Que desafios enfrenta a dívida de economias emergentes?


Devido à escassez de atratividade da dívida soberana europeia e o aumento do risco de incumprimento no segmento high yield, há que rever as teses de investimento em dívida emergente em virtude da sua maior rentabilidade, com ratings muito semelhantes aos do mundo desenvolvido. Abbas Ameli-Renani, estratega de mercados emergentes da Amundi, destaca a necessidade de avaliar corretamente os riscos que apresentam este tipo de obrigações. Não só os macro – colapso dos preços das matérias-primas, ciclo de contração da política monetária da Fed, dúvidas sobre o crescimento da China -, mas também outros a que estão a ser menos considerados.

Riscos na dívida corporativa

O estratega distingue dentro da dívida corporativa, as emissões de empresas chinesas e de empresas de outros países emergentes, já que “o incremento das emissões na China tem sido a principal fonte de subida do risco da dívida corporativa emergente, no entanto não esperamos uma onda de incumprimentos nesta parte do universo”.

Por outro lado, “se se produzirem incumprimentos na China, o impacto será grande”, aponta o especialista. A razão? “Pela primeira vez, o PIB nominal é inferior ao PIB real na China, devido às pressões deflacionárias. Isto faz com que a taxa de crescimento dos lucros das empresas seja inferior ao dos juros da dívida, o que implica que a dívida não é sustentável”. Para o estratega, o único consolo é que “muitos títulos chineses são dívida considerada como ‘quase soberana’ e se há um país que dispões de dinheiro para resgatar as suas empresas, é a China”.

Ameli-Renani alerta sobre a possibilidade de ampliação do universo de high yield emergente em detrimento da parcela com grau de investimento, como consequência da redução do rating soberano de algum país. Em concreto, o estratega espera novas reduções do rating em países exportadores de petróleo com divisas indexadas ao euro, como o Bahréin ou a Arábia Saudita ou outros dependentes das matérias-primas, como a África do Sul.

Riscos da dívida soberana

Ainda que Ameli-Renani admita que a dívida soberana emergente é uma importante fonte de preocupação, considera essencial prestar atenção aos detalhes. Primeiro, recorda que os indicadores macro apontam para a estabilização numa série de países emergentes e, em segundo lugar, os bancos centrais dispõem, em geral, de margem de manobra para implementar as suas políticas monetárias mais acomodatícias. Assim, o cenário base da Amundi é de um soft landing no mundo emergente, não de hard landing. Na gestora reconhecem que este reequilíbrio do crescimento dos países em vias de desenvolvimento enfrenta riscos no curto prazo, mas afirmam que deverá ter como resultado um crescimento mais sustentável no longo prazo.

“Não estou demasiado preocupado com a deterioração da classe de obrigações como consequência da pressão sobre as divisas”, declara o estratega. Indica que o paradoxo da espetacular desvalorização das divisas emergentes face ao dólar é que “graças a taxas de câmbios flexíveis,  num país que exporta petróleo em dólares, a conversão destes em moeda local, depreciada, proporciona maiores receitas para pagar aos credores”. Isto leva Ameli-Renani a concluir que “em termos gerais, o equilíbrio das contas correntes dos países exportadores de petróleo melhorou apesar da situação”. O estratega acrescenta que a flexibilidade das taxas de câmbio dos países emergentes tem sido “um dos drivers mais importantes do melhor comportamento da dívida emergente em comparação com a high yield norte-americana em 2015”.

Por último, o especialista constata que “desde 2014 rompeu-se a correlação entre a dívida denominada em moeda local e a dívida em moeda forte, resultando num  bom comportamento da segunda – especialmente a dívida em dólares – e um comportamento débil da primeira, em consequência da depreciação”. Em resultado, os especialistas da Amundi preferem investir em dívida emergente denominada em moeda forte.

Posicionamento da Amundi

O ponto de partida da equipa de obrigações da gestora tem sido perguntar-se que países estão mais expostos ao crescimento da China via exportações, para centrar-se naqueles com dinâmicas que não dependam do gigante asiático. A conclusão  a que chegaram foi que “os países da Europa de Leste são o novo ‘safe haven’ perante as incertezas, já que não têm exposição à China nem à evolução das matérias primas e beneficiam da política monetária expansionista do BCE”.

Também sobre-ponderam a dívida soberana brasileira: “esperamos uma contração do PIB brasileiro entre 3% e 3,5% e que aumente o risco político, mas acreditamos que muito está já reflectido no preço e que investir em dívida brasileira em dólares pode proporcionar um retorno de até 7%”. Uma postura semelhante justifica a sobre-ponderação à dívida venezuelana: “a Venezuela deverá, provavelmente, declarar um incumprimento em 2016. Necessitam de uma divisa mais débil para efetuar a conversão em dólares das receitas do petróleo e isso é muito difícil para eles. A única coisa que poderia ajudar seria que a China concedesse novos empréstimos ao país. De outra forma será muito difícil para a economia venezuelana sobreviver. Estamos muito cautelosos com a dívida venezuelana, mas não queremos estar sub-ponderados porque o default está já reflectido no preço da dívida – especialmente a com vencimentos entre 2024 e 2028 – que cota perto do valor de recuperação”, conclui o estratega. 

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