A perspetiva das ações asiáticas de uma gestora com presença local desde os anos 90


Kristy Fong é gestora da equipa da Ásia da Aberdeen Standard Investments. O seu trabalho baseia-se em identificar boas empresas para os fundos de ações asiáticas que a entidade comercializa, onde a empresa tem um conhecimento profundo graças às equipas que foram enviadas para o terreno. Algumas das estratégias, como o Aberdeen Global – Asia Pacific Equity Fund. Tal como explica, o processo de investimento que seguem na gestora não se diferencia da maioria no que diz respeito à essência da filosofia: “não quando procuramos bons negócios, não queremos pagar demais”, afirma. Contudo, é quando se aprofunda que se detetam os aspetos que fazem com que o processo seja diferente.

“A diferença principal baseia-se no facto de o nosso processo de investimento ser levado a cabo como um trabalho de equipa. Uma das nossas principais vantagens é que temos 40 gestores em toda a região asiática; possuímos escritórios locais, o que nos permite ter um conhecimento claro sobre o terreno. Outra das diferenças jaz na importância que damos à governança no processo de seleção das empresas. O peso que concedemos aos critérios ambientais e sociais também está a crescer. A governança é um fator muito importante para nós, sobretudo na Ásia, onde frequentemente estamos perante empresas familiares, ou empresas nas quais as famílias controlam o conselho, algo que poderá implicar um risco para os acionistas. Por isso, prestamos muita atenção ao fator de governo corporativo”, revela.

Relativamente às qualidades que uma empresa deve reunir para que possam investir nela, Fong explica que procuram empresas de alta qualidade. “São empresas que funcionam em setores que se caracterizam por demonstrar um crescimento estrutural que se possa manter no futuro. Na Ásia podemos encontrar isso em torno da temática do aumento do consumo que deriva de uma classe média crescente. Também numa tendência global como é a capacidade para aproveitar o uso da tecnologia. Dentro destas indústrias procuramos empresas que tenham uma forte liderança no seu setor, uma vez que isso deriva no seu poder de definição de preços, o que lhes permite gerir melhor os obstáculos que poderão enfrentar”.

Em termos de qualidade, analisam a robustez do balanço da empresa e, neste sentido, procuram empresas que apresentem níveis de caixa sólidos ou baixo endividamento. Mas, sobretudo, têm de confiar na equipa que dirige a empresa. “Além de ser bons executivos têm de ser honestos e dirigir a entidade para todos os seus acionistas e não só para um grupo deles”. Quando analisam uma empresa que pode fazer parte da carteira, fazem-no com um horizonte de entre três e cinco anos; ou seja, procuram empresas que possam manter pelo menos esse tempo. “Tendo em conta que na Ásia gerimos ativos desde os anos 90, houve empresas que mantivemos durante dez ou vinte anos em carteira”, revela a gestora.

Quando se pergunta em que regiões ou setores específicos está a encontrar atualmente as melhores ideias de investimento, a Índia aparece na primeira posição, país no qual estão sobreponderados relativamente ao índice. “Parece-nos um mercado no qual é possível encontrar muitas oportunidades de uma perspetiva de seleção bottom-up. Inclusive com a imagem macroeconómica confusa do país há uma grande quantidade de empresas muito bem geridas que beneficiam do crescimento estrutural da Índia”.

A China é outro país que vale a pena mencionar e no qual recentemente realizaram algum investimento. “Uma das mudanças que vimos foi a maior maturidade do mercado. Fomos muito cautelosos porque muitas das empresas que cotam ali estão controladas pelo Estado, mas a abertura dos mercados permitiu-nos focar, sobretudo, na temática do consumo”. Também gostam de outros países do sudeste asiático, uma vez que oferecem muitas oportunidades de crescimento. A forma na qual parece aceder a elas é através da Singapura.

Por setores, estão muito centrados na temática do consumo, embora não só o consumo de produtos básicos. “Dentro do setor de consumo fomos sempre muito seletivos relativamente à tecnologia. No entanto, com o passar do tempo, a tecnologia foi tendo menos a ver com o hardware e mais com o comércio eletrónico, o que volta a estar ligado com a tendência do crescimento do consumo na Ásia”. Quanto às empresas chinesas da Internet, são muito seletivos. “Continuamos sem investir em empresas que têm uma estrutura corporativa com a qual nos sentimos desconfortáveis. Muitas destas empresas adotaram a forma de entidades de direitos variáveis. Isto implica que os acionistas de retalho não são proprietários dos ativos subjacentes da empresa”.

Também gostam do setor financeiro. “Não só o setor bancário ou o setor hipotecário, como HDFC, como também achamos as seguradoras interessantes, uma vez que se adaptam muito bem a uma temática interessante que é como os asiáticos estão a começar a tratar as suas poupanças”.

Valorizações atrativas

A especialista considera que as valorizações que as ações asiáticas oferecem atualmente são atrativas. “Há muitos fatores que afetaram a bolsa, como uma era de menor crescimento. Vimos o mau comportamento de 2018, mas todos estes aspetos negativos já estão descontados no preço. Sinto-me confortável com as valorizações atuais. No entanto, acredito que quando falamos de valorizações deveríamos diferenciar os segmentos que estão realmente baratos e que poderiam ter catalisadores em subida daqueles nos quais existem armadilhas de valor (value traps). Por isso, quando investimos colocamos a qualidade acima de tudo”.

“Queremos assegurarmo-nos de que compramos empresas cujo negócio esteja imerso numa dinâmica de crescimento estrutural, que conte com vantagens competitivas óbvias e que apresente retornos positivos durante o ciclo todo. Quando se dirige o olhar para a Ásia existem mercados que estão baratos que o poderão estar durante algum tempo e apesar de tudo temos pouca exposição. Um dos exemplos é a Coreia, onde os aspetos relacionados com a governança das empresas ainda desiludem”, conclui Fong.

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