Que oportunidades se abrem com as recentes correções de mercado?


A crise grega, a desaceleração da economia chinesa e a eminente subida das taxas de juro por parte da Reserva Federal parecem ter despertado o medo sobre uma nova recessão mundial, e na segunda-feira as bolsas reagiram com quedas bruscas. Embora as comparações com o famoso Black Monday de 1987 não tenham tardado a chegar, são muitos os especialistas que argumentam que as correções dos últimos dias, embora grandes, estão ainda longe de ser históricas.

Como assinalavam David Stubbs e Alex Dryden, estratega e analista de mercado respetivamente, na J.P. Morgan AM , “ao longo dos últimos 35 anos, os mercados têm experimentado quedas intra-anuais  médias de 16% e, em 27 desses 35 anos, as correções foram seguidas de rallies que permitiram que as bolsas crescessem no ano com lucros”. Por isso, os representantes da casa norte-americana acreditam que “as quedas estão a criar oportunidades para investir em empresas de qualidade e com boas perspetivas de lucros a preços mais baratos do que há umas semanas”.

Da mesma maneira pensa Hugh Young, que lidera a partir de Singapura a equipa regional e de ações Ásia Pacífico da Aberdeen Asset Management: “Depois de se ter atravessado o crash de 1987 e a crise asiática, estes movimentos são relativamente pequenos”, afirma o especialista em declarações à Bloomberg. Na verdade, a gestora escocesa está a considerar aproveitar as recentes correções para ampliar as suas posições em ações. “Quando as pessoas entram em pânico, algumas gestoras dizem que há que vender todas as posições, mas, na realidade, deveríamos estar satisfeitos com a queda dos preços”, aponta Young, que acredita que a expansão monetária levada a cabo nos últimos anos pelos principais bancos centrais do mundo tem inflacionado os preços dos ativos.

Neste mesmo prisma, da Robeco também assinalam que “os mercados financeiros estão já bastante nervosos e neste clima, os investidores tendem a reagir de forma exagerada às más notícias”, explica Lukas Daalder, responsável de investimentos da Robeco Investment Solutions. Por isso, numa posição de investidores de longo prazo, assumem que estão  "a analisar o mercado para perceber se as quedas dos preços criam oportunidades de compra em alguns mercados”.

Oportunidades nos mercados desenvolvidos

“As recentes vendas devolveram algum valor a muitos ativos financeiros”, afirma o estratega chefe da BlackRock, Russ Koesterich, que sublinha que, embora as ações tenham recuperado algum terreno depois das quedas, “as valorizações da maioria dos ativos estão muito longe dos valores que costumam anteceder, tipicamente, os bear markets”. Na sua opinião as oportunidades abundam para os investidores com um horizonte de investimento mais a longo prazo: “As ações de mercados desenvolvidos que o MSCI World mede, estão a negociar a cerca de duas vezes o seu valor contabilístico, o que representa aproximadamente 10% menos do que a sua média de vinte anos, e quase 25% menos do que o máximo de valorização alcançado em 2007”.

Paras Anand, head of european equities da Fidelity Worldwide Investment, apresenta em concreto sobre a Europa, três razões que continuam a suportar o bom comportamento das ações europeias e que dão força à ideia de que o uso do stock picking nesta fase de mercado é imperativo. Em primeiro lugar indica que “tanto os fortes balanços das empresas, como o favorável ambiente de financiamento permanecem”. Em segundo lugar fala da “combinação entre a queda dos preços das commodities, dos preços de ativos estáveis e da melhoria das condições de salários", que "estão a fortalecer a procura do consumo nas economias mais desenvolvidas; por último, faz referência ao aparecimento de novos negócios, que estão suportados “pelos modelos guiados pelo tecnologia”.

Passando o seu testemunho na gestão do fundo FF Euro Blue Chip, Alexandra Hartmann, portfolio manager da mesma casa, explica que no decorrer desta debilidade dos preços, “aproveitou para assumir posições nos sectores financeiro e da energia", reduzindo exposição a empresas de materiais básicos. 

As correções abriram  também oportunidades para as ações norte-americanas.  “O S&P 500 negoceia agora com um PER inferior a 15 vezes, enquanto o Dow Industrial negoceia a praticamente 13 vezes menos do que os lucros do ano que vem”, indica Russ Koesterich. Na opinião do profissional outro mercado atrativo é o high yield norte-americano, representado pelo Markit iBoxx USD Liquid High Yield Index, “cujos spreads se ampliaram substancialmente relativamente às obrigações do Tesouro, embora os incumprimentos permaneçam muito abaixo dos seus níveis históricos”. 

Com know how suficiente para igualmente inferir sobre o mercado norte-americano, Angel Agudo, portfolio manager do FF America e do Fidelity American Special Sits, fala de quais as oportunidades trazidas por esta volatilidade. “Na verdade, a recente correção no mercado norte-americano fez-me considerar uma série de ações que tinha na minha ‘watchlist’, e que agora estão com níveis de valorização interessantes. Falo de empresas que estava a monitorizar de perto já há algum tempo, e que esperava o momento certo para entrar”. 

Oportunidades nos emergentes

Numa conference call com jornalistas, Catherine Yeung, diretora de investimentos da Fidelity Worldwide Investment para a região de Ásia Pacífico, mostrou uma perspetiva relativamente positiva no que toca aos mercados de ações chineses, mas também no que concerne à própria economia do país. “Mesmo se o crescimento do PIB no médio prazo se situar nos 5%-6%, existem muitas empresas que continuam com boas margens e com lucros favoráveis”, referiu, sublinhando que “a China continua a contribuir muito para o crescimento global, apesar do abrandamento da sua economia”.

É neste sentido mais uma das profissionais que fala de oportunidades de investimento, e indica que atualmente o foco da entidade está em “prestar atenção às notícias mais ‘micro’”, tentando perceber o que é que as empresas estão a tentar “dizer” ao nível das rentabilidades futuras e do crescimento dos lucros. Acrescenta ainda outro foco de oportunidades, proveniente das reformas levadas a cabo pelo governo, “que apoiarão ainda mais as empresas do estado”. “Muitas delas têm ativos muito atrativos, mas algumas precisam de ser geridas de forma mais eficiente”, remata.

Da Robeco também elegem pontos de interesse nos emergentes, e falam de oportunidades a explorar em mercados como a China, Índia e Coreia. “A Índia, por exemplo, tem reservas de 80 mil milhões de USD. Com os preços do petróleo a 45 USD contra os 100 dos últimos anos, trata-se de uma valiosa quantidade de dinheiro que o país pode gastar em infraestruturas, educação e cuidados de saúde”, indicam. Nas carteiras de ações emergentes da entidade, indicam a sobreponderação de nações que compram matérias primas, enquanto que os países exportadores -  como é o caso do Brasil, Rússia, Malásia e África do Sul – são subponderados nestes portfólios. 

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