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A vela e os mercados


São muitas as analogias desportivas, umas mais profundas, outras mais poéticas outras simplesmente patéticas!

Gosto de vela há vários anos e pratico com alguma regularidade sempre que posso, no meu veleiro já com uns trinta anitos, num outro mais pequeno e regateiro ou simplesmente num de algum amigo. 
Em todas as saídas há sempre algo de novo que se aprende, mas o básico, esse não muda nunca! Há que saber respeitar sempre o mar e invariavelmente ser capaz de entender o vento.
Quem anda pelos mercados há algum tempo, seguramente já teve de aprender a respeitar essa força incontornável que é o voto democrático do preço e, de alguma forma, foi aprendendo a ler os ventos. A diferença dos principiantes para os velhos lobos do mar está não só nessa dose de respeito, mas sobretudo na experiência de muitos anos a observar o clima.
No entanto, há outras regras mais subtis, para alguns básicas até, mas que muitos não seguem. 
 
Quando se decide ir para o mar, o primeiro é saber para onde se vai. Ter um objectivo pode até parecer primário, mas são muitos os que se lançam à aventura sem uma estratégia definida. Ao não ter um objectivo, qualquer caminho é sempre o possível!
Ao definirmos então esse objectivo, traça-se o rumo estimado e lança-mo-nos ao caminho. Estando à mercê dos elementos, resta-nos confiar na experiência do comandante e na destreza da tripulação, pois ao longo do caminho muito terá de ser ajustado para não nos afastarmos da rota pretendida. Os ventos mudam, as condições do mar alteram-se, as marés criam abatimento mas o objectivo esse, mantém-se sempre inalterado. Quando os ventos estão a favor, podemos tomar mais risco folgar as escotas colocar velas maiores e até surfar as ondas de balão para cima. Uma sensação inexplicável e melhor que aquela de olhar para o écran e verde tudo a dois dígitos e a verde.
Obviamente, os barcos nestas condições ficam mais instáveis, mas é a experiência da tripulação e o leme do mestre que dita o limite da tolerância ao risco. Não é assim tão pouco frequente ver barcos descontrolados nestas condições, sobretudo quando em mãos inexperientes, eufóricas ou simplesmente de novatos entusiasmados que lêem algumas revistas, assistem à CNBC e se sentem que nem uns Buffets.  Nada aliás que não me tenha acontecido já, tanto no mar como, como na compra de acções de tecnologia há uns bons anos atrás. 
 
Quando inesperadamente os ventos mudam e rodam na direcção da nossa proa, a vaga bate-nos de frente e começamos a sentir na cara o sabor da água salgada que tão violentamente rebenta no casco; de repente está tudo a encarnado! A velocidade abranda consideravelmente e a viagem torna-se bastante desconfortável para todos a bordo. As velas são caçadas ao máximo e lá vamos nós na "trinca" a subir e descer ondas de frente. O vento sobe ainda mais, mas não ha problema! A tripulação experiente serra os dentes e lá vai reduzindo pano para que o comandante ao leme mantenha o barco seguro, controlado e mais próximo possível do rumo definido. Há sempre quem prefira não ajustar o risco às condições existentes e lá segue de pano todo para cima. Uns até escapam, mas a grande maioria anda aos tombos até acabar por rasgar velas e ficar irremediavelmente para trás. Outros há que se assustam de tal maneira, que dão meia volta e regressam em rumos mais confortáveis, mas seguramente mais longe dos seus objectivos.  O pior mesmo, são aqueles que colocam em risco as suas vidas e daqueles sob sua responsabilidade, apenas por inexperiência e simples ganância. É o que invariavelmente assistimos, em cada correcção de mercado, clientes com grandes perdas por excesso de ganância, falta de disciplina ou simples falta de experiência dos seus skippers.
 
Mas enfim, como em todas as tormentas, segue-se invariavelmente a bonança e lá aparece o sol. O vento acalma-se e um magnifico mar azul saúda o tão esperado objectivo daqueles marinheiros experientes que souberam dosear o risco e tiveram a coragem para aguentar os embates.

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