Teremos chegado ao epílogo do tema Grécia?


Todas as atenções estão hoje viradas para a reunião dos Chefes de Estado da Zona Euro. No entanto convém salientar que “os últimos dias têm modificado a dinâmica em torno da Grécia e apontado para o insucesso das negociações das autoridades europeias com o Governo grego”, dizem do Credit Suisse. Uma falha no pagamento ao Fundo Monetário Internacional no próximo dia 30 de junho afirma-se como o derradeiro prazo para um acordo entre as partes. Se por um lado a Chanceler Merkel afirmou, na semana passada, que não haveria margem para mais concessões à Grécia, por outro, Christine Lagarde, Presidente do FMI, coloca o cenário de default grego como certo caso não existe pagamento no final deste mês. A par disto, “o Banco Central Europeu considera que o sistema bancário grego, tendo grande parte dos seus ativos alocada a dívida pública, corre sérios riscos de insolvência. Resta ainda a dúvida de como interpretariam as agências de rating internacionais e outras entidades do mercado à ocorrência de um default grego”, pode ler-se no research publicado pela entidade suíça.

Paul O’Connor, co-head of multi asset na Henderson Global Investors, utiliza a mesma expressão de ‘fim de jogo para a Grécia’ considerando que se não se chegar a nenhuma solução na reunião de hoje, a “Grécia poderá ter que impor alguns controlos de capital de forma a conter a fuga de depósitos dos seus bancos”. A possibilidade de falta de cumprimento no pagamento do final deste mês poderá levar a que o “BCE diminua o seu suporte de liquidez às instituições financeiras gregas e ao agudizar de toda a situação no país”, acrescenta. Desta forma, hoje é o dia D no sentido em que “chegar a um acordo é plausível, mas não é certo”, refere o especialista da Henderson que acredita ainda que as autoridades europeias poderão ‘aliviar’ a dívida grega e aceitar que o Governo do país implemente um programa de reformas relativamente menos austero do que se falou até aqui.   

Assim, as razões pelas quais reconhecidas instituições financeiras (Amundi, BofA Merrill Lynch, Credit Suisse, Henderson, Natixis) consideram que se está num epílogo do tema Grécia são o facto da credibilidade da Zona Euro, dos seus políticos e da própria União Europeia estar claramente em risco, caso se prolonguem quase indefinidamente as negociações com a Grécia e o BCE continue a disponibilizar a Assistência de Liquidez de Emergência (ELA) aos bancos helénicos. O prazo de 30 de junho é cada vez mais a última casa do jogo. “As esperanças do Governo de Alexis Tsipras num ‘resgate’ por parte da Rússia parecem ilusórias. O custo-benefício para o Presidente Vladimir Putin não será favorável a esta estratégia, além de que seria um cenário que suscitaria grande oposição no seio da própria população grega”, indicam do Credit Suisse. Por último, “a ameaça da Grécia ou melhor do seu governo relativamente a uma crise financeira na Europa na sequência do default do país é relativamente inócua embora os mercados financeiros tenham vindo a registar níveis elevados de volatilidade nos tempos recentes. Contudo, convém recordar as palavras do Presidente do Bundesbank quando atesta o seu apoio para a estabilidade e pensar na política monetária levada a cabo pelo próprio BCE que comunga desse mesmo fim”, acrescentam do Banco suíço.

Cenários possíveis

Do Credit Suisse indicam como cenário positivo (70%) um acordo entre a Grécia e os seus credores que poderá incluir algumas concessões, mas não exageradas, e a possibilidade de existir um terceiro resgate ao país seguido de um suporte financeiro por parte das autoridades europeias para que a Grécia cumpra os prazo de pagamento das suas dívidas ao FMI e BCE. O cenário negativo apontado pela instituição financeira suíça, com 30% de probabilidade, é o de um insucesso nas negociações e consequente default grego. Neste caso impõem-se dois sub-cenários que se podem concretizar com alguma rapidez: ou o surgimento de um novo Governo mais moderado ou uma viragem à esquerda ainda mais radical no poder político local.

