Rally nas ações chinesas: Será que tudo o que reluz é ouro?


É cada vez mais evidente que na China na economia financeira se está a descolar da economia real. Prova disso é a desaceleração do crescimento do PIB face ao rally das bolsas do país. Para Matthew Sutherland, diretor de gestão de produto da Fidelity Worldwide Investment para Ásia, “o que está a impulsionar as ações chinesas é a grande acumulação de poupança interna devido ao elevado superavit da balança comercial por esta altura”.

A isto acrescenta-se o impulso gerado pelo programa Connect das bolsas de Shangai e de Hong Kong: “O objetivo inicial deste programa era dar acesso ao mercado interno de ações classe A aos investidores estrangeiros, mas o que aconteceu é que os investidores nacionais se adiantaram a este movimento, com a ideia de investir no mercado antes dos investidores estrangeiros. Isso fez com que o mercado subisse e, ironicamente, atualmente os investidores chineses estão a usar o programa Connect para comprar ações chinesas cotadas em Hong Kong (ações classe H), já que fizeram com que o mercado interno subisse tanto que as valorizações são muito mais altas, do que são atualmente em Hong Kong”.

O especialista considera que “as valorizações não são, em geral, exorbitantes”, dado que o PER médio das ações classe A se situa em 14 vezes, pelo que descarta uma bolha. Em termos de sectores comenta que, no mercado interno, “a tecnologia e saúde são dois sectores que começam a estar mais caros, para além de alguns títulos materiais. Destaca ainda assim que o sector financeiro tem ficado aquém do esperado, com os bancos a negociarem com um PER de um dígito.

Helen Zhu, responsável de ações chinesas da BlackRock, centra-se na magnitude dos volumes registados diariamente: no caso das ações classe A, alcançaram-se os 290.000 milhões de dólares, enquanto que as ações de classe H bateram recentemente um record de 37.000 milhões. Para Zhu o catalizador chave foi o anúncio da CSRC (a CMVM chinesa), de que será permitido a todos os fundos domésticos investir em Hong Kong: “A abertura do acesso ao mercado poderá significar que mercados como Hong Kong possam assistir a uma grande quantidade de fluxos de entrada”, comenta a especialista.

“Uma maior flexibilidade nos controlos de capital e a abertura de acesso aos mercados é uma questão de tempo”, acrescenta Zhu, que recorda que agora existem pontos de acesso limitados às licenças QFII, RQFII e QDII juntamente com o esquema MMA, sendo todas elas muito restritivas. “À medida que a China se vai m movendo para uma derradeira abertura das contas de capital, vemos que estão a ser dados passos contínuos para eliminar estas limitações”, assinala. Entre esses passos estão a ampliação das quotas das licenças ou a incorporação do Programa Conect da Bolsa de Shenzhen, prevista para finais do ano. Segundo Zhu, estas medidas de abertura “provavelmente aumentarão a lista de títulos nos quais se pode investir em ambas as partes, assim como os volumes de negociação diários e acumulados permitidos”. Assim que seja concluído o processo de abertura dos mercados financeiros, “o mercado classe A estará completamente aberto a investidores globais, enquanto que os investidores domésticos também terão liberdade total para sair fora. As duas reservas de capital serão fundidas”.

Similitudes e diferenças entre ações classe A e classe H

Para a BlackRock, ambos os mercados apresentam diferenças ao nível da valorização e da liquidez. Por um lado, o mercado tem-se centrado na arbitragem entre títulos registados em ambas as bolsas, o que acabou por provocar uma valorização excessiva em alguns sectores: “Preferimos ser mais seletivos e centrarmo-nos naqueles em que acreditamos que as valorizações ainda são atrativas em termos absolutos, comparativamente com concorrentes regionais e globais, mais do que comprar tendo por base a valorização relativa apenas as ações de classe A”.

No que diz respeito à liquidez, a especialista entende que em ambos os casos aconteceu “um incremento na participação na parte sul, juntamente com a participação das compras de mais investidores domésticos, o que impulsionou a negociação de ativos no mercado de Hong Kong”. Por isso, conclui que “dada a grande brecha entre a negociação de ações classe A e a sua velocidade relativamente às classes H, acreditamos que a melhoria dos volumes de classe H é o ‘new normal’,  ao existirem mais fluxos em direção à classe A do sul”.

À media que as reformas prossigam e se vão reduzindo os riscos na economia, juntamente com a melhoria dos volumes de Hong Kong, Zhu prevê que os prémios aos quais negoceiam os títulos maiores disparem, face aos prémios de small caps e mid caps em Shangai. Dentro de Hong Kong veem valor em bancos de média capitalização, imobiliárias e utilities. 

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