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Quem ganha e quem perde com a MiFID II?


Um dos pontos mais polémicos do último projeto da MiFID II – a revisão da diretiva que governa o mercado de instrumentos financeiros da União Europeia – é a proposta de proibir o uso de comissões para pagar pela análise realizada por terceiros, algo que poderá impactar de forma significativa o sector de investimento e a gestão de ativos. Os especialistas da Integrity Research – consultora norte-americana especializada no sector de análise de investimentos – decidiram investigar mais a fundo esta questão, com o objetivo de determinar quem sairá a ganhar, e quem será prejudicado, se esta proposta acabar por ser aprovada.

Os vencedores

Na opinião de Michael Mayhew, presidente da Integrity Research, os donos dos ativos serão os mais beneficiados pela nova norma. “Tanto a FCA como a ESMA argumentam que os donos dos ativos (fundos de pensões, seguradoras e investidores de retalho) têm vindo a pagar demasiado em comissões, por causa da análise externa que usam os gestores de investimento, porque estas comissões não têm sido geridas eficientemente”. No entanto, Mayhew acredita que obrigar as gestoras de ativos a usar os seus próprios recursos para pagar por esta análise não implica necessariamente que este gasto se vá reduzir, podendo inclusive supor um aumento das comissões de gestão.

Na verdade, Mayhew antecipa que as gestoras de ativos maiores poderão optar por pagar pela análise, e ganhar quota de mercado à custa dos concorrentes mais pequenos, para os quais a análise externa será muito mais cara. “É possível que aconteça uma certa consolidação na indústria e que as gestoras maiores absorvam outras mais pequenas como consequência do aumento de custos associado à implementação da MiFID II”.

Um terceiro grupo que poderá sair beneficiado é o dos fornecedores de software, para os quais a nova diretiva europeia abre uma interessante oportunidade comercial no âmbito dos serviços de administração e gestão de análise externa.

Os perdedores

Mas nem tudo são vantagens. Como já foi referido, as gestoras de ativos mais pequenas poderão ser especialmente penalizadas pela proibição de financiar a análise externa mediante comissões porque o impacto do custo será muito maior do que no caso das gestoras maiores, “uma situação que também dificultará a criação de novas gestoras”, aponta Mayhew.

Os bancos de investimento e as empresas de análise independente também verão o seu negócio afetado pela mais do que provável redução dos orçamentos que as gestoras dedicam atualmente à análise. No entanto, segundo vários questionários realizados pela Integrity Research, nem todas estas empresas serão afetadas de forma igual. “É provável que os bancos de investimento especializados em certos sectores mantenham as receitas que geraram pelos seus serviços de análise graças a este profundo conhecimento”, assinala Mayhew. No caso das empresas independentes, embora possam sofrer a curto prazo, “com o tempo deverão resistir melhor do que muitos bancos de investimento, já que estão mais habituados a cobrar pelos seus serviços de forma desagregada”.

Mas talvez o aspeto mais preocupante da nova norma seja o impacto que poderá ter nas empresas de pequena e média capitalização e, finalmente, nos investidores de retalho. No caso das primeiras, o corte dos orçamentos traduzir-se-á numa menor cobertura por parte dos bancos de investimento e das empresas de análise, o que provocará um aumento do custo de capital para estas empresas. No caso dos investidores, embora possam beneficiar de uma redução do custo de análise, existem outros factores que podem ser muito mais prejudiciais.

Como explica Mayhew, “numerosos estudos académicos têm demonstrado que as gestoras mais pequenas costumam gerar melhores rentabilidades do que as grandes. No entanto, é provável que MiFID II fomente a consolidação das gestoras mais pequenas, o que acabará por se traduzir em piores rentabilidades”. O especialista acredita que para além disso uma menor concorrência no sector da gestão de ativos poderá acabar por provocar um aumento das comissões de gestão. “O que nos preocupa na MiFID II é que, provavelmente, as consequências imprevistas terão um impacto muito maior, comparativamente com os benefícios que os reguladores procuram”, concluem. 

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