A história que está por detrás da estátua da menina que enfrenta o touro de Wall Street


A estátua do touro de Wall Street converteu-se numa visita obrigatória para os turistas que a cada ano visitam Nova Iorque. No entanto, este ícone de Wall Street passou a ter uma dura concorrente que lhe vai roubar o protagonismo... mesmo que seja só durante um mês. Trata-se de uma estátua de bronze que foi instalada precisamente em frente ao animal, o que representa uma menina que o olha de forma desafiante. Quem é que a instalou? A resposta está na indústria de gestão de ativos, mais concretamente na sexta maior entidade do mundo, por ativos sob gestão: a State Street Global Advisors. Foi sua a ideia da instalar a escultura nesse lugar. E fê-lo como parte integrante de uma campanha lançada no Dia Internacional da Mulher para pressionar as empresas a incluir mais mulheres nos seus conselhos de administração.

A entidade gere 2,5 biliões de dólares e está disposta a utilizar o seu poder para alcançar este objetivo. 90% dos ativos que gere estão em produtos que replicam índices que aglutinam as empresas maiores do mundo, empresas que contam com conselhos de administração onde a mulher está subrepresentada. Acontece em todo o mundo. Atualmente em Portugal, por exemplo, nenhuma das cotads do PSI-20 é liderada por uma mulher. O problema também afecta os Estados Unidos, onde se estima que uma em cada quatro empresas que integram o Russell 3000 não tem nenhuma mulher no seu máximo órgão de direção.

A escultura da menina a enfrentar o touro e a enfrentar esse Wall Street que representa é todo um aviso: ou as coisas mudam ou a gestora votará contra os conselhos de administração se as empresas não começarem a aumentar o número de representantes femininas nesses comités. “Não vamos votar automaticamente contra a empresa, mas queremos assegurar-nos de que se adoptam medidas concretas e tangíveis para reduzir o gap entre homens e mulheres nos conselhos de administração”, afirma Lori Heinel, diretor global de Investimentos da entidade. Atualmente, a State Strate planeia enviar uma carta a 3.500 empresas incitando-as a atuar. No entanto, importa recordar que se trata de um problema que vai muito mais além e que afecta outros sectores, e também a indústria de gestão de ativos, onde a mulher está claramente sub-ponderada.

Um relatório da Morningstar revela que somente um em cada cinco fundos são geridos por mulheres, um rácio que não melhorou nos últimos oito anos. A empresa analisou mais de 26.000 fundos de investimento comparando o rácio homem-mulher por país com outras profissões que requerem um nível educativo semelhante, como os médicos ou os advogados. O relatório também identifica as áreas da indústria onde as mulheres verificaram progressos relativos. “As mulheres estão sub-representadas nos fundos de investimento a nível global, com os maiores mercados mais sub-representados do que os mais pequenos”, explica Laura Pavlenko Lutton, diretora de análise da Morningstar na América do Norte. “Temos encontrado áreas onde as mulheres têm mais oportunidades, especificamente em fundos passivos, fundos de fundos, e fundos geridos em equipa. As grandes gestoras têm mais propensão di que as gestoras mais pequenas para promover as mulheres para posições de gestor”.

Destaca-se o facto de países com grandes centros financeiros terem proporções mais baixas de mulheres como gestoras de fundos que muitos dos mercados mais pequenos, segundo a base de dados mundial da Morningstar. Em Espanha, França, Hong Kong, Israel e Singapura, pelo menos 20% dos gestores de fundos são mulheres. Embora nesses países a sub-ponderação da mulher continue a ser um factor, são estes os países onde se pode encontrar uma maior percentagem de gestoras, sobretudo se se comparar com os números que se observam em grandes centros financeiros, como o Brasil, Índia, Alemanha e Estados Unidos, que estão atrás da média global, com cerca de 12,9% de mulheres. A estátua da menina tem sido um meio eficaz para chamar a atenção sobre um problema real que é global. Manterá a sua postura de determinação, franqueza e disposição a desafiar e mudar o status quo durante 30 dias. Uma vez passado esse prazo, será retirada.

 

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