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"A nossa filosofia de gestão é essencialmente orientada para os fundamentais"


José Calheiros, director de Barclays Wealth Investments, defende que a saída de um ou mais estados da união monetária é claramente o principal risco para qualquer gestor de obrigações em qualquer parte do mundo. 

- Qual é a chave do sucesso do prémio melhor gestora nacional de obrigações?

Boa análise de fundamentais, apostas claras, pragmatismo, trabalho de equipa, dedicação e muitas horas de leitura.

- Como está estruturada a equipa de gestão de obrigações? Número elementos? Processo de decisão?

A equipa de Obrigações europeias do Wealth & Investment Management é composta por 6 elementos, dois baseados em Paris, 1 em Lisboa e 3 em Madrid, onde o líder da equipa está situado.

A equipa funciona de forma multidisciplinar, com todos os seus membros a contribuir activamente para a definição e implementação das várias estratégias. Com base num modelo de avaliação de fundamentais, é atribuído um “scoring” e são seleccionadas cerca de 1.000 empresas, que posteriormente são filtradas por sector, localização geográfica, liquidez, perfil e maturidade das emissões, originando um grupo mais restrito de aproximadamente 300.

Finalmente, em sede de comité de Fixed Income, é determinado o universo de emitentes recomendados de acordo com a visão global da equipa, e são tomadas as decisões de implementação, nomeadamente exposição e maturidade por cada modelo de alocação.

- Qual a vossa filosofia de gestão e processo de investimento no que refere aos fundos de obrigações?

A nossa filosofia de gestão é essencialmente orientada para os fundamentais, reflectindo a enorme incerteza e volatilidade dos tempos conturbados em que vivemos.

Tentamos sempre perspectivar a evolução do mundo e dos mercados alguns meses no futuro e antecipar os principais movimentos através de estratégias variadas, que podem ir desde rotação sectorial até uma completa reestruturação das carteiras, tentando não só preservar o capital dos nossos clientes, como também entregando-lhes um retorno adequado ao nível de risco que cada fundo tem.

Os processos de investimento são na prática a materialização das estratégias definidas pela equipa, aplicadas de forma transversal a todos os fundos nas várias jurisdições (Portugal, França, Luxemburgo e Espanha).

- Quais são os maiores riscos para um gestor de obrigações nos dias de hoje e na Europa?

Identificamos três principais riscos neste momento para qualquer gestor de obrigações em qualquer parte do mundo, que passo a enumerar por ordem de probabilidade e dimensão do impacto.

Em primeiro lugar a intensificação da crise europeia, com a eventual saída de um ou mais estados membros da união monetária. Este cenário seria extremamente complexo pois implicaria a redenominação dos ativos e passivos desse país para a nova moeda, com impacto na estrutura dos mercados financeiros dentro e fora da Zona Euro. Os economistas do Barclays não defendem, nem colocam como cenário provável a saída de um ou mais estados da união monetária, mas é claramente o principal risco.

Em segundo lugar, o futuro das taxas de juro no G8, uma vez que as economias ocidentais, representando mais de 50% do PIB mundial, registam taxas de juro baixíssimas, com a Europa e os EUA a baterem mínimos históricos. Este é talvez o desafio mais difícil de gerir para os gestores profissionais hoje em dia, já que os níveis históricos e absolutos das taxas de juro e de rendimento das obrigações nas principais economias desenvolvidas é tão baixo que se torna extraordinariamente difícil gerar valor. O factor tempo quase não apresenta valor absoluto, com as principais curvas “ risk free “ a valerem pouco mais de 1% até aos 10 anos de maturidade, reflectindo as variadas intervenções de bancos centrais nos mercados, promovendo ainda mais descidas das taxas de juro, como forma de estimulo ao sector financeiro e á economia em geral.

Em terceiro lugar o risco de crédito. A evolução da actual crise europeia vai certamente ditar o futuro de muitas empresas a nível mundial, e em alguns casos até a sobrevivência de algumas dessas empresas sem se fundirem com outras que actualmente são seus rivais nos mercados onde operam.

- Qual é a sua previsão de defaults nos próximos meses?

A volatilidade e o nível de incerteza da situação europeia e consequentemente mundial tornam muito difícil dar uma resposta a essa pergunta, no entanto, parece inevitável e está totalmente descontado pelos mercados que a Grécia necessitará de outra reestruturação da sua dívida. É uma situação extremamente complexa e essencialmente politica, seguramente um desafio para a Europa. Por outro lado, no presente ciclo económico e ao contrário dos anteriores, as economias emergentes estão muito mais sólidas, e nessa área não esperamos actualmente vir a assistir a  defaults ou reestruturações de dívida.

- Qual foi a influência (se houve) para o Barclays Wealth Investments das baixas de rating e como se protegeu face às mesmas?

Os últimos dois anos forem de facto severos em termos de “ downgrades “, essencialmente para a dívida soberana e de bancos. Desde 2008 que começámos a preparar os nossos fundos para esta realidade, uma vez que nos parecia muito provável uma descida de rating generalizada do sistema financeiro Americano e Europeu, os bancos estavam a tomar muito risco por um preço muito baixo. A crise do “subprime”, confirmou as nossas expectativas e a redução substancial da exposição ao sector financeiro, aumentando a divida soberana e supra-nacionais defendeu-nos da volatilidade extrema registada nos mercados mundiais.

Durante 2011, a intensificação da crise europeia criou algumas excelentes oportunidades no mercado que decidimos aproveitar, nomeadamente em obrigações hipotecárias, cujos prémios de risco tinham vindo a aumentar, e em nossa opinião de forma excessiva em alguns casos, tendo em conta a segurança acrescida que este tipo de instrumentos tem, uma vez que lhes estão associados activos reais em excesso do total da divida nominal. Esta estratégia permitiu-nos estar relativamente imunizados ao risco das posteriores baixas de rating que ocorreram durante 2011 e já nos primeiros meses de 2012, uma vez que a maior parte da nossa exposição ao sector financeiro e soberano foi substituída por este tipo de divida. Até agora esta estratégia tem produzido resultados muito positivos e tencionamos mantê-la.

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