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1.º Colóquio Bankinter “À conversa com...”


Numa sessão inédita para clientes, o Bankinter associou-se à Schroders e à Fidelity International para discutir temas de mercado de uma forma interativa com a audiência. Subordinado ao tema “Quais as consequências para o investidor das políticas opostas seguidas pelo Banco central Europeu e Reserva Federal Americana”, o Hotel Palácio do Governador encheu-se de clientes da instituição, que ficaram também a conhecer a área de research do Banco.

Depois de Ramón Forcada, diretor de research do Bankinter, ter iniciado as hostes, com uma breve apresentação sobre o que se pode esperar em termos macroeconómicos para o ano de 2017, abriu-se o debate, no qual estiveram presentes Ana Carrisso, senior sales manager na Iberia da Fidelity International, Mario Pires, diretor de clientes institucionais e do mercado português da Schroders e Miguel Taledo Sousa, da Bankinter Gestão de Ativos Portugal. Na condução do debate esteve João Pisco, analista financeiro do Bankinter.

Algumas das questões e respostas:

Como chegámos a esta divergência de políticas monetárias entre a Fed e o BCE?

Mario Pires - A crise do suprime começou nos EUA, mas a  grande diferença é que os EUA foram rápidos a atuar com as medidas necessárias para sair da crise. Na Europa – composta por uma diversidade de sistemas políticos – perdeu-se algum tempo no debate, e quando os EUA já estavam a sair da crise surgiu a crise dos países periféricos. Daí estas diferenças nas políticas executadas por cada um dos bancos centrais. Em 2017 assistimos aos primeiros passos de recuperação da Europa, enquanto que nos EUA esse percurso já foi feito há muito tempo.

Benefícios da política monetária na Europa: existem?

Miguel Taledo de Sousa – Existem duas grandes vertentes na Europa: as empresas maiores que não estão tão expostas ao ciclo, e as que vivem exclusivamente das receitas na Europa. Estas últimas são as que vão beneficiar muito do pacote de estímulos implementado. Recorde-se que, por exemplo, quem depositar dinheiro no BCE tem uma remuneração negativa, o que tem sido um factor de estímulo para que as instituições bancárias emprestem mais dinheiro.

Os sinais de pressão por parte da Alemanha para que o BCE abrande os estímulos poderão ter influência no resto da Europa, ainda para mais com a inflação na Alemanha a aumentar para os 2%?

Ana Carrisso – Acreditamos que o BCE, durante a primeira parte do ano, vai estar muito expectante sobre os resultados das eleições na Europa, em primeira análise.  Esse dado alemão de 2% tem de ser analisado cuidadosamente, pois a evolução dos preços do petróleo e dos alimentos têm contribuído significativamente para os dados da inflação no país. Contudo, na Zona Euro, a inflação base está muito longe dos 2%. Quanto às  medidas que o BCE pode eventualmente implementar, não me parece que esses dados do petróleo sejam suficientes para justificar o anúncio da subida de taxas. Em relação a outras medidas de estímulo menos convencionais, na primeira metade do ano é provável que o BCE não ceda às pressões alemãs e continue expectante. Na segunda parte do ano, por seu turno, não ficaríamos admirados se Draghi anunciasse uma redução do atual programa de estímulos via compra de obrigações.

Perante este contexto político como se vislumbra o desfecho das eleições nos vários pontos da Europa e como é que Draghi responderá a essa situação?

MTS - O que os mercados necessitam em termos de resultados que saiam dos eventos eleitorais é algo que seja consensual e estável. O BCE, contudo, tem de estar preparado para a possibilidade de existir alguma espécie de resultado que ninguém está à espera, como é o caso de resultados encostados a uma franja extrema. Se isso acontecer vamos ter que ter um banco central muito interventivo.

Sobre os EUA: o mandato da Yellen termina daqui a um ano, e Trump necessita de um dólar mais fraco. De que forma Trump poderá influenciar as decisões de Yellen durante este ano e o que se espera da Fed depois de o mandato terminar?

MP - Existem duas posturas de Trump: Trump on e Trump off. O Trump on foi visto quando este ganhou as eleições e discursou de forma muito positiva, mudando o paradigma que se julgava até então. No dia em que Trump tomou posse, por outro lado, assistimos a um Trump off através de um discurso muito protecionista, que nos fez questionar como é que a economia com essas medidas ia impedir que o capital se dirigisse a outros sítios. O que vemos atualmente é que Trump tenta influenciar banqueiros centrais, juízes, etc, mas não podemos negar que a economia norte-americana está numa dinâmica de pleno emprego. Neste contexto, tudo aponta para uma subida de taxas no país, muito embora Yellen seja uma banqueira muito dovish. O que é certo é que a Fed tem de estar atenta, pois se o mercado se apercebe que o Banco Central está ‘behind the curve’ o efeito pode ser nefasto para as taxas de longo prazo. A Fed não pode pecar por chegar tarde.

Qual a visão da Fidelity em relação às obrigações como classe de ativos?

AC – No curto prazo não acreditamos que a situação em relação às treasuries se vá reverter, embora o activo se possa beneficiar dos investidores mais conservadores que persigam um “flight to quality”. No médio/longo prazo acreditamos que os yields dos treasuries vão estar limitados, devido a uma combinação de forças cíclicas e estruturais. Desde um ponto de vista cíclico (por exemplo aumento do défice via emissão de títulos), encontramos motivos que justificam uma subida das taxas de juro, mas estruturalmente também encontramos motivos que podem vir a representar um entrave para a subida das taxas de juro (por exemplo, o altíssimo nível de dívida a nível global ou o envelhecimento da população).

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