Os mercados queriam mais, senhor Draghi


A decepção é significativa. Depois de dois meses em que as várias mensagens do BCE faziam prever medidas de estímulo monetárias robustas, este dia 3 de dezembro foi um (pequeno) balde de água fria para a maioria dos investidores.

O último encontro do ano levado a cabo pelo BCE em Frankfurt trouxe portanto o anúncio de um “pacote” de medidas, no qual não se inclui, como já era esperado, nenhum corte na principal taxa de refinanciamento, que se manteve nos 0,05%.

Desta forma, uma das mudanças que era amplamente esperada concretizou-se. A taxa de depósito foi cortada em 10 pontos base, dos -0,20% para os -0,30%. Como relembra Cosimo Marasciulo,  head of government bonds, da Pioneer Investements, Mario Draghi, durante a conferência de imprensa não acrescentou grandes detalhes sobre o assunto e “recusou dizer se as taxas poderiam ir para valores ainda mais baixos”.

No “pré-reunião” muitas foram as opiniões de mercado sobre este corte nas taxas de depósito. Especialistas como François Raynaud, gestor de alocação de ativos e dívida soberana da Edmond de Rothschild Asset Management, “apostava”, por assim dizer, no corte de 10 pontos base, que acabou por se concretizar. Outros, como Azad Zangana, economista europeu da Schroders, esperavam mais. “Os mercados estavam à espera de pelo menos um corte de 20 pontos base na taxa de depósito”. O especialista da Pioneer lembra que neste âmbito “o BCE gostaria de incentivar os bancos a emprestar esse excesso de fundos para a economia em geral”.

Efeitos colaterais evidentes

O programa de compra de ativos, num montante de 60 mil milhões de euros por mês, mantém-se nesse valor, mas foi estendido de setembro de 2016 para março de 2017. Para o economista da Schroders também neste âmbito o mercado ficou desapontado, pois esperavam “pelo menos 20 mil milhões de euros adicionados ao valor de compras mensais no âmbito do QE”. O mercado, diz Zangana, não demorou a reagir. “Dada a decepção, o euro valorizou cerca de 2,2% face ao dólar, enquanto as bolsas europeias caíram a pique”, refere o economista.

Outro ponto anunciado, como lembram da Pioneer, foi a ampliação de ativos elegíveis no programa de compras do BCE, que naturalmente advém da extensão do programa acima referido. Passam agora a ser incluídos na lista de compras “títulos de dívida emitidos por regiões e autarquias”. Para o profissional “dada a falta de crescimento no ritmo das compras mensais”, existem indícios de que “têm existido menos compras de obrigações soberanas”. 

No ponto da inflação foram poucas as novidades, pois a projeção de crescimento para 2016 mantém-se inalterada nos 1,7%, enquanto para 2017 foi revista em alta de 1,8% para os 1,9%.

Decepção (quase) geral

Em termos gerais, as entidades mostram-se desapontadas com as novidades enunciadas pelo presidente do BCE. Da BlackRock, Marilyn Watson, head of global unconstrained product strategy, escreve que “em termos globais as mudanças do BCE na sua visão de política monetária desapontaram as expectativas de mercado”. Na opinião de Azad Zangana “os estímulos adicionais saídos da reunião podem ter um impacto positivo no outlook para a união monetária”... mas deixa um aviso: “Os investidores apanhados de surpresa vão ter, a partir de agora, de aprender a olhar mais atentamente para os dados e não estar à espera que o BCE os apazigúe constantemente”.

Basicamente, a maioria das entidades “deixa cair” a ideia de que as medidas adicionadas pelo BCE são, na verdade, as que o mercado necessitava, mas não aquilo que este estava à espera. Da Franklin Templeton Investments, David Zahn, head of european fixed income, deixa uma visão positiva... e satisfeita. “As medidas anunciadas hoje pelo BCE são o que mercado necessita e está em linha com o que esperávamos”, diz perentoriamente.

Que consequências para os ativos?

Como já referido, as primeiras impressões dos mercados em relação às medidas do BCE não foram as melhores. Daqui em diante são algumas as previsões e teses de investimento traçadas pelas gestoras internacionais. Da Pioneer acreditam que o tom das medidas de hoje indicia que existem discordâncias no seio do conselho geral do BCE e, por isso, “acreditam que as yields das obrigações podem experienciar algum pressão de subida no início de 2016”.

Da Franklin, por seu turno, entendem que sendo a “ampliação do QE a ferramenta mais adequada para ajudar na recuperação da zona euro” é provável que “as rentabilidades das obrigações europeias se protejam e que vejamos as obrigações europeias a superar as obrigações americanas à medida que as políticas monetárias continuem a seguir caminhos opostos”.

Neste contexto, a BlackRock diz manter a sua preferência por “dívida governamental portuguesa e eslovena”, porque em ambas as economias “prosseguem o processo de cicatrização”, e “ainda existe espaço para que esse processo se reflita nos spreads das obrigações”.

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