Pode a depreciação das moedas emergentes condicionar a recuperação europeia?


Desde o início do ano que os bancos centrais do Brasil, Turquia, Indonésia e África do Sul foram obrigados a aumentar as taxas de juro de forma a travar a depreciação das suas moedas. Adicionalmente, os bancos centrais da Argentina e da Ucrânia tiveram que tomar medidas extraordinárias para evitar o colapso das respectivas divisas. “Tendo em conta a magnitude dos movimentos nas taxas de juro e nas taxas de câmbio, tal situação afetará por um lado o crescimento dos países implicados e, por outro, os lucros das empresas que realizam negócios nesses países”, avisam os especialistas da Amundi no seu último relatório Cross Asset, correspondente ao mês de março.

Da gestora fazem finca-pé no impacto sobre os lucros empresariais, “porque uma boa parte do argumento a favor das ações europeias assentava numa forte recuperação dos seus lucros em 2014”. Para poder avaliar o possível impacto, os analistas começam a examinar o alcance que pode ter a crise nos países emergentes, partindo do princípio de que nem todos são iguais. “Aqueles cujas moedas mais caíram têm muitas caraterísticas em comum. África do Sul, Brasil, Índia, Indonésia e Turquia têm desequilíbrios nas contas correntes, défice orçamental e uma inflação média superior a 7%”, explicam. Na opinião dos especialistas, também a Rússia está sobre pressão, pois ainda que apresente um saldo de conta corrente positivo, “este está a deteriorar-se rapidamente e a inflação é elevada”.

Contudo, os países que a entidade julga estarem em pior posição são a Ucrânia, a Argentina e a Venezuela. “A História não sai em sua defesa, já que juntos estiveram em incumprimento 8 vezes, desde os anos 80”, assinalam. Os nove países mencionados, que a partir de agora serão etiquetados pelos analistas da Amundi como “os Mais Frágeis”, juntos representam mais de 17% do PIB global (na paridade do poder de aquisição) e cerca de 34% do índice MSCI Emerging Markets. Esta influência negativa é compensada pela imunidade a esta crise mostrada pela China, Coreia do Sul, Taiwan, México e pelos países do Golfo, que juntos somam 24% do PIB global e equivalem a 53% do indicador.

No passado mês de outubro, o FMI estimou que a taxa média de crescimento real do PIB para os Mais Frágeis deveria ser de 3,75%. “Tendo em conta os acontecimentos que têm ocorrido deste então, pode muito bem pensar-se que estas estimativas serão revistas em baixa em abril”, dizem da Amundi. A própria gestora já começou a rever as suas previsões, com a seguinte conclusão: baseando-se no pressuposto de que a China manterá um crescimento constante do PIB de 7,5%, as revisões em baixa sobre os Mais Frágeis devem situar-se à volta dos -0,3%, num intervalo que pode variar entre -0,2% na África do Sul e Índia, de -0,3% no Brasil ou Rússia, e de até -0,5% para a Turquia.

Como os conflitos (e os seus derivados económicos) são muito recentes e estão em plena evolução, na falta de um consenso, optou-se pela elaboração de uma série de cenários. Por exemplo em relação às repercussões da crise sobre os Mais Frágeis, um corte de 1% sobre a sua previsão de crescimento teria um impacto de -0,2% sobre o crescimento mundial: cerca de -0,17% direto e -0,03% indireto, devido ao comércio internacional. Como estes cálculos são proporcionais, visto que o cenário de referência da Amundi é uma revisão de -0,3% para os Mais Frágeis, o resultado seria um impacto mínimo  sobre o crescimento mundial de -0,07%. “Por outras palavras, a menos que aconteça um colapso de crescimento nos Mais Frágeis (-3%) ou que a China seja travada, espera-se que o crescimento global permaneça acima dos 3% em 2014”.

Efeitos nas empresas com exposição geográfica a emergentes

“De uma perspetiva comercial, e à primeira vista, os países ocidentais não parecem muito expostos a estes 9 países. De acordo com o Banco de Pagamentos Internacionais, as exportações aos Mais Frágeis representam apenas 5% a 7% das exportações do Japão, Estados Unidos, Reino Unido e dos maiores países da zona euro”, indicam os especialistas da Amundi.

No entanto, estes acreditam que o impacto pode dar-se ao nível micro, por duas razões. A primeira é porque as empresas de grande capitalização listadas em índices de ações estão entre as mais ativas internacionalmente. A segunda é porque os fluxos comerciais raramente caem por causa das exportações, mas sim por causa de aspectos relacionados com a produção local. Se se somarem as vendas das empresas europeias (a Amundi toma como referência as que são cobertas pelos seus analistas), a percentagem proveniente dos países emergentes aumentará 24% (excluindo a China). Destes 24%, 12% provavelmente vêm dos Mais Frágeis. “Mesmo que à primeira vista o crescimento global não seja particularmente vulnerável à desaceleração dos Mais Frágeis, começa a ficar claro que as coisas poderiam ser diferentes no que diz respeito aos lucros, se a exposição média às vendas fosse à volta dos 12%”, avisam.

Neste contexto não se deve menosprezar o efeito das taxas de câmbio, que os especialistas consideram ser um condicionamento de um peso superior  sobre os lucros, comparando com a desaceleração do PIB ou com a exposição a estes países através das vendas. “Na verdade, as empresas têm várias contramedidas para mitigar ou diferir este efeito: coberturas sobre as moedas, integração local, ganhos de produção, aumentos de preços, etc. Ainda que de forma planeada, estas diferentes medidas têm os seus limites, já que, em última instância, o custo da desvalorização deve ser suportado pelo comprador ou pelo vendedor”, referem da gestora.

Da Amundi avisam que não existe uma regra geral para fazer estes cálculos porque dependem de cada empresa, e inclusive da exposição a cada país dentro de uma mesma empresa. A simulação que fazem é a seguinte: se se assume que os Mais Frágeis ponderam uma média de 12% sobre as vendas, com uma depreciação média da moeda entre os 10% e os 15% ao longo de um ano, então o crescimento dos lucros empresariais  da zona euro em 2014 passaria da estimativa de consenso dos 16% (12% é a previsão da Amundi) para 6% ou 3%. Tal facto, leva os especialistas a concluírem que o efeito da taxa cambial terá um efeito muito mais evidente sobre o crescimento dos lucros das empresas de países com moedas fortes, do que uma baixa sobre o PIB.

Os especialistas da gestora fazem uma última clarificação: mais do que na zona euro, os países cujas empresas poderão sofrer mais o efeito cambial são aqueles onde a moeda permanece firme, como é o caso dos Estados Unidos ou Reino Unido. “A boa notícia é que o efeito da divisa é único. Por outras palavras, depois de voltarem ao bom caminho, os mercados serão capazes de voltar a subir”, concluem.

 

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