No que refere a cenários possíveis, da Amundi definem dois cenários que variam em termos de datas. O primeiro a acontecer antes de 30 de junho denominado de ‘last minute agreement’ e que podia diferenciar-se do inicialmente pensado, nomeadamente por incluir uma reestruturação da dívida. Neste, a reacção para os mercados seria positiva já que a incerteza é actualmente sinónimo de mais volatilidade. O segundo cenário ocorreria após 30 de junho e até 20 de julho, data limite de pagamento ao BCE. Neste e, podendo estar-se já perante o início de um default grego, a gestora francesa fala da não correspondência imediata com o ‘Grexit’. Poder-se-ia “assistir ao começo da falência do sistema financeiro e do país mas as negociações poderiam continuar, poderiam convocar-se eleições ou ser feito um referendo à população já que como disse Mario Draghi não cabe ao BCE decidir o futuro da Grécia, mas sim aos seus políticos”. Repare-se que um ‘Grexit’ envolveria inúmeras decisões a tomar no que toca à impressão de uma nova moeda, negociação com os credores, etc.

E como fica o mercado de ações europeu perante um default?

O Bank of America Merrill Lynch debruça-se numa análise a um cenário de default e dos efeitos que daí poderiam advir para as bolsas europeias. Identifica ainda e fruto de um recente inquérito realizado pela entidade a gestores de fundos que a posição em liquidez dos investidores está em máximos dos últimos seis anos (4,9%) o que representa o momento mais evidente, desde 2008, de protecção por parte dos investidores. 57% dos inquiridos respondeu que espera ou um ‘Grexit’ou o default grego. Por outras palavras, os investidores estão mais cautelosos e preocupados com um cenário negativo que possa suceder na Grécia.

Philippe Waechter da Natixis descreveu, num relatório recente, que o custo associado à saída da Grécia é demasiado alto não só para o próprio país como para toda a Zona Euro porque significaria uma ruptura na construção da União Económica e Monetária. Se nenhuma das partes estiver preparada para este tipo de risco é bem possível que se chegue a um acordo na reunião entre Chefes de Estado, apesar do mesmo poder ser menos restritivo para a Grécia e incluir a possibilidade reestruturação da sua dívida. No entanto, um acordo afastaria o cenário indesejável de instabilidade financeira associado ao ‘Grexit’ e seria claramente a solução com menos riscos no presente.

Todavia, no BofA Merrill Lynch julgam que “os efeitos de contágio de uma eventual saída da Grécia da Zona Euro seriam limitados”, assim como poderá “ser expectável uma postura mais intervencionista do Banco Central nos mercados de forma a prevenir a deterioração dos spreads da periferia, continuando com o seu programa de estímulos à economia”. Basicamente do banco de investimento mencionam que o BCE dará os devidos suportes para que se mantenha a confiança nos mercados, constituindo quase uma segunda volta da famosa expressão de Mario Draghi ‘whatever it takes’. Isto porque, do BofA Merrill Lynch veem como pior cenário o prolongamento desta situação de incerteza, muito embora estejam inclinados para uma maior subida das bolsas europeias com a resolução deste impasse. Nos entretantos, apontam para o mercado de opções como um caminho para lidar com a incerteza do momento, gerindo as posições (call/put spreads) consoante o cenário que se acredite mais provável.

Também da Amundi crêem que “uma saída da Grécia não teria tantas consequências negativas para a Zona Euro” como se poderá pensar à partida. Isto porque “não falamos de um país que acarreta um risco sistémico per si. A Grécia representa apenas 2% do PIB da Zona Euro”. Além disso, “os investidores não têm uma grande exposição ao risco grego (a dívida em mercado corresponde a 12% do total da dívida do país)”, ideia que corrobora com o aumento da protecção verificado pelo BofA Merrill Lynch no seu Fund Managers Survey. Igualmente, da gestora francesa fazem referência, aos “restantes países da periferia (Espanha, Irlanda e Portugal) que apresentam uma ‘rota’ de recuperação mais sustentada fruto das reformas implementadas nos últimos anos” e, por isso, mais imunes a um ‘Grexit’. Adicionam ainda que o “próprio BCE interviria de imediato para evitar qualquer efeito dominó”.   

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