"Se a correção das classes de risco a nível global persistir, consequências económicas menos positivas poderão advir"


O abrandamento do crescimento económico da China resulta de uma decisão estratégica de transição para uma economia mais baseada no setor de serviços e menos intensiva em investimento associado ao setor secundário. Consequentemente, decorre também um processo de rebalanceamento orientado para um perfil de crescimento mais baseado no consumo interno. Deste modo, tendo em conta os atuais níveis de excesso de capacidade instalada e as consequentes perspetivas de redução dos níveis de investimento, é de esperar que uma economia menos baseada em componentes cíclicas e exportadoras evidencie um regime de taxas de crescimento mais baixas, face ao verificado em anos anteriores. Ao nível do consenso de analistas, tem se verificado uma redução gradual das estimativas de crescimento económico, com os valores medianos a descerem, ao longo do último ano, de 7,00% para 6,90% e de 6,70% para 6,50%, para 2015 e 2016, respetivamente. Do mesmo modo, os dados económicos referentes à atividade industrial sinalizaram, ao longo de 2015,  uma desaceleração ao mesmo tempo que os indicadores avançados, mais mediáticos, PMI continuam a ditar um abrandamento deste setor. No entanto, as mesmas métricas PMI associadas aos serviços traduzem uma fase de ciclo mais positiva.

No decorrer de 2015, o Banco Central Chinês (People´s Bank of China - PBoC) implementou importantes alterações na sua política cambial, como parte de um objetivo de liberalização e de integração internacional. Em agosto último, o PBoC surpreendeu os mercados ao decretar uma desvalorização da sua moeda (Yuan), alterando o mecanismo de fixação diária da taxa de referência contra o Dólar. Entre 10 e 13 de agosto, a referência subiu de 6.1162 para 6.4010 Yuan por um Dólar, correspondendo a uma valorização de cerca de 4,7% do Dólar vs. a moeda chinesa. Esta alteração não foi dissociada da possibilidade de inclusão do Yuan como moeda de referência no cabaz cambial internacional do FMI, que acabaria por ser formalmente anunciada no final de novembro, devendo entrar em vigor a partir de outubro de 2016. Mais recentemente, o PBoC anunciou a transição da referência usada para a definição da taxa de câmbio na China, com base no Dólar, para um novo índice composto por um cabaz de moedas (atualmente 13) que, segundo a autoridade monetária chinesa, melhor deverá refletir a competitividade da economia doméstica e, deste modo, um melhor ajuste da taxa de câmbio à dinâmica de exportações e importações, de investimento e de posição de balança de pagamentos. Neste novo cabaz, o câmbio Dólar/Yuan representa cerca de 26% do total do índice. Inevitavelmente, estas alterações terão como consequência um reposicionamento da política monetária chinesa de forma relativamente mais independente face à politica monetária em curso nos EUA.

No entanto, esta revisão da política de câmbio estável relativamente ao Dólar constitui uma pressão adicional nas moedas de mercados emergentes, pois apesar da desvalorização do Yuan, tal ocorre após muitas das economias emergentes já terem registado depreciações cambiais significativas. De facto, quando considerada a taxa de câmbio real efetiva, ajustada pela inflação, o Yuan tem vindo, nos últimos anos, a apreciar-se contra um cabaz representativo de moedas, em resultado da sua política de câmbio indexada ao Dólar e da tendência recente de valorização desta última moeda. Assim, tomando como referência o índice calculado pelo Barclays, entre 2000 e 2015, o Yuan valorizou-se anualmente, em média, cerca de 3%.  

Tal como referido, a referida transição económica tem resultado num abrandamento do investimento e, consequentemente, numa maior pressão sobre os preços das matérias-primas, especialmente do petróleo e dos metais industriais que, em 2015, registaram desvalorizações significativas. Adicionalmente, a intervenção recente do PBoC, através da fixação do taxa de câmbio de referência a níveis mais baixos vs. o Dólar , tem gerado crescentes receios de que a economia chinesa possa estar a abrandar de forma mais significativa face às atuais estimativas, causando instabilidade nos mercados financeiros globais desde inicio de 2016. No entanto, este “ruído” não tem sido muito justificado pela relativa estabilidade dos dados económicos oficiais da China mais recentemente divulgados.

Deste modo, tem se verificado um contexto de “risk-off” de mercados, a nível global, com as classes de maior risco a evidenciarem uma tendência negativa, padrões de correlação mais elevados e uma menor sensibilidade à evolução dos fundamentais do bloco desenvolvido. Os setores de energia e de recursos básicos, ao nível das classes americana e europeias de ações e de crédito, têm evidenciado as maiores quedas desde início do ano, bem como outros setores cujos constituintes têm exposição de vendas e de lucros significativa à China e a outras economias emergentes. Desde final de 2015, o câmbio de referência face à moeda americana já se desvalorizou em 1%, após os 6% verificados em 2015. Este movimento tem sido acompanhado, não só por uma performance negativa dos índices acionistas domésticos, com os compósitos de Shangai e de Shenzen a registarem quedas de 15% e 20%, respetivamente (a 11 de janeiro), como também pelos mercados americano (S&P 500) e da Zona Euro (MSCI Euro) que, a preços de fecho de 11 de janeiro, evidenciavam quedas de 6% e 7%, respetivamente.

Em termos macro, dada a exposição direta pouco significativa de economias, como os EUA e a Zona Euro, o maior risco subsiste na forte interligação das economias asiáticas, tanto desenvolvidas como emergentes à conjuntura económica chinesa e, portanto, nos efeitos indiretos negativos que poderão surgir de um abrandamento mais generalizado para as economias americana e europeia. Adicionalmente, do ponto de vista de mercados, se a correção das classes de risco a nível global persistir, inevitavelmente consequências económicas menos positivas poderão advir através de canais de transmissão como os efeitos de riqueza negativos, os aumentos dos custos de financiamento das empresas em mercado de capitais e a redução dos níveis confiança dos agentes económicos.

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