Tags: Negócio |

Active is: Acelerar o crescimento económico via sustentabilidade


(TRIBUNA de Steffen Hörter, diretor global de ESG da Allianz GIobal Investors e membro do grupo de peritos em Finanças Sustentáveis da Comissão Europeia. Comentário patrocinado pela Allianz Global Investor.)

Encontramo-nos numa encruzilhada da estratégia de sustentabilidade da União Europeia (UE), cheia de pontos críticos com implicações importantes para os investidores. Num documento de reflexão recente, a Comissão Europeia (CE) sublinha que prevê um forte crescimento económico futuro da UE por via da transformação da sustentabilidade e da inovação empresarial.[1]

A CE pretende atingir o Crescimento e a Sustentabilidade do PIB em conjunto e estima uma necessidade financeira anual de 270 mil milhões de euros só para Clima, Energia e Água. Estima-se que os potenciais benefícios globais libertem um valor económico de 26 biliões de dólares (USD) por via de novos empregos, bem-estar e competitividade.[2] Permanece a questão sobre qual economia vai capturar a maior parte desse valor?

Nesta pesquisa económica sobre Ambiente, Social, Governança (ASG), resumimos as principais metas da UE para a Agenda Sustentável da Europa. Começamos com uma visão geral sobre o status quo do desenvolvimento sustentável na UE e apresentamos as questões essenciais. Em seguida, apresentamos três cenários potenciais futuros de política de desenvolvimento sustentável na UE. Enquanto perspetiva, destacamos as oportunidades da UE na globalização da sustentabilidade para ganhar a corrida internacional e ser o primeiro verdadeiro líder em sustentabilidade.

Reflexões da Comissão Europeia para o Desenvolvimento Sustentável

Num recente documento de reflexão de 2019, a Comissão vê os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (em inglês, Sustainable Development Goals ou SDG) das Nações Unidas (ONU) como uma bússola para atingir um crescimento económico próspero futuro na UE.

A fasquia está alta quanto às expetativas de sucesso dos negócios pela inovação da sustentabilidade e pela transformação de setores e empresas. Desafios ambientais complexos exigem novas tecnologias e soluções empresariais, em especial, já que a UE é igualmente sensível aos grandes desafios societais que uma rápida transformação da sustentabilidade trará no que respeita a potenciais custos de curto-prazo para os seus cidadãos e empresas.

Internacionalmente, as reflexões da UE sobre os SDG também discutem como a sustentabilidade pode exercer mais independência estratégica e ser exportada globalmente.

Ideias para estimular o crescimento via inovação e investimentos em desenvolvimento sustentável

Como é que a economia da UE pode capturar sua fatia de negócios e os investidores contribuírem para financiar os 6 biliões de dólares anuais, para atingir os 17 ODS até 2030? Na nossa opinião, a responsabilidade de comercializar esta oportunidade recai principalmente no setor privado, com a UE a apoiar e acelerar de forma crucial essa mudança. Para isso, é desejável por parte da UE uma direção política clara com metas definidas ao nível de política e economia.

É essencial o acesso a capital e a oportunidades de investimento. Por exemplo, acreditamos que os departamentos de parcerias público-privadas (PPP) com investidores ativos podem aproximar de forma crítica os SDG dos investidores de longo-prazo por via de uma escala muito maior no fluxo de projetos. Para consegui-lo, a UE deve promover mais as comunidades ligadas à inovação e ao conhecimento em investimento sustentável (do inglês Knowledge Innovation Communities, KIC) .3 Os investidores de longo-prazo, tais como os fundos de pensões e as seguradoras, vão ser fundamentais.

QUESTÕES ESSENCIAIS

Os pontos críticos ainda necessitam de clarificação sobre o Desenvolvimento Sustentável na UE

Se a UE vê os SDG como um indicador geral para a direção da economia, então os investidores procuram respostas para:

  • Como podem os inovadores em tecnologia da sustentabilidade encontrar um melhor acesso ao investimento do setor privado?
  • Que incentivos podem ser atribuídos a empresas de pequena, média e grande dimensão para inovar em serviços e produtos sustentáveis com a direção de transformar modelos de negócio?
  • Como tenciona a UE melhorar o acesso/oferta aos investidores privados de investimentos relacionados com os SDG?
  • O trabalho das Parcerias Público-Privadas (PPPs) – que outros papéis podem desempenhar, por exemplo, o Banco Europeu de Investimento, o Fundo Europeu para o Desenvolvimento Sustentável ou o Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos?
  • A política fiscal é uma ferramenta poderosa para objetivos políticos - como pode a política fiscal sustentável ser melhor impulsionada para alcançar os objetivos globais de sustentabilidade? Deveria a Coligação do Ministério das Finanças para a Ação Climática ser alargada ainda mais?

Para abordar estes desafios de sustentabilidade, delineámos três cenários políticos potenciais que podem definir a agenda Sustentável da Europa numa perspetiva de investimento futuro.

  1. UE adota abordagem económica e política suave para promover desenvolvimento sustentável

Neste caso, a UE não interferiria muito nas atividades do setor privado, se é que o faria. Consequentemente, a inovação de sustentabilidade necessária e a transformação económica seriam colocadas totalmente nos ombros e no apetite do setor privado.

