A vitória com alto preço de Angela Merkel, a coligação Jamaica e o eixo franco-alemão: análise das gestoras internacionais


Parafraseando um dos momentos mais recordados do filme de José Luis Cuerda, “Amanece, que no es poco” (1989), os alemães refletiram nas urnas que todos somos contingentes, mas Angela Merkel é necessária. Com a renovação para um quarto mandato – está no poder desde 2005 – a chanceler faz história: só Konrad Adenauer e o próprio mentor de Merkel, Helmut Kohl, conseguiram cumprir quatro mandatos seguidos.

O mais provável é que o próximo governo alemão seja constituído a quatro mãos, tendo em conta os resultados eleitorais: a coligação que lidera a própria Merkel, a União Democrata-Cristã (CDU), em conjunto com o seu partido irmão da Baviera, o CSU, obtiveram 33% dos votos, o pior resultado desde 1949. A formação social-democrata SPD, liderada por Martin Schulz, obteve apenas 20,5% dos votos, o pior resultado da história do partido. Entretanto, a Alternativa para a Alemanha (AfD), com 12,6% dos votos, será o primeiro partido de extrema direita a entrar em Bundestag desde a Segunda Guerra Mundial. Também contarão com assento parlamentar os partidos de extrema esquerda Die Linke (9,2%), Os Verdes (8,9%) e os Liberais (FDP), que recuperaram 10,5% dos votos, depois de terem ficado de fora do parlamento na última legislatura.

Os analistas da Deutsche AM explicam que estes resultados podem ser interpretados através dos olhos do eleitor alemão - que segundo as suas palavras os interpretou como “um choque de placas tectónicas” – ou como um observador internacional. No segundo caso, são resultados que vão de acordo com a tendência de expansão dos partidos populistas com ideologias extremas na Europa, como aconteceu em França. “Governar a Alemanha está a deixar de ser algo aborrecido”, refere a gestora.

Jamaica

Tendo em conta que o SPD rejeitou entrar no governo, todos os olhos estão postos na possível coligação denominada Jamaica devido à combinação das cores do CDU/CSU, FDP e Os Verdes. É uma coligação que já funcionou a nível regional, no estado de Schleswig- Holstein. Azad Zangana, economista sénior e estratega da Schroders, realça que o parceiro preferido para a CDU/CSU neste contexto é o FDP, dada a postura liberal e pró-empresarial de ambos os partidos e por já terem formado coligação no passado. “No entanto, foi a postura intransigente do FDP a respeito da ajuda à Grécia e a outros governos periféricos que levou aos resgates durante a crise da dívida soberana”, recorda Zangana. Esta aliança seria positiva para as empresas alemãs, “mas é possível que seja menos positiva para a integração europeia”.

“A principal razão para que a coligação Jamaica pareça a mais provável é porque atualmente parece ser o único resultado política e matematicamente possível”, afirmam da Deutsche AM. No caso de não prosperar, perguntam-se se o SPD se irá manter na oposição.

Laurence Boone, a diretora de análise e economista-chefe da AXA IM, e Wolfgang Bauer, gestor da M&G Investments, concordam ao assinalar que as negociações serão difíceis. “Espera-se que sejam longas e se centrem na política europeia, no meio ambiente e na imigração”, afirma Boone. Para Wolfgang Bauer, o facto de serem difíceis e de poderem demorar algum tempo é uma situação que “claramente debilita a posição de Merkel tanto dentro da Alemanha como no estrangeiro”, pois poderá competir com o presidente de França, Emmanuel Macron, “pelo papel de líder não oficial da UE”. Se Macron for capaz de capitalizar o momento, “torna-se mais provável a mutualização da dívida da Zona Euro e a criação de um ministro europeu das finanças”. Em vez disso, será menos provável que se materializem os rumores sobre a possibilidade de Jens Weidmann – atual presidente do Bundesbank – substituir Mario Draghi à frente do BCE quando terminar o seu mandato, em 2019.

Segundo os analistas da Allianz Global Investors – que também preveem meses de negociações – se a coligação Jamaica se materializar irá requerer um consenso da parte dos seus quatro membros em torno de “políticas sobre o clima, impulso à digitalização, melhoria do sistema educativo e uma política sobre imigração clara”. Acrescentam ainda que os descontos fiscais também estão na agenda, “mas não há garantias de que se produzam acordos nesta matéria rapidamente”.

Para os especialistas do BlackRock Investment Institute, também será fundamental saber se Wolfgang Schäble irá renovar como ministro da Economia e se Merkel “irá oferecer esta poderosa posição à SPD para atrair os sociais democratas de volta à mesa de negociações”. Se o fizer, acreditam que poderia “suavizar a postura da Alemanha a respeito dos países da periferia e causar uma subida dos gastos públicos”.

Repercussão no mercado

As bolsas europeias reagiram com moderação aos resultados na Alemanha, enquanto houve uma ligeira desvalorização do euro. As gestoras internacionais consultadas para este artigo consideram que os mercados terão mais em conta o bom progresso de recuperação económica do que este resultado eleitoral.

Por exemplo, o gestor da Fidelity Nick Peters recorda que os governos de Merkel “fomentaram o crescimento alemão principalmente através da competitividade externa e, ainda que a economia apresente certos desequilíbrios, é pouco provável que o novo governo venha mudar este rumo de forma significativa com Merkel à frente”. Portanto, o resultado eleitoral deverá ser positivo para os setores exportadores, como a indústria e a saúde.

“O resultado eleitoral levou a uma ligeira queda do euro, mas pode ser efémera”, corrobora Rory Bateman, responsável de ações europeias da Schroders. A longo prazo, Bateman espera que o BCE “não retire os estímulos quantitativos demasiado rápido para evitar uma pressão de subida maior sobre a moeda”.

O responsável vê ainda potencial de subida na bolsa europeia graças à continuação dos tipos de interesse e o contexto de recuperação da margem de lucro das empresas. “De facto, acreditamos que os investidores poderão potencialmente ver uma valorização do mercado de até 30% dos níveis atuais para três anos”, declara.

No BlackRock admitem que poderão sofrer pela força do euro nas companhias exportadoras, ainda que a curto prazo, o que beneficiará a Alemanha: “Vemos margem para que o dólar recupere algum terreno face ao euro à medida em que a Fed pressione com a sua normalização monetária e a inflação esteja pronta para uma recuperação”. Acreditam que a inflação subjacente se mantenha apagada na Europa, obrigado o BCE a manter uma postura acomodatícia.

Christophe Bernard, diretor de estratégia na Vontobel AM, alerta que “o spread entre as bunds alemãs e as obrigações soberanas nos países periféricos poderia aumentar”, embora espere que “o impacto seja bastante contido”. A conclusão a que chega é que o resultado alemão pode servir como lembrete de que os partidos europeus estabelecidos devem abordar os temores a respeito de uma maior integração da UE uma e outra vez”.

E a respeito das bunds, a equipa de obrigações da J.P. Morgan Asset Management espera, apesar do desfecho eleitoral, “que conduza a uma continuidade da política fiscal prudente e a emissão limitada das obrigações alemãs nos próximos anos”. Neste aspeto, afirmam que “o BCE está perfeitamente consciente disto” e esperam em consequência que “continue com os seus planos de cortar na compra de ativos em 2018”, embora os investidores devam ter em conta que já se descontou esta possibilidade no mercado, pelo que “as implicações no mercado não devem ser significativas a curto prazo”.

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