Regra número um numa estratégia de dividendos: não confiar em quem paga a maior yield


Num contexto de baixas taxas de juros e volatilidade nos mercados financeiros, os investidores procuram estratégias nos mercados acionistas que lhes permitam gerar rentabilidades positivas com um nível de risco moderado. Um dos fundos que nos últimos anos tem oferecido muito bons resultados com base no binómio rentabilidade/risco tem sido o Deutsche Invest I Top Dividend, produto cinco estrelas da Morningstar, com o selo Consistente Funds People (veja na próxima edição da revista Funds People, brevemente em distribuição) e que no últimos três anos tem oferecido um retorno anualizado de 11,5% com uma volatilidade de 16,4%. O produto é gerido por Thomas Schüssler e Ivo Weinoehrl. Numa entrevista com a Funds People, o gestor explicou quais são os pilares sobre os quais se suporta a estratégia.

O primeiro que Weinoehrl deixa claro é que a gestão de um fundo com enfoque no dividendo, vai muito além de selecionar as empresas que oferecem a maior yield. Mais do que isso, esta estratégia poderia ser contraproducente. De facto, uma elevada percentagem das empresas em carteira oferecem uma rentabilidade por dividendo inferior a 4%. Uma parte menor apresenta uma yield entre 4 e 5% e poucas entre 5 e 6%. “O caso das últimas é muito excecional”. Com yields acima de 6% o universo de investimento torna-se mais suspeito e é melhor ser cauteloso porque, em média, a expectativa é uma e a rentabilidade efetiva é outra, quase sempre mais baixa. Os dividendos não são sustentáveis e acabam por ser cortados, exatamente o que queremos evitar. Por outro lado, no caso das empresas que proporcionam uma rentabilidade até 5%, a rentabilidade efetiva é superior à estimada, já que muitas empresas vão incrementando o dividendo”. Em conjunto, a dividend yield das empresas que têm em carteira é de 3,7%, que compara com os 2,7% do MSCI World, índice de referência.

O primeiro passo do processo que segue a equipa da Deutsche AM é quantitativo. Consiste em filtrar o universo de investimento e encontrar as empresas que cumprem critérios mínimos de liquidez e capitalização de mercado. O segundo passo, também quantitativo, baseia-se num modelo multifactorial no qual a rentabilidade do dividendo da empresa pesa 50%, o crescimento do dividendo 25% e o rácio de pay-out, os outros 25%. Este último é um indicador que o gestor considera muito importante, já que lhes permite saber que percentagem dos lucros se destinam a pagar o dividendo. “Se é alto, a margem para que cresça e seja sustentável é muito baixa. No caso contrário, é maior”, explica. A partir desse processo de análise quantitativa, começa a análise qualitativa. Partindo das 200-300 empresas que aparecem no radar, analisam rácios fundamentais como os fluxos de caixa, o entreprise value sobre o EBITDA... e outros como o compromisso que a empresa mostrou historicamente com o dividendo. Também se reúnem com as administrações das empresas para conhecer melhor os negócios.

Com os resultados, elaboram um carteira composta habitualmente por entre 60 e 100 títulos, na qual o peso de cada valor costuma estar entre 1 e 3%, se bem que em alguns casos pode chegar a superar esta percentagem (Nippon Telegraph & Telephone pesa atualmente cerca de 3,9% e a Verizon, 3,5%). Adicionalmente não têm limitações ao nível sectorial ou geográfico. Durante os últimos 12 meses aumentaram o peso das telecomunicações (+3,5%) e empresas de consumo básico (+3%) e reduziram a ponderação em saúde (-4%) e consumo cíclico (-1,8%). Em termos absolutos, em comparação com o índice, os EUA (41,6%), Reino Unido (8,8%), Suíça (8,2%), Alemanha (6,2%) e Japão (5,9%) são os países que maior peso têm em carteira. A nível sectorial são o consumo básico (25%), telecomunicações (12,6%) e saúde (12,6%) que mais pesam. Atualmente mantêm um posicionamento mais defensivo que no passado, centrando-se somente naqueles nomes nos quais têm mais confiança no que respeita a manutenção do dividendo. “Cerca de 70% está investido em empresas consideradas defensivas ou em liquidez e 30% em cíclicas”.

A rotação da carteira é baixa. Em média, cada valor permanece cinco anos em carteira. No último ano a rotação média foi de 20%. “É provável que aumente em 2016. O fundo tem estado a receber fluxos de entrada muito relevantes, o que nos tem levado a aumentar a nossa posição em liquidez e dívida pública de curto prazo dos EUA e Reino Unido para evitar as rentabilidades negativas. Estamos à espera de que o mercado nos ofereça um bom ponto de entrada para ir acrescentando novas ideias à carteira”. A grande maioria das empresas em que investem são empresas de grande capitalização. Uma é um REIT (Real Estate Investment Trust). “Neste momento, todas elas têm rating com grau de investimento. Se investíssemos em obrigações das empresas que temos em carteira, a rentabilidade seria muito baixa. Somente investiríamos em empresas com classificação de risco abaixo de grau de investimento num caso evidente de melhoria do balanço que proporcionasse uma oportunidade neste segmento”.

Não usam derivados, nem cobrem o risco de divisa, algo que o gestor considera que não faz sentido porque no longo-prazo o impacto que exercem as flutuações das divisas sobre a rentabilidade é muito escasso. Além disso, na prática, representaria uma aumento da volatilidade. Referindo dados da Morningstar, Weinoehrl revela que desde a sua criação há 13 anos, capturou 90% das subidas e 67% das descidas do MSCI World. 

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