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ABS: Europeus vs Americanos


Bálint Vágvölgy é senior portfolio manager e parte da equipa de asset-backed securities europeias e ativos hipotecários na Aegon Asset Management, uma das líderes europeias na gestão deste tipo de ativos. Em Portugal para um encontro com clientes e investidores, o profissional deixou claras as características do mercados europeu de ABS que o deixam bastante distante da realidade que deu origem à crise financeira global nos Estados Unidos. “Os mercados europeus e norte-americano de ABS demonstraram um comportamento muito díspar durante a crise de 2008/09. Infelizmente, muitas pessoas baseiam a sua atual percepção dos ABS na experiência que tiveram com os ativos nos EUA. Contudo, nós argumentamos que o mercado europeu tem que ser olhado de uma forma diferente”, comenta o especialista.

De facto, segundo o senior portfolio manager da Aegon AM, as taxas de incumprimento cumulativas nos ABS europeus no período de dez anos compreendido entre 2007 e 2017 não superaram os 2%. Isto, em claro contraste com o que no mercado norte-americano se verificou, com taxas de default acumuladas de 20%. “A principal diferença foi o mercado subprime nos EUA onde as perdas em hipotecas dispararam durante a crise”, explica.

Para Bálint Vágvölgy existe um conjunto importante de diferenças nas práticas de concessão de crédito hipotecário que explicam esta diferença:

- “Na Europa, a maior parte dos empréstimos hipotecários é feita por bancos regulamentados. Cada banco tem que ter um critério de concessão de crédito, que é testado e aprovado pelo regulador independente, e cada cliente potencial é testado contra esses critérios. A ideia não é apenas proteger os bancos, mas também os clientes, evitando empréstimos excessivos. Nos Estados Unidos, os empréstimos subprime foram feitos por entidades não regulamentadas e foi assumido que estas teriam que arcar com o risco de perdas nas suas carteiras hipotecárias. Infelizmente, as securitizações permitiram que se imputasse esse risco nos investidores. Esse modelo de originar para distribuir levou a um declínio nos padrões de empréstimos, já que os credores não tinham nada a perder”.

- “Na Europa, existe recurso total ao cliente. Isto significa que quando um devedor com hipoteca entra em default, a casa é vendida. Se houver alguma dívida remanescente, o devedor permanecerá responsável. Por isso, nunca é vantajoso para o devedor o incumprimento e, de facto, os principais fatores de incumprimento na Europa são o desemprego, os problemas de saúde e o divórcio. A situação é bem diferente nos EUA. Aqui, o devedor não é totalmente responsável pela dívida hipotecária e só há recurso à casa em colateral. Em caso de incumprimento, a casa ainda é vendida, mas não há outra reivindicação sobre o cliente para qualquer dívida remanescente. O incumprimento na hipoteca origina um score de crédito pessoal menos positivo em alguns anos, dificultando a obtenção de outro crédito hipotecário ou cartão de crédito, mas após cerca de cinco anos os registros são limpos novamente. Isto torna, por vezes, benéfico para o devedor o incumprimento, ou seja, quando a casa vale significativamente menos do que a hipoteca. Sem mencionar que, antes de entrar em default, faz sentido vender tudo de valor, como seja um forno encastrado ou aquecimento central, já que o recurso é apenas na casa e não em outros ativos financeiros do tomador. Isso reduz significativamente a taxa de recuperação do banco. Uma vez que os preços dos imóveis começaram a cair, as taxas de incumprimento realizadas foram muito maiores e recuperações muito menores do que o que seria esperado baseado puramente em indicadores macro, como desemprego ou crescimento do PIB”.

- “Por último, mas não menos importante, na Europa, os originadores retêm parte do risco de crédito do conjunto subjacente. Atualmente, eles são obrigados por lei a fazê-lo, mas mesmo antes da crise, era uma prática padrão. Nos EUA, todas as tranches do ABS foram vendidas, basicamente eliminando a exposição do originador após a emissão. Não ter nada a perder aumentou significativamente a sua capacidade para originar colaterais de baixa qualidade.”

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