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Tudo sobre a RDR: significado, efeitos que está a ter no Reino Unido e Holanda, como atuam as gestoras e qual o impacto sobre os custos dos fundos


O Reino Unido demarcou-se do resto da UE e foi um dos primeiros países a introduzir a regulação que proíbe expressamente as retrocessões, ou seja, o pagamento de comissões por parte das gestoras aos intermediários. A Holanda seguiu-lhe os passos e desde há pouco mais de um ano que também aplica a nova normativa. O objetivo da RDR (Retail Distribution Review) é elevar os standards do aconselhamento profissional mediante a introdução de sistemas formais de acreditação, reforço dos níveis de capitalização dos consultores e a melhoria do conhecimento geral dos consumidores relativamente aos diferentes tipos de aconselhamento à sua disposição. Existe portanto um fomento da transparência, ao passar-se de um modelo de comercialização que tem por base as comissões, para outro que assenta no pagamento do aconselhamento, sendo reduzidos os conflitos de interesse. 

Com um volume de ativos sob gestão de 753.000 milhões de libras, a indústria de fundos britânica representa o mercado nacional maior da Europa, à frente da Suíça, Alemanha, França e Itália. Contrariamente ao que se previa, dois anos depois da introdução da RDR a indústria de fundos inglesa está em plena expansão e espera-se que continue a crescer, impulsionada por baixas taxas de juro, pela chegada da idade da reforma de um crescente número de baby boomers e pelas mudanças normativas relativamente à gestão das pensões, que vão entrar em vigor em abril. O que é certo é que a RDR tem tido consequências, tanto previstas como imprevistas, nomeadamente sobre a distribuição e sobre o negócio da banca de retalho britânico. Por exemplo constatou-se uma redução no número de consultores independentes que, segundo algumas fontes oficiais (FSA, FCA), foi menor do que se esperava.

Segundo indica Peter Grimmett, responsável de desenvolvimento regulatório da M&G Investments, existem certas tendências que terão que ser seguidas de perto de forma a perceber a sua evolução, como é o caso dos “consultores estarem a externalizar a gestão, por ser uma tarefa demasiado cara internamente. O aumento dos custos também poderá estar a fazer com que muitos investidores de retalho prescindam do aconselhamento financeiro e operem diretamente através de plataformas de contratação com todo o risco que isso pode significar. Na verdade estas plataformas estão na mira do regulador e estarão sujeitas à proibição de retrocessões sob a normativa RDR 2 (segunda versão da normativa que estabelece um período de adaptação até abril de 2016, durante o qual o modelo tradicional vai conviver com o novo).

A RDR estabelece uma clara diferenciação entre os consultores independentes, que são aqueles que seguem um modelo de arquitetura aberta, e os “restritivos”, ou seja aqueles que oferecem apenas aconselhamento sobre determinados produtos ou sobre certas entidades. A partir do momento em que apenas oferecem um tipo de serviço ou apenas produtos de determinados fornecedores, a FCA considera-os ‘restricted’. “Face às previsões que referiam que os consultores financeiros iriam abandonar de forma massiva o sector, não só isso não o fizeram, como muitos mantêm ou até aumentaram o seu negócio. Ainda assim é certo que o sector do aconselhamento financeiro se está a consolidar e as propostas são cada vez mais restritas: cada vez há menos consultores independentes tal como são definidos pela FCA inglesa (ou seja aqueles que oferecem consultoria sobre investimentos, seguros de vidas e pensões...)”, assegura a Fundscape.

Esta é uma opinião partilhada por Carlo Trabattoni, responsável do canal intermediário europeu da Schroders, que considera que os efeitos que a RDR teve sobre os consultores independentes (IFA) foram evidentes. Neste sentido, a pressão que a nova regulação colocou sobre os requisitos que devem ser cumpridos pelos IFA provocou uma diminuição do número de profissionais. Para esta queda contribuiu também o facto de muitos deles se terem começado a associar com o objetivo de começar a trabalhar juntos e, desta forma, aproveitar as oportunidades que não teriam se trabalhassem separados. A terceira mudança provocada pela introdução da RDR na comunidade de consultores independentes ingleses foi a obrigação dos IFA mostrarem ao cliente final a comissão que lhes cobram, o que fez com que muitos clientes tenham decidido não assumir esse custo, passando a tomar as suas próprias decisões de investimento, executando as operações através de plataformas transacionais e dos serviços discricionários, cujo número aumentou.

