, lembra o especialista, a propósito do ano que passou.

Diferenciação e carry

Os desenvolvimentos do lado dos EUA, são claro, de monitorização obrigatória, mas, nesse campo, Alejandro Arévalo não parece muito preocupado. “A Fed mudou o seu curso e tornou-se mais dependente dos dados; a inflação também está a recuperar. Não estou preocupado com o ciclo de subidas das taxas nos EUA, porque acredito que chegou ao fim, ou está muito próximo disso, o que é bom para os mercados emergentes. O que não é favorável para os mercados emergentes é que a Fed comece a cortar taxas, pois é sinal de que algo está errado com a economia”, ratifica. Por esta altura, o especialista é da opinião de que agora se vive um “sweet cenario”. Apesar de no ano passado “os spreads não estarem a refletir os fundamentais nos mercados emergentes, atualmente os spreads estão a acompanhar os fundamentais”. Dois meses depois do rally de início de ano, o gestor “não vê muita valorização de capital nos mercados emergentes”. O que está em cima da mesa, atualmente, é simples: “Agora trata-se de diferenciação entre títulos e de avaliação do carry; trata-se de escolher os vencedores que serão capazes de aguentar a volatilidade”.

O Brasil é um dos países em que se mostra de alguma forma confortável. “Com Bolsonaro estamos perante uma agenda muito mais pró-mercado. Embora ache que ele não vai ser capaz de fazer 100% do que promete, acredito que poderá ser positivo para o país, nomeadamente ao nível do défice fiscal, que se espera que comece a baixar”. Por sectores, revela interesse no sector de celulose e papel, “onde ainda veem uma forte procura da China, que tem proporcionado o crescimento dos preços”. O gestor assinala mesmo que “ainda que uma depreciação da moeda ocorra, este sector continuará a beneficiar”. Do lado do sector de transportes e logística, o interesse é suportado pelo facto de esperarem que o crescimento continue a recuperar. Por fim, os bancos brasileiros: “com a inflação do país mais controlada, e os consumidores a gastar dinheiro, os bancos constituem uma aposta alavancada na economia.¨.

Muito embora não seja um país de consenso para muitos, como faz questão de avisar, Alejandro Arévalo revela-se positivo em relação à Argentina. “O país entrou num processo de mudança significativa em 2018, especialmente por causa da depreciação do dólar. O governo de Macri aceitou a intervenção do FMI, o que significou que se propuseram a ser capazes de implementar planos de combate ao défice fiscal e controlo de inflação. Estas medidas são positivas no longo prazo, mesmo que continuemos a assistir a volatilidade, especialmente tendo em conta que é esperado que Macri e Kirchner vão à segunda volta nas eleições”.

Mas o investimento no país fica à margem da dívida governamental. “Estamos posicionados no país através das províncias. Ou seja, não investimos em dívida soberana, mas sim na dívida das províncias”, introduz. Segundo Arévalo, esta decisão justifica-se por acreditarem que “a estrutura destas obrigações tem sido

muito forte em termos da proteção dos investidores”, e porque quando olham para as demonstrações financeiras dos balanços dessas províncias percebem que são “muito mais fortes do que as soberanas”.

Tal como no universo dos mercados emergentes os países “não estão todos nas mesmas condições”, o mesmo acontece com este tipo de obrigações. “ O que nós privilegiamos é que estejam no Top Tier 1.  Achamos que mesmo num cenário em que Cristina Kirchner volte ao poder, estas serão capazes de reembolsar as emissões”, afirma, usando dados concretos. “Durante a era de dez anos de governação de Kirchner existiram empresas que foram sempre rentáveis, o que reflete a sua gestão. Gostamos portanto das empresas do país porque têm menos endividamento e sabem o que estão a fazer”, enfatiza. Destaca neste âmbito a Pampa Energia, que ganha espaço no portefólio desde 2013. “Temos adicionado também aeroportos, porque dentro do portefólio funcionam como um hedge, já que ao nível da moeda 50% dos lucros destes são em dólares”.  

Obrigações corporate e o posicionamento na curva

Perante este enfoque de Alejandro Arévalo, percebe-se a preferência que as obrigações corporativas de mercados emergentes têm ganho na forma como investe. “O investimento em obrigações não tem tanto a ver com a qualidade da empresa, mas sim com onde nos posicionamos na curva. Temos de estar confortáveis com a história, mas também sermos pagos por esse risco. Por isso mesmo, esperamos muitas vezes que a curva estabilize antes de entrarmos”, explica.

Este racional de investimento ganhou ainda mais forma há dois anos, quando a par do Jupiter Global Emerging Markets Corporate Bond, lancado em março de 2017, Arévalo passou a gerir o Jupiter Global Emerging Markets Short Duration (setembro de 2017) ,. Segundo o profissional, o racional deste fundo teve por detrás fortes convicções. “A primeira delas é que quando olhamos para as diferentes classes de ativos nos EM, aquela onde vemos maior crescimento é na parte corporate. Nós queríamos ter um fundo que beneficiasse desse crescimento. Em dólares, o mercado de dívida corporativa emergente é de 2.2 biliões de dólares, enquanto que no espaço soberano é metade desse valor”, comprova. Explica que este fundo se posiciona como “um building block”, e que em termos de posicionamento passaram de um ano de 2018 mais defensivo, em que o rating médio era de BBB-, para um atual rating médio de BB+. Executaram este ano também um aumento de duração para metade de um ano, e em termos regionais a Ásia ganha maior expressão, pelo seu carácter mais defensivo.

Numa quase que declaração de interesses, e com recurso ao gráfico abaixo, o especialista reitera: “Gostaríamos que mudasse essa percepção de que a dívida corporativa é apenas high yield e de elevada volatilidade”

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"Quando mostramos este gráfico aos investidores (que mostra o bom comportamento da dívida corporativa emergente) eles ficam muito surpreendidos, porque  o ano passado foi um ano muito mau para os mercados emergentes. Nas obrigações corporativas encontramos mais diversificação. Quando se tem apenas a perspetiva macroeconómica na cabeça, um investidor em obrigações soberanas acaba por não investir. Quando se trata de um corporate fund manager, mesmo que ele não se goste do contexto macro desse país, sempre encontrará empresas que lhe agradarão”, conclui.

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