Uma decisão que chegou mais cedo que o esperado e apanhou de surpresa os mercados


Mario Draghi anunciou ontem a descida da taxa de referência na Zona Euro para os 0,25%. Apesar de ser uma descida inesperada para a reunião do BCE de novembro, era expectável que esta descida ocorresse nos próximos meses devido, sobretudo, à baixa inflação que tem ocorrido na Zona Euro. Dando o exemplo de Portugal, o Eurostat anunciou que a taxa de inflação em Portugal estava nos 0,1%. A Funds People Portugal falou com alguns especialistas da indústria para tentar perceber se esta descida era ou não esperada.

“O corte de 25 pontos base anunciado pelo presidente do Banco Central Europeu traz à memória a célebre frase de Mario Draghi em que, no verão de 2012, prometia fazer o que fosse necessário para a preservação do euro. Esta redução da taxa de referência surpreendeu os mercados financeiros, principalmente quando a poll de expectativas apontava para uma manutenção, apesar de terem emergido mais opiniões dentro do conselho de decisão do BCE, para uma redução face à anterior reunião de tomada de decisão”, explica Francisco Oliveira, da Orey Financial, que acrescenta, ainda, que “este corte, suportado pela toada descendente dos valores de inflação core YoY da UE, que se cifrou em 0,8% vs 1% esperado e com uma queda de 20 pontos base face ao mês anterior, juntou-se à necessidade crescente de incremento da competitividade da economia europeia, de impulso adicional ao crescimento económico do bloco europeu como um todo, e das economias periféricas em particular”.

Bernardo Mesquita do Espírito Santo Investment Bank considera que “o corte de taxas efectuado hoje pelo BCE é sobretudo um movimento reactivo aos últimos dados de inflação na zona euro que saíram muito abaixo do esperado e que levantam o fantasma da deflação que afectou o Japão nas duas últimas décadas”. O especialista destaca, ainda, que “os membros do BCE creem que a actual recuperação económica ainda não é suficientemente sólida e como tal a economia necessita de estímulos monetários adicionais”. Também a valorização do Euro pode estar na origem desta baixa da taxa de referência na Zona Euro. “Por trás deste corte pode estar alguma preocupação com a recente valorização do Euro contra as principais moedas mundiais colocando em risco as indústrias exportadoras ao mesmo tempo que a zona euro está a importar deflação”.

Comparando com o que acontece nos EUA onde as taxas estão perto de zero desde 2009 e “sem perspectivas de que haja subidas nos próximos tempos e acreditamos que o mesmo se vai passar na Europa onde o desemprego estrutural é muito elevado e onde os mecanismos de transmissão do crédito deverão demorar vários anos a se restabelecer totalmente. Cremos ainda que o BCE poderá introduzir medidas adicionais de estímulo à economia, como um corte nas taxas de reserva ou um novo LTRO”, continua o especialista.

O especialista do Espirito Santo Investment Bank conclui que “para o sector, o corte de taxas efectuado hoje coloca uma pressão adicional na obtenção de yield o que significa que deveremos continuar a assistir a uma procura crescente por produtos de risco mais elevado sustentando desta forma a recente subida dos mercados accionistas”.

Por sua vez Alexandre Mota, da Golden Assets considera que "a descida de taxas de juro por parte do BCE confirma o alinhamento dos principais bancos centrais na prossecução de políticas monetárias expansionistas. Depois do adiamento do tapering nos EUA, esta decisão do BCE reforça o sinal para o mercado no sentido do esmagamento de spreads low risk vs high risk, achatamento da yield curve e busca por ativos de maior risco. Aparentemente os Bancos centrais têm o controlo da situação, o que é verdade até ao momento que deixa de o ser". O especialista vai mais além quando considera que do "ponto de vista fundamental o atual cenário de baixa de taxas de juro é insustentável e indesejável no sentido de estimular a poupança necessária para corrigir um sistema atolado em dívida".

Já para a indústria o gestor salienta que pode ser uma boa oportunidade. "Para o setor, o atual momento é particularmente interessante porque vive-se uma aparente normalidade e bonomia que poderá daqui a uns meses ou anos fazer destacar quem deu total atenção ao risco e às oportunidades menos convencionais", sublinha o especialista da Golden Assets. 

Já Luís Carvalho da CA Gest afirma que “era esperado que o BCE pudesse tomar medidas no sentido de descida de taxas, embora tal alteração fosse apenas projectada na próxima reunião de Dezembro”.  O especialista explica que o discuro de Mario Dragui “serviu essencialmente para reforçar a importância do corte de taxas quando é antecipável um período relativamente longo de inflação abaixo dos targets estatutários do Banco Central Europeu”. 

Quando se fala da remoção dos programas de estímulos monetários por parte da FED, existe ainda o risco de que as taxas de juro da Zona Euro sigam o movimento ascendente expectável para as americanas pondo em causa o crescimento europeu que ainda é muito débil”, continua. Para o futuro, Luís Carvalho acredita que é “expectável que o BCE continue a sinalizar que irá manter as taxas de juro a níveis baixos durante um período relativamente alargado de tempo e tome, por ventura, medidas adicionais de forma a conferir suporte no acesso liquidez por parte dos bancos europeus”, conclui.

Francisco Oliveira, olhando na mesma direção, diz que “por outro lado, a dicotomia de ritmos de crescimento do PIB entre os países periféricos do sul da Europa e os países do norte da Europa (com destaque para a Alemanha), faz com que este corte de taxas e a sustentação do seu nível baixo, seja principalmente benéfico para os países que estão a ser intervencionados ou que apresentam valores de crescimento económico decrescente ou negativo. Enquanto se mantiver esta necessidade de estímulo económico e a inexistência de pressões inflacionistas, mais suportada estará a decisão de manutenção do nível baixo da taxa de juro do BCE”.

Por último, o especialista faz referência “a um outro objectivo anunciado pelo presidente do BCE e membros do Eurogrupo, que é a existência de uma moeda europeia competitiva como instrumento nas transacções comerciais entre a Europa e os demais blocos económicos, pelo que o cenário de taxas de juro actual contribui para este objectivo, confirmado pelo recuo significativo do valor do euro, ao longo dos últimos dias e hoje logo após o anúncio do corte de taxas“.

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