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“A Cavalgada das Valquírias”


Num novo entorno político após os resgates dos diferentes sistemas financeiros, o atual vigor da recuperação económica e a consequente reversão da espiral deflacionista global, dita o fim natural de uma década de excesso de protagonismo dos Bancos Centrais: “A Cavalgada das Valquírias”.

A chegada das Valquírias foi a condição necessária para a estabilização das condições económicas no pós “Grande Recessão”, com os Bancos Centrais a enfrentarem problemas tão distintos, a nível económico, político e social, como o excesso de endividamento, o populismo e o desemprego. O sinal mais evidente do fim da crise económica tem sido a subida ao palco do poder político, apetrechado de novo com os instrumentos de política fiscal, ficando agora o papel da política monetária condicionado e remetido para um segundo plano, retirando às Valquírias o protagonismo de outrora. Neste contexto, 2018 será o ano do início de uma redução generalizada dos estímulos monetários a nível global, onde vai ser importante medir os diferentes impactos da retirada das Valquírias.

A Valquíria Americana, a FED, regista em 2018 uma alteração de relevo, com a nomeação de um presidente com maior cariz político, Jerome Powell, prevendo-se que a política monetária irá manter o seu curso, mas com uma maior cumplicidade entre a FED e a Administração Americana.

Na Europa, uma maior integração política na Zona Euro dita o fim da “grande cavalgada” do BCE. O fim anunciado do programa de compra de ativos, com um balanço que atualmente representa mais de 40% do PIB da Zona Euro e a queda este ano do dogma do Forward Guidance, constituem sinais relevantes do fim de uma “Era” da política monetária, onde ainda na semana passada tivemos a oportunidade de comprovar nas minutas do BCE. Por seu turno, a Valquíria do Reino Unido vive o desafio de adaptar a política monetária a uma realidade política imprevisível, mas não pode ignorar os desequilíbrios financeiros e a subida da inflação.

Ao contrário das outras Valquírias dos países desenvolvidos, no Japão o poder político “funde-se” com o Banco Central. No entanto, uma vez que, o balanço do BOJ triplicou desde o Abenomics, encontrando-se praticamente em 100% do PIB, o espaço para a manutenção desta política começa a esgotar-se.

Na China, o excesso de dívida já tem obrigado o People’s Bank of China a induzir uma gradual “desalavancagem” através de uma política monetária mais restritiva, situação que se irá manter ao longo de 2018, fruto de maiores pressões inflacionistas.

Em 2017, grande parte das Valquírias dos países emergentes conduziram políticas monetárias expansionistas: Brasil, Rússia, Indonésia, Índia, África do Sul, cortaram as taxas de juro, entre outros. No entanto, um mais rápido crescimento económico, associado a uma maior autonomia da procura interna nestes países, motivou o aparecimento de algumas pressões inflacionistas. Alguns destes países vão começar a ter de gradualmente reverter a sua política monetária em 2018.

O grande risco económico e financeiro para 2018 é o compasso da “Cavalgada das Valquírias”, havendo o risco de uma ou outra ter de apressar o passo. Nessa matéria, o risco de uma queda do cavalo da Valquíria Americana, não deve ser totalmente ignorado, uma vez que, uma excessiva desvalorização do dólar pode criar expetativas indesejadas de subida inflação.

Existem três dimensões diferentes para o risco do dólar:

A primeira dimensão tem um cariz estritamente interno que se prende com as incertezas provocadas pela política de isolacionismo económico e de constante ziguezaguear da política externa americana, que são um fator de ruído para o dólar. Por outro lado, a névoa envolta na questão da interferência da Rússia nas eleições americanas parece uma história que vai ganhando vida e que pode expor fragilidades políticas. Do ponto vista económico, também a introdução da reforma fiscal numa economia em pleno emprego e com um aumento do défice orçamental, pode gerar mais inflação do que o esperado.

A segunda dimensão da debilidade do dólar vem como o reflexo da dinâmica europeia, ou seja o reverso da moeda, o Euro. Esta visão assenta na percepção de que está a ganhar forma o anacronismo das dinâmicas positivas de crescimento económico e inflação na Europa, e que contraria o atual estado de hipnose monetária vivido pelos agentes económicos. Ainda na semana passada, as minutas do BCE evidenciaram que o famoso dogma do forward guidance vai cair mais depressa do que muitos pensavam. Por outro lado, o acordo alcançado na Alemanha na semana passada para formação de um novo governo, abre espaço para uma maior integração europeia, onde parece evidente o alinhamento entre a Alemanha e a França para reformar o projeto europeu, dotando a Zona Euro de maior autonomia política e económica face aos outros blocos.

Por fim, os riscos inerentes à dimensão global do dólar são sem dúvida, a razão mais importante para seguir atento ao risco de desvalorização desta divisa, mais concretamente, a perda gradual do seu estatuto de moeda de referência mundial.

Não é por acaso, que tem surgido tanto “frenesim” à volta das criptomoedas, independentemente do seu valor intrínseco ou do seu fim. Se é verdade, que devemos ser cépticos a muita especulação sobre o tema, nem todas as criptomoedas vão ser necessariamente pura ficção…  Um dos fenómenos mais importantes do século XXI é a globalização e a redistribuição de riqueza a nível mundial, com a entrada da China na WTO. A China já é a maior economia do mundo em termos de paridade de poder de compra, e por essa via constitui-se cada vez mais um parceiro económico imprescindível para qualquer país. Enquanto a Administração Americana adopta uma política económica de intimidação dos seus parceiros comerciais, a China tem feito exactamente o contrário. De forma assertiva, expande os seus domínios económicos e procura aceitação da sua moeda, promovendo a reativação da antiga rota da seda, a iniciativa de “One Belt-One Road”. A emergência do Yuan como moeda de referência na Ásia ganha relevo, com a Rússia a anunciar um sistema de pagamentos de yuan-rublos, com o Banco Central Paquistanês a permitir o uso do Yuan para trocas bilaterais e com o Bundesbank na semana passada a anunciar a inclusão do Yuan na sua base de reservas, não sendo menos relevante, a introdução neste trimestre na bolsa de Shanghai de futuros sobre o petróleo liquidados em Yuan, os Petroyuan.

Por tudo isto, há que ir seguindo com toda a atenção a “Cavalgada das Valquírias”, na medida em que uma desvalorização mais pronunciada do dólar pode provocar uma retirada mais intempestiva da Valquíria Americana… 

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