Isso pode ser benéfico ao evitar a questão do free-rider e consequências não intencionais, através da distorção de mercado via subsídios. Mas arrisca que a agenda Sustentável da Europa seja muito lenta, ou que as oportunidades sejam negligenciadas pelo setor privado, levando potencialmente a UE a ficar para trás na sustentabilidade, ficando atrás de outras novas tecnologias como a Inteligência Artificial.

  1. UE dá uma orientação de sustentabilidade assente em princípios e fornece apoio

"Em vez de perguntarmos o que deve ser regulamentado, devemos perguntar o que o investimento privado consegue sem regulamentação"

Preferencialmente, a UE poderia participar como um defensor de transição da sustentabilidade na economia. Embora seja necessária mais clareza sobre as metas políticas e económicas da UE, pode alcançar o equilíbrio da sustentabilidade por via de orientação, colaboração e apoio. Por exemplo, definindo um preço para o carbono em vez de direcionar o como avaliar o risco de carbono.

Essa ação poderia criar uma ecosfera próspera para combinar a inovação empresarial impulsionada pela sustentabilidade com a procura pelo investidor de oportunidades atrativas de investimento no longo-prazo. Os investidores ativos devem ser apoiados para conseguirem atingir as verdadeiras oportunidades de inovação em Negócios Sustentáveis através de soluções criativas de I&D.

São necessários pelo menos dois para dançar o tango do desenvolvimento sustentável. Assim, se a UE pretendesse facilitá-lo, por exemplo, através de PPP e KIC, seria ainda importante que as empresas, as start-ups e os investidores participassem. Através do Plano de Ação para as Finanças Sustentáveis da UE, a UE abordou componentes essenciais do investimento sustentável (Taxonomia, Green Bonds, índices de referência sobre o Clima e rótulo ecológico da UE para produtos financeiros verdes). Possivelmente, poderia ser alcançado um salto mais além na integração, de um foco de investimento de impacto verde para um foco de impacto mais amplo que inclui muitos mais dos 17 GDS.

  1. UE impõe a inovação no desenvolvimento sustentável e a sua adoção dentro da economia

Seriam de esperar grandes subsídios e apoio financeiro da UE às empresas sob o tema de desenvolvimento sustentável, para que este cenário político se concretizasse. Para incubar a inovação e o crescimento, a UE teria que reorientar os subsídios da "velha economia", por exemplo o carvão térmico, para a “nova economia” com um enfoque nas metas da sustentabilidade. Adicionalmente, poderiam ser introduzidos novos mecanismos fiscais, como um imposto sobre o carbono e um esquema de dividendos na UE - semelhante ao promovido pela Carbon Pricing Leadership Coalition e apoiado por mais de 2.500 economistas norte-americanos liderados pela ex-presidente da Federal Reserve, Janet Yellen.[3]

Isto vai atacar o paradoxo temporal inerente à maioria dos desafios de sustentabilidade onde são necessárias ações imediatas, como as alterações climáticas, enquanto não existir incentivo do mercado – ou for muito limitado – para inovar e investir. Do lado negativo, existe o risco de free-riding, a falta de verdadeira inovação e o descontentamento público devido ao fato de os contribuintes pagarem a conta, bem como a complexidade administrativa vista como demasiada “burocracia”.

Corrida Global para a Sustentabilidade - perspetivas futuras do desenvolvimento sustentável

Se a UE for bem-sucedida enquanto líder global em tecnologias de sustentabilidade e inovação, incluindo standards e soluções de financiamento sustentável, a sustentabilidade como commodity comercial pode elevar ainda mais o crescimento do PIB na UE como exportação global e sucesso pioneiro. Poderiam igualmente haver efeitos positivos por via do Sistema de Preferências Generalizadas através de mais políticas comerciais e oportunidades de Investimento Direto Estrangeiro em países que também apoiam a sustentabilidade, o que atrai de novo para a economia da UE.

No lado dos standards financeiros, uma comparação que pode ser retirada aqui é a crescente adoção internacional de International Financial Reporting Standards (IFRS), que foram impulsionadas pela UE.

A médio-prazo, a colaboração da UE com a China e outros países em matéria de sustentabilidade é importante para os investidores, especialmente se forem desenvolvidas normas conjuntas para facilitar investimentos transfronteiriços e joint-ventures em torno de temas de sustentabilidade e listas de emissores de financiamento verde, por exemplo. A longo-prazo, o papel de sustentabilidade global da UE pode mudar devido a África, por exemplo uma nova Aliança África-Europa para o Investimento Sustentável e o Emprego poderá apresentar novas e inéditas oportunidades de investimento.

Na corrida global para a UE se tornar na principal economia de sustentabilidade que alcança um alto crescimento do PIB e uma pegada ecológica sustentável equilibrada (conforme mostra o Gráfico 3), tudo está por decidir e os riscos são altos. A UE tem uma boa posição de partida, mas deve fazer as jogadas certas em breve.

Captura_de_ecra__2019-06-28__a_s_12

[1] European Commission, Reflection Paper Towards Sustainable Europe, 2019.

[2] Garrido, L., Fazekas, D., Pollitt, H., Smith, A., Berg von Linde, M., McGregor, M., and Westphal, M., 2018. Forthcoming. Major Opportunities for Growth and Climate Action: A Technical Note. A New Climate Economy contributing paper.

[3] Carbon Pricing Leadership, https://www.carbonpricingleadership.org.

Empresas

Notícias relacionadas