Tags: Gestores |

"Acredito que vamos preencher um vazio no mercado português"


Numa entrevista exclusiva à Funds People Portugal, José Luis Jiménez, CEO da March Gestión de Fondos, fala do negócio e respectivas vantagens comparativas, assim como da oferta de produtos March International composta por três fundos UCITS IV registados no Luxemburgo.
 
Quais são as chaves do sucesso no negócio da gestão?
 
Para ter sucesso neste negócio há que cumprir com muitas características, como ter talento, bons profissionais, bem pagos, deixar espaço de manobra às pessoas. Isto em conjunto com uma boa filosofia de investimento dará certamente resultados que estarão visíveis em números.
 
Considera a independência uma vantagem comparativa e mais valorizada pelo cliente?
 
O discurso acerca da independência é relativo, porque pode ser-se independente e não ter solvência ou reputação, então isso não garante o negócio. Dou mais importância à solvência e à reputação do que à independência. Há que ver caso por caso e o que pode ser bom para um, não tem que ser necessariamente bom para outro. Nós temos a sorte de ter por detrás um banco muito solvente e sólido como a Banca March - único banco familiar 100% espanhol que não está cotado em bolsa: foi número um nos 'stress tests' europeus e tem um rácio de solvência que é o dobro da média da banca espanhola, e um dos mais altos da banca europeia.
 
Como evoluiu o negócio nos últimos anos, dada a conjuntura que vivemos?
 
Nos últimos três anos, em Espanha, crescemos cerca de 70% em activos sob gestão e aproximadamente 40% no negócio de gestão de carteiras. Isto face ao mercado que perdeu quase 40% em activos e 30% em clientes.
 
Apresentam-se ao mercado português agora, porquê?
 
O mercado português de fundos está a fazer a travessia do deserto, como aliás está o mercado espanhol. No entanto, estes são momentos de oportunidades, especialmente para quem tenha posições privilegiadas como eu considero que temos: com talento, oferta diferenciada e bons resultados. Quando falamos de uma gestora dentro de um grupo bancário com necessidades de liquidez, o negócio da gestão fica "automaticamente" em segundo plano, passando a prioridade a ser os depósitos, a emissão de preferenciais  ou outros instrumentos que colmatem as necessidades de liquidez. Enquanto que, no nosso caso, nos dedicamos única e exclusivamente à gestão de patrimónios. A minha convicção é de que uma entidade que faça banca privada ou gestão de patrimónios, se for boa, terá naturalmente uma gestora. Acredito que vamos preencher um vazio no mercado português porque temos produtos muito diferenciados, o que é perfeito para diversificar carteiras ou estratégias.
 
Qual a vossa filosofia e estratégia de negócio?
 
A nossa filosofia é a de criação de valor e protecção do património. Vendemos aquilo no qual já investimos. A nossa estratégia de negócio não é ter muitos distribuidores, mas poucos e com os quais temos uma muito boa relação, conhecem-nos bem e nós conhece-mo-los bem.
 
Quais os desafios para os últimos três meses do ano?
 
O nosso desafio é sempre o mesmo: fazer as coisas bem. Não temos um desafio de tempo nem de volume. Procuramos investidores institucionais ou bancas privadas ou 'family offices' que queiram ter outras alternativas de investimento com casas solventes e boa gestão.
 
Na gama March International existe um SICAV com cerca de 50 anos de história. Qual a estratégia?
 
O Sicav Torrenova representa uma estratégia emblemática do Grupo March com cerca de 50 anos de história. Trata-se de uma estratégia tradicional de 'asset allocation' básico entre uma exposição entre os 15% e 40% a acções (globais e sectores de beta inferior ao mercado) e entre os 50% e 75% em obrigações (dívida pública e obrigações corporativa). A posição de liquidez ronda os 10% e não há qualquer tipo alavancagem. Desde o inicio do ano até à data alcançou uma rendibilidade de 5,5%.
 
E o fundo estrela de vinho, também da gama March International?
 
O March Vini Catena é o primeiro fundo do mundo, temático, que investe em empresas da cadeia de valor do sector vinícola. O filtro aplicado na selecção de activos é que o vinho suponha um acrescento de valor significativo aos resultados da empresa. Trata-se do único fundo UCITS IV nesta temática. O vinho é um activo muito pouco correlacionado com o mercado daí que seja uma boa forma do investidor estar exposto a acções de forma defensiva.
 
Porquê especificamente o vinho?
 
Aquando do lançamento, em 2009, olhámos para trás e repáramos que, 2008 foi para a indústria um ano em que nada funcionou nem sequer a dita indústria mais preparada, a dos hedge-funds (que caiu cerca de 25%). O objectivo era encontrar ideias ou conceitos que funcionassem bem em situações complexas. O que vimos? Que a cultura do vinho era/é crescente em todo o mundo, pela sua componente cultural, gastronómica, social e até de saúde. Com tudo isto criámos um fundo muito diversificado dentro da cadeia de criação de valor do vinho.
 
Qual a composição da carteira e como se tem comportado o March Vini Catena?
 
Em carteira temos a Potash Corp (uma empresa do Canadá de fertilizantes e produtos industriais e alimentação animal (agricultura), a Vidrala, uma empresa espanhola que produz recipientes em vidro, a empresa francesa de champanhe Laurent-Perrier, a adega chilena Viña Concha y Toro, a australiana Tresury Wine Estates e a empresa de distribuição alemã Hawesko. Analisando resultados, a rendibilidade desde o inicio do ano é 11,5%. A volatilidade, algo muito importante para nós, assim como o "maximum drawdown" é de 9,78% no March Vini Catena contra os 15,68% do WSCI World.
 
Como descreve o mais recente fundo da gama March International,que partilha o conceito de empresas familiares com a Banca March?
 
O March The Family Businesses Fund é um fundo no qual mostramos a nossa especialidade, precisamente porque estamos no mesmo nível que essas empresas familiares nas quais investimos. Banca March é uma empresa familiar que vai já na quarta geração. Na hora de gerir é-se muito mais prudente quando se trata do nosso próprio dinheiro: há uma especialização, visão e contribuição que se quer deixar. O grande incentivo é querer fazer melhor que o antecessor. A rendibilidade, desde inicio do ano é de 7,5%. 
 
Qual a vossa definição de empresa familiar?
 
A Banca March é membro fundador do Instituto da Empresa Familiar em Espanha, por isso consideramos que estas são mais resilientes, especialmente em tempos difíceis. Para nós, uma empresa familiar é aquela na qual o individuo ou grupo familiar possuem pelo menos 20% das acções da empresa e na qual pelo menos um membro da família faz parte do conselho de administração. Numa empresa deste tipo a maximização dos benefícios económicos (riqueza financeira: crescimento, eficiência, rendibilidade) convive com a concretização de outro tipo de objectivos não económicos (riqueza sócio-emocional: continuidade, influência familiar, reputação) que são importantes para o grupo familiar proprietário.

Notícias relacionadas

O Mais Lido