Efeitos da RDR no Reino Unido e na Holanda: fundos mais caros ou mais baratos?

Analisando os efeitos que a RDR está a ter na Holanda, Ivar Roeleven, responsável de clientes retail europeus do ING IM, considera que alguns têm sido positivos e outros negativos. Do lado dos efeitos positivos aponta a maior transparência em relação ao cliente, ao nível do custo do produto. “A comparação entre o que custa investir num fundo de gestão ativa e num produto de gestão passiva é agora muito mais justa do que antes”, assegura. “Com a proibição das retrocessões, há uma transparência muito maior no custo total do produto. Agora os clientes podem  observar de maneira muito mais explícita quanto é que pagam pelos serviços bancários e qual o valor pago pela gestão dos fundos. A maior transparência fez com que o custo total do produto se tenha reduzido”, assegura. No entanto, somando o custo que envolve contar com aconselhamento profissional, o cenário poderá ser diferente.

No Reino Unido, por exemplo, o aumento dos custos de serviços de aconselhamento fez elevar o preço do produto, explica Grimmett. “O custo do produto reduziu-se, mas o custo total aumentou devido ao custo dos serviços”. Dá como exemplo o preço em pontos básicos de um fundo de ações antes e depois da introdução da RDR (ver gráfico), o que evidencia uma subida do custo do produto. De acordo com os cálculos do responsável de desenvolvimento regulatório da M&G Investments, “hoje os consultores cobram 75 e até 100 pontos base, o que fez com que os custo passasse de 150 a 200 pontos base. A consequência disto é que para os clientes pode ficar-lhes mais barato investir diretamente do que através de um intermediário que execute aconselhamento financeiro, pelo que podemos assistir a um crescimento dos negócios de investimento direto, que se limitem a executar ordens”.

Transposição para o resto da Europa: o risco da fragmentação

Carlo Trabattoni considera que o novo marco regulatório era uma necessidade que, embora tenha sido imposta, será benéfica, já que levantou questões pertinentes sobre os produtos e sobre a sua qualidade. No entanto reconhece que a implementação das normativas no resto da Europa acarreta riscos que devem ser abordados de forma cuidadosa. “Os reguladores de cada país devem certificar-se de que a aplicação da regulação não vai resultar numa fragmentação do mercado europeu. Alguns dos países vão aplicá-la de uma forma mais estrita, enquanto outros de forma mais flexível. O que não deixa dúvidas é que existirá a introdução de mais transparência, repensando-se o uso das retrocessões, que a longo prazo vão perder protagonismo”, assegura o responsável pelo canal intermediário europeu da Schroders. Neste sentido, existe no entanto uma grande incerteza sobre como é que será aplicada a RDR em cada país.

É  a RDR um obstáculo para o crescimento da indústria?

Uma das grandes questões que se coloca à indústria é se a RDR irá supor um obstáculo para o crescimento do sector. Matthew Shafer, responsável de distribuição internacional da Natixis Global AM, acredita que não. “A regulação não deve ser encarada como um obstáculo, mas sim como uma oportunidade. O sector entrou numa fase de crescimento que alcança todas as regiões e essa tendência vai continuar. A chegada da RDR ao Reino Unido não mudou o cenário de forma dramática”, afirma. Na verdade as perspetivas para a indústria do Reino Unido continuam a ser muito favoráveis.  A Fundscape e a The Pridham Report publicaram conjuntamente a edição de 2015 do seu guia definitivo sobre a indústria de fundos no país, no qual cobrem todos os aspetos da indústria, desde o desenho dos fundos até à distribuição.

Nele são oferecidas previsões a cinco anos que partem de três cenários: o pessimista, o realista e o otimista. O que esperam ver durante os próximos anos é um forte aumento dos ativos geridos pelo Reino Unido. “O nosso cenário realista estima que o património dos fundos ingleses se aproximará de um bilião e meio de libras em 2019, o que representa uma taxa de crescimento anual composta de 12,8%. Num cenário mais otimista, os ativos poderão superar os 1,77 biliões de libras”, prevê Bella Caridade-Ferreira, CEO da Fundscape, consultora especializada na indústria de fundos inglesa. Não parece, por isso, que a RDR vá ser um impedimento para o desenvolvimento da indústria, embora possa obrigar as gestoras a mudar de trajeto. Na verdade isso é o que está acontecer na Holanda.

