Que ativos saem beneficiados com a ampliação do QE e com os novos estímulos?


Depois de conhecidas todas as novidades anunciadas por Mario Draghi, é a vez de se perceber o impacto nas classes de ativos. São várias as gestoras de fundos que apontam para nichos com maiores oportunidades.

“O mercado de obrigações tem passado por um rally em 2016, devido às expectativas sobre as futuras medidas que seriam anunciadas pelo BCE, e Mario Draghi deu mais informação do que o mercado esperava”, afirma Tanguy Le Saout, responsável de obrigações europeias da Pioneer Investments. Este fala de mais detalhes sobre o comportamento da dívida europeia: “A parte mais curta da curva alemã tem mais pressão, principalmente por causa desse rally vivido. O mercado já o tinha descontado, pois alguns especialistas esperavam o corte da taxa de depósito em 20 pontos base. No entanto, os vencimentos a mais longo prazo têm-se comportado bem, com os mercados periféricos a ter resultados superiores. A duração deste comportamento é discutível, e a nossa visão pouco negativa sobre Itália não mudou com o anúncio”.

“As perspectivas para o crédito europeu são, sem dúvida, mais positivas agora do que antes da conferência de imprensa”, conclui Le Saout. Embora não existam mais detalhes sobre a quantia de compras “o facto de existirem aquisições de obrigações de empresas todos os meses, apoiará os spreads”.

A mesma opinião tem a Muzinich: “As decisões do BCE são positivas para os spreads de crédito corporativo, tanto financeiro como não financeiro, neutrais para a dívida soberana europeia ‘core’, mais positivas para a dívida periférica e moderadamente negativas para o euro”. Sobre os TLTRO, da entidade nova-iorquina estimam que “deverão ter um poderoso impacto sobre os bancos, eliminando os riscos de liquidez que os bancos da zona euro poderiam ter enfrentado devido ao forte programa de refinanciamento previsto para os próximos dois anos, e que atingirá a maturidade no velho LTRO/TLTRO”. 

Sobre o novo programa de aquisição de dívida corporativa, os especialistas da Muzinich consideram que “é um progresso positivo para a dívida corporativa”, e observam uma reação imediata, pois ontem estreitaram-se os spreads tanto da dívida investment grade como da high yield. “Embora apenas sejam elegíveis as empresas com grau de investimento, a redução esperada do spread no espaço IG, a proporção ainda mais negativa da dívida soberana europeia e a procura de rentabilidade apoiarão os fluxos de entrada para o universo high yield, que agora está a enfrentar um desequilíbrio ainda mais estrutural entre a oferta e a procura potencial”, detalham.

A conclusão dos analistas é que “favorece taticamente o mercado de crédito europeu porque o impacto dos fluxos imediatos deverá apoiar as obrigações denominadas em euros de emissores com domicílio na zona euro”. Desta forma, creem que esta nova bateria de medidas “é um forte incentivo para ter obrigações periféricas, porque a eliminação do limite de 33% das emissões de dívida vão favorecer os mercados de menor tamanho onde a procura de investidores internacionais e dos próprios investidores dos países seja estável”.

Por fim, os representantes da Muzinich acreditam que “o impacto sobre as ações europeias poderá ser moderamente positivo em termos absolutos e mais positivo em termos relativos face a outros mercados desenvolvidos”. O seu argumento é que “o contexto global está longe de estabilizar-se e ainda prevalecerão algumas incertezas sobre a economia norte-americana e o ciclo de crédito, assim como sobre as economias emergentes”. No entanto, o ponto de vista da entidade é que o high yield deverá registar, este ano, um comportamento superior ao das ações.

A banca ganha

Desde que o Banco do Japão introduziu taxas de juro negativas perante a adopção de um sistema de três níveis no início do ano, os investidores europeus estavam preocupados com a possível adopção de um esquema similar que comprimiria ainda mais as margens líquidas de juros para os bancos europeus, impactando assim os seus lucros mas também a sua capacidade de aumentar a concessão de empréstimos e assumir riscos” recorda George Efstathopoulos, gestor de fundos multiativos na Fidelity International. “No entanto”, acrescenta, “mediante a nova série de LTROs os bancos basicamente serão subsidiados para conceder empréstimos. Isto é muito positivo para o sector bancário, que tem estado sobrevender e sob pressão nos últimos meses”.

Postura similar tem Yves Maillot, responsável de ações europeias de NAM (filial da Natixis Global AM). “Um argumento contra os estímulos adicionais do BCE tem sido que taxas ainda mais baixas podem prejudicar os bancos. Com uma nova ronda de LTROs e o corte das taxas de juro para os que podem pedir emprestado aos bancos regularmente, o BCE está a aliviar a carga dos bancos”.

“O pacote de medidas de Draghi tenta, em todas as frentes, fazer face ao problema. O novo programa TLTRO II é provável que vá ter um maior impacto porque pode incentivar realmente os bancos a conceder financiamento mais barato do que aquele que eles obtêm do banco central”, coincide Patrick O’Donnell, gestor da Aberdeen. Mostra-se mais crítico com o resto das medidas: “A decisão de comprar obrigações corporativas não financeiras poderá ser uma medida interessante, mas não sabemos exactamente o que comprarão, nem a quantidade. O risco é que o BCE decida comprar menos do que os mercados esperam atualmente”.

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