A devastação que resulta do Corona Vírus – Estaremos a caminho de uma recessão ou depressão?


Num contexto em que todos vivemos que mais parece de uma perversa fábula de ficção científica, acaba por ser incrível a alteração dramática de sentimento económico/mercado em apenas dois meses e meio desde o início de 2020. Se no início do ano a “eterna” história que suportou o rally de 10 anos do mercado de acções em torno de uma ampla liquidez e baixas taxas de juro, a que se acrescentava uma expectável recuperação cíclica da China e da Europa em resultado da suavização das tensões comerciais Sino-Americanas, os dias que correm são marcados por uma forte incerteza e volatilidade. Observámos o “colapso” dos activos financeiros e com o mundo mergulhado num lockdown disfuncional sem precedentes, de forma a tentar conter a imparável propagação epidemiológica Leste-Oeste do Corona Vírus. Esta representa a maior ameaça à saúde pública mundial, provavelmente desde a eclosão da grande Gripe Espanhola, a qual de forma sinistra celebra precisamente 100 anos desde a sua extinção em 2020 (esta é uma daquelas sórdidas coincidências que todos dispensávamos). Perante este shift dramático de eventos, importa tentar perceber, mesmo com um nível de incerteza sem precedentes, qual será a trajectória da economia mundial nos próximos 6-12 meses. Estaremos a caminho de uma recessão ou depressão?   

Uma recessão é inevitável e acreditamos que ela será pronunciada nos próximos dois trimestres, tendo em conta a dimensão do duplo choque que se abateu sobre a oferta e procura agregada. As estimativas iniciais já apontam para uma queda da actividade na Europa e nos EUA entre 10% a 20% no 2º trimestre do ano, o qual se materializará, largamente, no pior registo trimestral da evolução do produto desde o final da II Guerra Mundial. Percebendo a gravidade da situação, os Guardiões do Mundo – Bancos Centrais e Governos – procuraram “conter o massacre” e agiram de forma nunca antes vista nos últimos 5 dias. Mais de 30 Bancos Centrais a nível mundial cortaram taxas de juro na última semana, registando-se intervenções no mercado interbancário e cambial. Tanto o FED e o BCE acabaram por redimensionar os programas de compras de activos - no caso Europeu foi anunciado a criação do Programa de Emergência Pandémica (EUR 750 mil mn) de forma a suster o alargamento dos prémios de risco. O valor do programa de QE na Europa irá ultrapassar o máximo de compras mensais de activos (EUR 80 mil mn) pelo BCE aquando o pico da crise Soberana, ainda que o impacto global das políticas de QE seja limitado à tentativa de estimular a procura (transmissão via crédito pelo Sistema financeiro e prestação de liquidez no mercado interbancário), mas pouco pode fazer para “ajudar” a lidar com o choque monumental que incide actualmente do lado da Oferta, com fábricas e empresas paradas, cadeias de distribuição totalmente fragmentadas e com centenas de milhões de pessoas no Mundo Ocidental a viver num género de “arresto” domiciliário.   

Do lado dos Governos, a resposta foi igualmente incisiva – sendo que muitos países, em particular na Europa e EUA, irão avançar em breve com planos de estímulo que superam os 10% do PIB. Para melhor compreender a dimensão desta resposta, basta relembrar que o plano actual de estímulos norte-americano de USD 1,3 a USD 2 Tri (biliões de USD) supera largamente o montante do American Recovery Act lançado por Obama aquando a grande recessão de 2008 (USD 750 mil mn) e na Europa – actual epicentro da crise Pandémica, os respectivos Governos acordaram em lançar para a economia valores sem precedentes e num prazo record. A situação actual oferece alguma reminiscência da grande recessão de 2008, mas nesse momento a transmissão da crise deu-se numa lógica top-down que exigiu um resgate ao sector financeiro. Nesta crise que aí vem, adivinha-se “um espelho invertido - bottom-up”, no qual a perspectiva de múltiplos incumprimentos de empresas, sectores e instrumentos de dívida (CLO´s) terão um impacto negativo sobre o sector financeiro, o qual terá a hercúlea tarefa de resgatar uma economia dos escombros. Os cenários são praticamente inestimáveis, mas parece certo que na ausência de maior visibilidade do impacto da Covid-19 nos EUA, a confiança tão cedo não regressará e a volatilidade manter-se-á elevada. A perspectiva de prolongamento de quarentenas e fecho de fronteiras para conter reedições do surto no 2H20 poderá motivar uma recessão mais duradoura.

Há, no entanto um conjunto de razões para algum optimismo de longo prazo no mercado de capitais: i) dimensão das perdas dos ativos de risco no último mês e resposta fiscal e monetária subsequente não têm nenhum paralelo na história; ii) correcções no mercado de Equity despoletadas por eventos específicos (vs estruturais ou cíclicos) tendem a evidenciar uma recuperação significativamente mais rápida; iii) níveis de avaliação actual já se encontram atractivos em relação à média histórica para quem segue um horizonte de investimento de longo prazo; iv) um bottom sustentável do mercado de acções pode ser encontrado ainda antes do pico do número de infecções nos EUA (talvez a dois meses de distância?), tendo em conta episódios pandémicos no passado; v) visibilidade na confiança da supressão do surto poderá ser reforçada com inflexão de número de infecções no epicentro actual - Itália - provavelmente no início de Maio, uma vez que o número de novas infecções diárias regista “apenas” uma taxa de crescimento de 10% à data de domingo/22. 

A alteração do paradigma ao nível do modelo societário, económico, comercial e laboral implicará transformações no pós-Corona que todos ainda procuramos compreender. Tudo é impermanente e os vírus não são excepção, pelo que o mundo não irá acabar – tal como tudo antes e depois de nós. 

Em conclusão, sabemos que o Mundo aguarda por alguns trimestres de dificuldades humanitárias e económicas sem precedentes, mas uma Depressão só aconteceria se o PIB  registar uma contracção acima de 10% durante 4 a 6 trimestres consecutivos ou, em alternativa, caso a recessão se prolongue por mais 3 a 5 anos. Por mais negras que se afigurem as perspectivas no presente, o nosso cenário base não reflecte de todo essa “escuridão”, mesmo sabendo que a recuperação da economia será mais gradual do que o inicialmente previsto. Procurando responder à pergunta lançada no título da crónica – Recessão ou Depressão? – o que nos espera é muito provavelmente, ainda para mais atendendo às restrições sociais e de movimento que nos afectam, um género de Recessão Depressiva!    

(Este artigo foi escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico)

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