Aparecimento de novos canais de distribuição de fundos

Embora ainda seja cedo para se conseguir observar todos os efeitos que a implementação da RDR terá no mercado holandês, já se pode perceber como é que as gestoras estão a reagir ao novo marco regulatório. Segundo revela Ivar Roeleven, responsável de clientes de retalho europeus do ING IM, as entidades locais estão a criar novos produtos domiciliados exclusivamente no mercado holandês para que sejam distribuídos neste país. As grandes empresas internacionais, por seu lado, lançam novas classes de ações a preços mais competitivos, as denominadas de ‘clean shares’, para as quais estão a transferir os seus clientes existentes. Também dá nas vistas o aparecimento de novos canais de distribuição, como plataformas online criadas pelas próprias entidades através das quais vendem os seus fundos. “Isto reduz os custos de transação para o cliente”, assinala.

Mas os efeitos da RDR sobre a distribuição de fundos vai mais longe. No caso do Reino Unido, por exemplo, começa a assistir-se a uma maior concorrência nas taxas aplicadas pelas plataformas (ver gráfico: fonte Platforum). A isto há que acrescentar o aparecimento de novos canais de distribuição de fundos na Europa, como por exemplo a cotação de fundos de investimento, um novo serviço que permite ao investidor comprar ou vender estes produtos em bolsa da mesma forma que acontece com as ações, as obrigações ou os ETF. Luxemburgo, Itália ou Holanda são algumas das bolsas que já admitem a cotação de fundos de investimento. Ao consolidar-se este novo modelo, isto daria um maior protagonismo ao broker no negócio de distribuição de fundos. No caso das entidades distribuidoras, se finalmente forem proibidas as retrocessões, este seria um novo canal de distribuição e uma via para manter as receitas que viriam do lado da intermediação e da custódia. 

Impacto para a indústria de fundos de investimento

A Fundscape estima que cerca de 70-75% dos fluxos de fundos estejam influenciados pela distribuição. No mercado britânico a marca é importante, mas também é importante o bom comportamento dos investidores e a capacidade. Por esse motivo ainda deverá haver espaço para as entidades de menor tamanho. “Os grupos mais pequenos e as boutiques ainda podem ganhar terreno no Reino Unido”, assinala Helen Pridham, do The Pridham Report. “Nos últimos anos, vários gestores de renome fundaram as suas próprias gestoras e as empresas pequenas foram-se destacando pelo seu bom comportamento, ganhando posições nos rankings de vendas”. No último ano a que mais êxito teve foi a Neil Woodford (ex Invesco). Esta opinião contrasta com alguns dados que mostram a importante concentração que está a acontecer ao nível dos fluxos.

O último relatório da Investment & Pension Europe reflete que as 10 maiores entidades do mundo por património aglutinam cerca de 33,6% do volume total. Ou seja: um em cada três euros que são geridos no mundo estão nas mãos de algumas das entidades incluídas no top 10. “O tamanho de uma gestora não deveria ser importante mas é. O investidor procura uma entidade grande, com um nome de prestígio, ou uma boutique. Praticamente 100% dos fluxos de entrada concentram-se nas 25 gestoras de maior tamanho”, assegura Martin Gilbert, CEO da Aberdeen. Será que o novo contexto regulatório vai acentuar esta tendência? O ponto chave está em perceber qual será o custo que vai caber às entidades de pequeno e médio tamanho quando tiverem que cumprir com a nova normativa, mas também perceber e se estas entidades serão capazes de assumir o custo. Tudo num contexto, em que, segundo Andrea Rossi, CEO da AXA IM, a maior concorrência exercerá pressão sobre as margens e o custo do produto.

“A indústria tenderá a oferecer aos seus clientes soluções de investimento mais económicas. Vão surgir produtos mais baratos para o cliente devido à maior concorrência”, diz o especialista. Rossi acredita que o novo marco normativo será mais benéfico para o cliente, embora comporte custos mais elevados para o sector. “Isso significa um desafio adicional para as entidades maiores. Veremos uma continuação do processo de consolidação que a indústria está a viver. É uma questão de tamanho, performance e diversificação por tipo de produto”. São exatamente os três aspectos que cita Jonathan Willcoks, diretor global de vendas de retalho da M&G Investments, para o êxito. “Para ser um ator de peso na indústria, há que ter uma marca forte que gere confiança, bons gestores e uma ampla oferta de produto”.

 

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