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Reflexões sobre a curva de yields: o indicador absoluto


Tribuna de Witold Bahrke, responsável sénior da estratégia macroeconómica da Nordea AM

Uma inversão da curva de yields (ajustada à inflação) avista-se no horizonte. Quais são as implicações?

Em apenas num gráfico (fevereiro): A curva de yields está a nivelar perante as perspetivas de um abrandamento do crescimento

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- A curva de yields é considerada, normalmente, o melhor indicador de recessão para os EUA. Uma vez que uma recessão no país norte-americano também implica que as ações mundiais alcancem o seu máximo, a obsessão atual do mercado com a curva de yields fala por si. A inversão da curva representa o ponto de viragem de uma recessão nos EUA, porém, caso não aconteça, os investidores podem ficar descansados, pelo menos na teoria. Embora tenha nivelado de forma considerável, a curva de yields nominais (a diferença entre as yields das obrigações do Tesouro norte-americano a 10 e 2 anos) continua a situar-se nos 0,5 pontos do limite de inversão no momento da redação do presente artigo. Assim, caso não aconteça, podemos ficar descansados? Na nossa opinião, a questão não é assim tão simples…

- Em primeiro lugar, é importante destacar a importância da curva de yields norte-americana: trata-se de um indicador antecipado do ciclo de crédito. A obrigações com maiores vencimentos refletem o possível crescimento e rentabilidade. As obrigações com vencimentos curtos são um indicador da política monetária e dos custos de financiamento. Consequentemente, se as yields da parte curta são reduzidas e as da parte longa são elevadas, emitir dívida e investir faz sentido, uma vez que o ciclo revela dinamismo, o que apoia o crescimento e a inflação. Caso aconteça a situação oposta, investir torna-se menos apelativo e pedir empréstimos, arriscado; a economia abranda numa espiral desinflacionista e, em última análise (ou seja, se uma inversão da curva acontecer), entra em recessão.

- Em segundo lugar, a curva de yields não deveria ser considerada como uma variável binária: o grau de nivelamento também é importante, não apenas o facto de ter acontecido ou não uma inversão desta. De forma a ilustrar esta lógica, fixemo-nos na curva de yields reais (isto é, ajustadas à inflação), uma vez que, em última análise, o que nos importa é o crescimento real. A curva de yields reais dos EUA encontra-se no nível mais plano em mais de dez anos, a apenas dez pontos base de uma inversão. Em termos reais, o nivelamento, que já está a acontecer, indica que o crescimento deveria começar a abrandar a partir de agora, dado que o ciclo de crédito está a reverter e o nivelamento da curva deverá implicar um endurecimento das condições de concessão de empréstimos. Este poderá ser um dos principais motivos pelos quais os mercados forward descontam já o final do ciclo de subidas da Fed, uma vez que as taxas forward a três anos são inferiores às taxas forward a dois anos.

- Em terceiro lugar, o nivelamento da curva de rendimentos reais tem repercussões de longa duração para os mercados: dado que a reversão do ciclo de crédito é desinflacionista por si, deveria existir um limite até onde podem subir as taxas norte-americanas a longo prazo, apesar do aumento a curto prazo da inflação. Para além disso, uma vez que o crescimento continua a ser revisto em alta é provável que existam deceções. Perante esta situação, é cada vez mais necessário contar com ativos líquidos e seguros que geram rendimentos. Assim, se quiser ignorar a curva de yields reais, faça-o por sua conta e risco.

O presente comentário constitui uma perspetiva macroeconómica da Nordea Asset Management, não a perspetiva oficial da Nordea.

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