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A resiliência de uma abordagem cautelosa e flexível


Há muitos fundos que se definem como flexíveis. Mas o normal numa estratégia flexível é a fluidez da alocação sectorial, por classe de ativos ou geografia. Por outro lado, o fundo Sycomore Partners configura-se com uma estratégia que se posiciona num extremo muito mais marcado de flexibilidade: a exposição a ativos de risco, neste caso ações europeias, pode flutuar entre 0% e 100%, conforme a visão de mercado dos gestores e as condições de mercado. Emeric Préaubert é um dos gestores da estratégia, mas também Chairman e Partner fundador da Sycomore AM e, em conversa com a Funds People, detalhou a sua visão do universo de investimento na atualidade e a filosofia pela qual é regida a estratégia.

Emeric Préaubert Sycomore“Não acho que os mercados de ações estejam atrativos neste momento. Vemos preços muito elevados nos EUA, investidores muito complacentes no que se refere às valuations, estamos muito perto do início da subida de taxas de juro na Europa, o mundo está sobrecarregado com dívida e a geopolítica está longe de ser pacífica, com Trump e as guerras comerciais, por exemplo. Contudo, o que estou a dizer agora tenho vindo a dizer ao longo dos últimos dois anos, mas estou menos preocupado hoje do que estava então. Isto porque, especificamente na Europa – o universo de investimento do fundo –, a situação mudou um pouco e entrámos num bear market que não é muito evidente no comportamento dos índices. De facto, se olharmos ao nível das ações individuais, vemos que dois terços das empresas europeias estão em território ‘bear’. Encontramo-nos numa conjuntura muito peculiar. Índices que caíram, mas pouco, e muitas empresas que recuaram 40%, 50% ou ainda mais, face aos máximos”, expõe Emeric Préaubert. É por isso que o gestor e partner na Sycomore AM vê agora um número cada vez mais significativo de empresas que negoceiam a uma valorização atrativa, algo que “não diria há seis meses atrás”.

Aparentemente em contradição, o gestor destaca então mercados de ações pouco atrativos, mas também muitas empresas que oferecem bom valor. “O mercado não é um ‘animal’ lógico, no curto-prazo. Estava muito sobrevalorizado há uns anos e hoje está mais atrativo. É um facto. A questão é que o mercado ou está subvalorizado ou sobrevalorizado e a minha melhor estimativa é que caminharemos para uma situação mais extrema o que faz com que estejamos muito cautelosos no que se refere a ações, particularmente durante este ano que agora começa”, alerta. E com uma abordagem contrarian Emeric Préaubert faz uma afirmação categórica.

Disciplina de investimento

Na descrição do processo do fundo, o gestor e partner da Sycomore AM repete frequentemente uma palavra em específico: disciplina. Isto porque é com imensa disciplina que a equipa de gestão aborda o universo de investimento e inicia ou finaliza uma posição. “Apesar de encontrarmos valor em algumas empresas, hoje em dia, mantemos a nossa postura cautelosa. Não as compramos já. Isto porque sabemos que as valutions só por si não são suficientes. Precisamos também de observar algum momentum positivo”, explica. Na seleção dos ativos a investir, Emeric Préaubert exige uma grande margem de segurança. “A ideia do fundo não é bater o benchmark. O objetivo é fazer dinheiro. E para fazer dinheiro no médio e longo prazo é preciso proteger contra o downside. Isto significa que para investir numa empresa precisamos de um grande desconto face ao valor estimado, a nossa margem de segurança. Noutras estratégias, 15% poderá ser suficiente. Na Sycomore Partners precisamos de pelo menos 50% de desconto face ao valor estimado. Isto explica porque temos poucos nomes no fundo e porque este provou ser tão defensivo em 2018”, afirma. Neste sentido, o gestor aponta que o fundo poderá ficar um pouco aquém caso os mercados se mostrem muito positivos, mas não vê esse facto como relevante. “O meu trabalho passa por ser conservador quando o contexto está difícil e comprar, só e apenas, quando encontrar um desconto significativo. Muito resumidamente, somos  muito cautelosos e disciplinados no que se refere aos investimentos”.

Flexibilidade

Com um universo de mais de 800 empresas europeias cotadas, a exposição do fundo pode variar, como referido, entre os 0% e os 100%. Historicamente, o Sycomore Partners chegou a uma exposição tão baixa como 20% - no início de 2008 – e tão alta como 90% -  no início de 2009, por exemplo. Em outubro de 2018 a exposição ao mercado era de apenas 24% e mais recentemente, perto dos 50%. “Podemos mover a exposição muito agilmente”, comenta o gestor. “Não temos limites em termos sectoriais e geográficos, mas o limite em cada nome individual é de 10%. É um universo de investimento muito diversificado e construímos o nosso portefólio ação a ação. Não há uma abordagem sectorial ou top-down de qualquer tipo. É puramente bottom-up, mas no fim do dia, o resultado é uma carteira muito diversificada, com uma reduzida exposição a ações do sector financeiro”. E como não faz sentido o investidor pagar por posições em cash, a Sycomore AM apenas cobra comissão de gestão na parte investida do portefólio. “Por vezes mantemos grandes posições em liquidez por vários trimestres ou até anos e não faria sentido cobrar aos investidores pela parte passiva do fundo”, explica Emeric Préaubert.

Esta abordagem cautelosa e flexível mostrou a sua robustez no ano que recentemente terminou. “Em 2018 o fundo recuou cerca de 4%. Preferiria estar positivo, obviamente, mas a verdade é que recuperar de uma queda de 4% é muito fácil. Assim que estivermos mais confortáveis, seja porque as valuations estão mais baixas ou como resultado de eventos que forçam investidores a vender ou que geram pânico nos mercados, aumentamos a nossa exposição e o fundo pode recuperar muito rapidamente. O Sycomore Partners tem-se provado muito resiliente em fases de mercado menos positivas”, conclui.

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