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Primeiro o Brexit, depois Trump...Itália será a seguinte? As gestoras internacionais comentam


É uma realidade que os mercados são cada vez mais sensíveis ao impacto dos eventos de natureza política. Seguindo a agenda política, depois das eleições nos EUA, a atenção dos investidores vira-se para o referendo constitucional em Itália no próximo dia 4 de dezembro. Os analistas da Allianz Global Investors recordam que o Congresso e o Senado têm os mesmo poderes, "o que fez com que a atividade legislativa em Itália, depois da Segunda Guerra Mundial, tenha sido bastante pesada, com governos fracos e de curta duração". Neste contexto, a intenção do atual presidente do país, Matteo Renzi, é verificar, através do referendo, como se pode alterar a Constituição, incluindo uma nova lei eleitoral (segundo a qual o partido que consiga mais votos irá controlar o Congresso com 55% dos lugares) e reformar o Senado, que perderá poderes em relação ao Congresso. Renzi anunciou a sua disposição para se demitir, caso o voto negativo ganhe o referendo.

Implicações para os possíveis cenários

Em seguida, os analistas oferecem detalhes dos possíveis cenários do referendo. No caso de ganhar o voto afirmativo e aprovar-se a reforma constitucional, declaram que "a Itália tem uma oportunidade de ter governos mais estáveis e uma atividade legislativa mais efetiva". Neste contexto acreditam que o Partido Democrático de Renzi sairá reforçado e tenderá a ter muito mais opções para ganhar as eleições programadas para o próximo ano. Se aplicadas as reformas (conhecidas por Italicum), estas dariam ao partido atualmente no governo uma grande maioria parlamentar que permitiria a Renzi "reavivar o seu programa de reformas".

Um ponto controverso que os analistas observam neste cenário, baseando-se nos resultados das eleições municipais de junho, é que favorecendo o Italicum as maiorias mais fortes, "iriam beneficar, principalmente, o movimento populista Cinco Estrelas", pelo que "as tentativas atuais dos partidos mais pequenos para reescrever a lei poderão ter êxito".

No caso de voto negativo, que está na frente das sondagens, embora com margem reduzida, na Allianz Global Investors acreditam que é mais provável que a paralisia política continue, juntamente com "uma crise económica em estado avançado". Renzi sairia debilitado, mas acreditam que "mesmo que os próprios parceiros de coligação o obriguem a demitir-se, provavelmente o presidente iria pedir ao partido para formar novo governo ou então gerar um governo interino para avançar com a reforma eleitoral, antes que convocasse novas eleições".

Da gestora descartam um aumento do risco sistémico sobre a dívida de curto prazo, "sempre que o BCE esteja pronto para aplicar o programa OMT em caso de stress de mercado". Acreditam que o impacto iria passar com o tempo e pesaria negativamente sobre o crescimento italiano, ao não conseguir aplicar reformas estruturais. "Se a terceira maior economia da Zona Euro não cresce e se mostra incapaz de fazer reformas, a viabilidade do Euro poderá ser questionada a médio/longo prazo", sentenciam os especialistas.

Impacto sobre os mercados

Para Alberto Chiandetti, gestor do FF Italy, e Andrea Iannelli, diretor de investimentos na Fidelity, a chave do referendo é precisamente que "em vez de centrar-se nas profundas reformas constitucionais propostas, a Itália precisa de simplificar o seu quadro normativo e estimular o crescimento. O referendo converteu-se numa moção de censura contra o governo atual e uma votação muito politizada sobre o mandanto de Renzi", que acreditam que está a capitalizar todo o Movimento Cinco Estrelas e que "goza de um grande apoio social e que é um grande adversário nas próximas eleições".

Como o "não" vai à frente nas sondagens e ganhou terreno nas últimas semanas, os especialistas afirmam que "se descontou muito um resultado negativo no referendo". "Depois de várias semanas com mau comportamento face ao bund alemão e às obrigações espanholas, os BTP italianos cotam atualmente a um nível coerente com um resultado negativo negativo nas eleições".

O dilema surge quando se analisa a fundo a decisão, dado que "o não, seria um acto de protesto contra o status quo e a classe política, o que iria impulsionar as tendências populistas que estão enraizadas em todo o mundo". Chiandetti e Ianneli afirmam que os "mercados não estão a tomar de ânimo leve a ascensão dos partidos contestatários e exigem um maior prémio de risco para os ativos italianos".

Implicações para o BCE

Laurence Boone, da equipa de análise e estratégia da AXA IM, opina que a recente eleição de Trump nos EUA é, especialmente, significativa porque "as implicações para a Europa também são importantes para o ciclo político que vem aí: o referendo em Itália e as eleições na Áustria, Holanda, França e Alemanha". O analista afirma que "é provável que os resultados norte-americanos desencadeem debates sobre políticas não convencionais, promovam candidatos pouco convencionais e possam levar a Europa a repensar o equilíbrio entre as políticas baseadas na oferta e na procura".

Neste novo contexto, Boone afirma que o "BCE tenderá a reavaliar as perspetivas económicas, elevando a incerteza em torno da conferência de imprensa de 8 de dezembro". Em particular, o especialista refere que o BCE irá prestar muita atenção à "evolução das condições financeiras, que serão mais ajustadas, com spread mais alargados", juntamente com "qualquer informação que analise as politicas económicas de Trump" e, finalmente, "o resultado do referendo italiano". A conclusão a que chega é que "todos estes elementos fornecem argumentos para continuar com uma postura dovish, o que será mais fácil para o BCE estender o QE até ao verão".

Léon Cornelissen, economista-chefe da Robeco, não duvida do apoio do BCE mas sim da sua margem de manobra: "Enquanto Itália tiver um governo que expressa, nominalmente, a vontade de seguir as políticas da UE, o BCE não fará nada menos do que apoiar o mercado de obrigações italiano, se houver necessidade. E com o programa de flexibilização quantitativa do BCE firmemente estabelecido, os spreads das obrigações italianas têm um limite", conclui.

 

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