A Fed prepara os mercados para a espera: reações à última reunião


Tal como o seu homólogo europeu, a Reserva Federal chegou ao seu primeiro encontro do ano com os mercados com escassas novidades. Tal como se esperava, o Comité Federal do Mercado Aberto (FOMC, siglas em inglês) manteve a política monetária sem mudanças na sua primeira reunião de 2020. As taxas de juro mantêm-se entre os 1,5% e os 1,75%. A única novidade foi o anúncio de que o programa de repos continuará até abril e as compras de obrigações do Tesouro até ao segundo trimestre de 2020.

David Kohl, economista chefe de Divisas da Julius Baer, ressalta que se confirma uma perspetiva bastante construtiva para a economia, o que torna supérfluos cortes de taxas adicionais após três reduções no ano passado. O retrocesso mais recente no mercado de valores endureceu as condições financeiras gerais só um pouco, deixando-os ainda muito acomodatícios. É uma postura sem mudanças que já se esperava, pelo que Kohl não estranha o limitado impacto no dólar e nos mercados em geral.

Avizinha-se um ano de ler nas entrelinhas porque as gestoras já adiantaram que não esperam movimentos nas taxas em 2020. Nem para cima, nem para baixo. É, como classificam os especialistas, uma sensação de normalidade anormal. “Passámos anos a seguir indicadores como o diagrama de pontos do FOMC para obter indicações subtis de mudança na trajetória da política da Fed, cada palavra da declaração da Fed em busca de pistas sobre o próximo movimento nas taxas ou liquidez, e cada declaração dos funcionários da Fed nas suas outras comunicações. Agora encontramo-nos num ponto no tempo que se pode descrever como anormalmente anormal”, comenta Rick Rieder, diretor de investimentos de Obrigações na BlackRock. A Fed pode sentar-se e ver como se desenvolvem os dados a nível nacional (e internacional) e construir a sua perspetiva sobre para onde deverão mover-se as taxas de juro interessa às taxas e à liquidez. “Gera uma sensação de vazio tendo em conta o que o mercado se acostumou quanto ao que move os mercados e as carteiras”, afirma.

Não obstante, o segredo está nos detalhes. Christian Schermann, economista da DWS, convida a ler em profundidade as palavras de Jerome Powell: “Primeiro, o Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC) avalia o gasto doméstico já não como forte, mas moderado. Em segundo lugar, a inflação já não está próxima do objetivo, mas está a voltar a ele. Falando nos termos da Reserva Federal: esperamos uma maior inflação e menos consumo. Os comentários recentes dos representantes da Reserva Federal a dizer que de certo modo uma maior inflação poderá ser suportada apoiam esta interpretação mais conciliadora. E Powell confirmou: 2% não é o teto -  a inflação deve estar próxima do objetivo”. A respeito dos anúncios sobre repos, Patrice Gautry, economista chefe da Union Bancaire Privée (UBP), interpreta que o objetivo é continuar a aumentar as reservas dos bancos, as quais deverão alcançar um umbral mínimo de 1,5 biliões de dólares no segundo trimestre. Quando se alcançar este nível e, se os mercados financeiros funcionarem bem, a intenção da Reserva Federal é reduzir as compras de obrigações do Tesouro e o uso da facilidade de repos. Assim, a Reserva Federal decidirá mais adiante sobre o futuro da facilidade de repos permanente além do segundo trimestre, mas ainda há um debate interno. “Em geral, a postura atual sobre os repos e os T-bills deverá manter-se até fim de abril, com renovadas incertezas sobre o impacto da mudança de estratégia da Fed além do segundo trimestre”, interpreta o especialista.

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