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Reações das gestoras à decepcionante decisão do Banco do Japão


Mervyn King, antigo governador do Banco de Inglaterra, declarou em 2007 que a sua maior ambição era que a política monetária fosse aborrecida. No entanto, os mercado tiveram, desde então, quase uma década para se habituarem e inclusivamente exigirem, ações vistosas por parte dos bancos centrais. Isto explica que os mercados tenham incorporado nos preços algum tipo de atividade por parte do Banco do Japão (BoJ). Entre as opções que estavam em cima da mesa figurava o incremento do programa de estímulos qualitativos e quantitativos, injeções na banca semelhantes aos TLTROs ou inclusivamente, o recuo nas taxas negativas introduzidas há apenas dois meses.

No entanto, nenhuma destas hipóteses se realizou: Haruhiko Kuroda, governador do BoJ, não anunciou nenhum estímulo novo, e adiou para 2017 o cumprimento do objetivo de inflação de 2%. Ao optar pela prudência, os oficiais do BoJ apanharam os investidores desprevenidos: o Nikkei colapsou 3,6% na sessão de quinta-feira e, mais preocupante, o dólar recuou 2,35% face ao yen.

O BoJ está em modo ‘wait & see’ antes de gastar todas as munições. Acreditamos que uma política de taxas de juro negativas, em conjunto com uma impressão massiva de dinheiro, não é solução”, afirma Ignacio Díez, gestor de fixed income do Credit Suisse. Este constata que “a apreciação do yen está a melhorar o poder de compra dos cidadãos. O problema é que continuam a aumentar a sua propensão marginal para poupar. O consumo das famílias desceu fortemente no último ano”.

“Acreditamos que seria positivo que o governo japonês continuasse com a sua política de maior estímulo fiscal para reavivar o investimento e o crescimento económico, principalmente acelerando os gastos públicos e suspendendo medidas que possam danificar a procura interna, como a subida do IVA prevista para 2017”, conclui.

Para Nathan Gibbs, gestor de ações japonesas da Schroders: “independentemente do nível das taxas de juro ou dos pormenores da política monetária, o principal problema da decisão é a incoerência. Refere-se a que “ainda que Kuroda tenha surpreendido positivamente os investidores com o momento escolhido para aplicar as medidas no passado, a direção da sua política tem sido sempre absolutamente clara. Como resultado, a maioria dos investidores tinha-se preparado com base na afirmação de que a instituição faria ‘tudo o que fosse necessário’ para aumentar as expectativas de inflação”. Portanto, Gibbs considera que “a inatividade de quinta-feira introduz um elemento de incerteza ao qual os mercados financeiros podem reagir negativamente”.

Andrew Rose, também gestor de ações nipónicas na Schroders, defende que é demasiado cedo para declarar que as Abenomics fracassaram, entre outras coisas porque as taxas negativas “ainda não tiveram oportunidade de causar um impacto sobre a economia real”. “Mesmo que todas as medidas de inflação continuem muito abaixo do objetivo de 2% do banco central, também é certo que parece que o Japão está em processo de uma saída sustentável de um longo período de deflação”, declara Rose. Além disso, recorda que o colapso do preço do petróleo afetou  a economia, e que o recente terramoto atraiu muitas manchetes, ofuscando as tendência positivas, como a melhoria das condições do mercado laboral.

O especialista está consciente que vão continuar a aparecer dúvidas em redor da sua classe de ativos, especialmente porque se avizinha a temporada de resultados no Japão (acaba de terminar o ano fiscal japonês), e se prevê que estes reflitam a robustez do yen dos últimos dois meses. “É provável que leve as empresas a serem bastante conservadoras nas suas próprias previsões de lucros para o ano fiscal que acaba em março de 2017”, comenta. No entanto, se não se produzirem mais choques, o gestor da Schroders espera que as revisões voltem a ser positivas no final deste ano. Também pode ter um efeito negativo o segundo trecho de subida do IVA, previsto para 2017, ainda que, dadas as circunstâncias atuais, acredita que o mais provável seja que se adie esta medida.

Às voltas com as taxas negativas

Raphael Gallardo, estratega da Natixis Global AM, adverte para os perigosos efeitos que podem trazer consigo as taxas negativas daqui para a frente. “Em primeiro lugar, a reação hostil dos bancos não foi antecipada e, além disso, a medida tomada torna mais difícil para o BoJ encontrar vendedores de obrigações soberanas japonesas para o seu programa de QE2”.

Gallardo refere que muito investidores não financeiros recusam vender as suas obrigações porque querem enquadrar os fluxos de rendimentos com as suas capacidades de longo prazo, e ao mesmo tempo preservar capital e limitar os riscos de contraparte. “Isto causa uma espécie de armadilha de obrigações que faz com que fique ainda mais difícil que o BoJ consiga os seus objetivos de aquisição de ativos”, explica o especialista. Na sua opinião, “mesmo que kuroda tenha introduzido as taxas negativas para repelir o risco de uma armadilha de liquidez, no final destruiu o mecanismo de valorizações do mercado de obrigações”. Mais ainda, afirma que “o mercado de swaps de FX ficaram saturados de risco de contraparte japonesa, o que limita a habilidade dos investidores institucionais domésticos para diversificar as suas carteiras com obrigações estrangeiras”.

O reverso da medalha é protagonizado por Paul Brain, responsável de fixed income da Newton (BNY Mellon), porque declara ter comprado dívida soberana japonesa pela primeira vez em sete anos. O catalisador da decisão teve que ver com o facto de no final de Janeiro as taxas de juro dos Bunds a 10 anos terem confluído com o seu homólogo japonês. Em fevereiro, além de introduzir as taxas negativas o BoJ anunciou que compraria mais prazos da curva de yields, o que abarcaria obrigações com maturidades superiores a 10 anos. “Naquele momento, avaliámos a situação e chegámos à conclusão de que a política de taxas de juros negativas não seria algo temporário, mas sim que se esbateria a longo prazo e iria reduzindo progressivamente as yields em toda a curva. Não nos equivocámos”, afirma Brain, que admite ter comprado obrigações a 30 anos e ter beneficiado de um estreitamento dos spreads nas semanas posteriores ao anúncio do BoJ.

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