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Um Agosto para esquecer!...


Para além de um Verão envergonhado, Agosto representou uma elevada volatilidade na bolsa nacional, devido ao caso BES. Já existiram muitos comentários de analistas económicos, políticos nacionais e internacionais sobre o que levou à crise e sobre a decisão tomada, pelo que, apenas vou focar alguns aspectos que considero importantes.

Com a crise do GES, uma fatia importante do PIB nacional está a enfrentar problemas sérios de financiamento e até de continuidade. O grau de alavancagem do GES não é de agora nem se formou no último ano. Com o início da crise financeira, naturalmente que os grupos económicos e as empresas mais endividadas sofreram gradualmente as consequências.

Quando se fala em união bancária e quando se pretende evitar no futuro novas crises, um dos pilares mais importantes da mesma é a supervisão das instituições financeiras. Sem querer analisar, beliscar ou criticar o que se passou, não deixa de ser surpreendente que após os episódios negativos ocorridos noutros bancos entre 2008 e 2011, volte a ocorrer em 2014 uma situação como a do BES. Ou seja, o “depois de casa roubada trancas à porta” desta vez não aconteceu ou aconteceu muito tarde!

Em 2008, algumas pessoas perguntaram-me quem eram os culpados da crise do sector financeiro? Respondi-lhes que eram vários, desde os clientes, passando pelos banqueiros e alguns gestores de topo, pelos auditores, pelas agências de rating e pelos supervisores. Os clientes porque muitas vezes só olham para o retorno, esquecendo-se de que não há almoços grátis e, portanto, quanto maior o retorno maior é o risco associado. Quanto aos banqueiros, a sua grande vontade em mostrar lucros de forma a valorizar as acções, as stock options e os prémios, levou-os à tomada de decisões de elevado risco. Os restantes porque não fizeram o trabalho de casa convenientemente.

Na minha opinião, as estruturas profissionais de auditoria e de supervisão da banca e do mercado financeiro, devem ser multidisciplinares e serem constituídas sobretudo ou pelo menos maioritariamente por pessoas que tenham trabalhado anos suficientes na banca, isto é, com experiência e profundo conhecimento (a tal “tarimba”). É fundamental o conhecimento rigoroso das operações que envolvem os activos da banca mas também os passivos. Quando fui inspector do Banco Português do Atlântico (já depois de ter sido auditor externo na Arthur Andersen & Co.), eu e os meus colegas fizemos um estágio de 6 meses, sendo que grande parte dele era passado numa agência e nos serviços centrais a executar operações. Para auditar tínhamos que saber a fundo como se processavam as operações e quais as áreas críticas. Agora até é fácil recrutar bons quadros, dados os vários programas de rescisões amigáveis que acontecem na banca!

Outro aspecto que gostaria de focar é que o Novo Banco deve ser alienado o mais depressa possível, para minimizar o risco de um potencial impacto negativo nas contas públicas e sobretudo para que no mercado seja restaurada a tão desejada confiança. Se o banco tiver no seu corpo de accionistas, entidades de referência com boa imagem e com capacidade para recolocar o banco no lugar devido, tal será benéfico para a instituição, para a economia e para o mercado financeiro. Esperemos que tal aconteça!...

(Autor da imagem BiiahS., Flickr, Creative Commons)

 

 

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