Oportunidades após a correção: o caso de investimento no Japão, em estudo


Num momento em que a incerteza domina mercados muito focados nos problemas da China e as ações da Reserva Federal, os investidores estão a rever a sua tese sobre outros mercados, à procura de oportunidades de comprar crescimento a um preço razoável. A recente publicação dos últimos dados de crescimento no Japão levou as gestoras internacionais a reavaliar o potencial de geração de retornos trazido pelo Abenomics. Embora o Nikkei se tenha visto arrastado pela queda das bolsas chinesas (retrocedeu cerca de 9% num mês), sobe aproximadamente 20% desde o início do ano.

A economia nipónica contraiu 0,4% durante o segundo trimestre do ano pela descida do consumo interno, após cair nos trimestres anteriores. Apesar do mau dado, da Pioneer Investments indicam que “o Banco do Japão (BoJ) mantém uma opinião positiva sobre a evolução da economia e a inflação e aponta factores temporários como a causa para a desaceleraçãoo verificada no segundo trimestre”. A gestora assume que o BoJ não dará mais estímulos quantitativos em 2015, mas poderá implementar novas medidas de flexibilização se a debilidade persistir. Paralelamente, os especialistas baixaram as suas previsões de inflaçãoo (é esperada uma queda de 0,2% interanual no segundo trimestre) e descartam o cumprimento do objetivo de 2% de inflação imposto pelo BoJ “pelo menos até à próxima subida de impostos sobre o consumo, prevista para abril de 2017”.

No global, na Pioneer estão construtivos para o país, ao considerar que as reformas estão no bom caminho. Destacam que as ações nipónicas “estão suportadas tanto pelos fundamenteis como pela nova estratégia de revitalização, centrada na melhoria da produtividade”, e que as valorizações são moderadas graças à melhoria constante das previsões de lucros, “algo que diferencia o mercado japonês de outros mercados desenvolvidos”. “Observámos uma deterioração da correlação negativa entre o comportamento do mercado acionista japonês e o iene, o que sugere que as reformas e as dinâmicas internas vão ganhando o seu peso e que as ações japonesas estão a evoluir de uma mera resposta às medidas de estímulo para se verem impulsionadas pelas condições internas do país”, concluem de forma muito resumida.

Na mesma perspetiva, da equipa de investimentos da Fidelity Worlwide Investment em Tóquio, acreditam no potencial de investimento no Japão. Paul Tsai, diretor de research, indica que “a tese de investimento no Japão é forte”. Olhando para os “resultados do primeiro trimestre do ano, os lucros das empresas alcançaram um novo record”, diz o profissional, que acompanhando de perto as empresas consegue apontar quais os sectores em que se vê uma evolução positiva, e quais os que, pelo contrário, estão a perder neste conexto de mercado. Do lado positivo, fala das empresas pertencentes aos sectores de consumo, que “foram estimuladas por uma forte procura interna, pela recuperação dos impostos do consumo, e pelo fortalecimento da economia doméstica”, mas também dos lucros na banca, ou ainda dos resultados das empresas do sector automóvel. Em termos negativos, os sectores mais afetados são o industrial, as empresas tecnológicas, e as commodities, sectores que “se mostraram mais fracos por causa do abrandamento da procura global”. 

Alexander Treves, head of equities, da mesma equipa da Fidelity, realça que o grande impacto no Japão proveniente da situação chinesa poderá decorrer mais da debilidade da economia da China do que propriamente das quedas nas bolsas que se têm vindo a sentir. Concretiza: “No Japão, o maior impacto sentir-se-á nas empresas que exportam para a China, e potencialmente, no curto prazo, nas empresas que beneficiam da entrada do tema do turismo”.   

Shinji Higaki, portfolio manager da gestora e também da equipa de investimentos em Tóquio refere que, em termos de construção dos portfólios e alocação, “continua a encontrar um equilíbrio entre as empresas domésticas mais defensivas e as exportadoras, focando-se nas histórias de crescimento que têm vários anos”.

O contraponto

Rebecca Braeu, diretora de análise soberana na Standish (que faz parte da BNY Mellon IM) coloca uma tónica discordante. Em primeiro lugar critica o alcance das reformas: “As melhorias no âmbito da gestão empresarial e a reforma agrícola têm sido feitos significativos para Abe, mas com a necessidade de novas reformas e as dificuldades da economia para cumprir o seu objetivo de inflação perante o marco de elevados défices fiscais, o governo enfrenta um 2015 potencialmente complicado”.

Outro grande obstáculo que atravessa o país, na sua perspetiva, são “as mudanças demográficas e a grande rigidez a nível cultural e institucional”. Braeu assinala que “o rápido envelhecimento da população está a provocar um desequilíbrio crescente no mercado laboral, que, em última análise, poderá supor uma carga adicional sobre o sistema de pensões nipónico e fazer disparar os custos de saúde”.

A especialista, que esteve recentemente no Japão, considera pouco provável que o BoJ volte a aplicar novas rondas de QE este ano: “Dos encontros que tive com oficiais do governo, entendi que o banco central se mostrará mais inclinado para reduzir as expectativas em torno do momento em que se cumprirá o objetivo de inflação, do que em aplicar novas medidas de estímulo; isto especialmente se existir um contexto de pressões salariais razoavelmente forte, impulsionado em parte pelo colapso do petróleo e pelo aumento da procura doméstica”.

No entanto a profissional assinala que “a liquidez dos mercados de dívida japoneses é muito baixa e tudo aponta que piorará”. “Os bancos nacionais não vendem tanta dívida como deseja a autoridade monetária, e a credibilidade do programa de apoio do QQE2 anunciado no passado mês de outubro será provavelmente submetido a um escrutínio renovado nos próximos 18 meses, a não ser que o banco central modifique o programa, ou seja capaz de implementar melhorias significativas no mercado”.

As conclusões de Braeu sobre as oportunidades de investimento no Japão são radicalmente diferentes das anteriores: “A situação do mercado de dívida pública japonesa parece-me cada vez mais precária, e enfrenta um ano difícil face ao contínuo apoio por parte do Banco do Japão”. Com uma exceção: “Tudo aponta que as obrigações nipónicas indexadas à inflação continuarão a mostrar um bom comportamento: os fundamentais são favoráveis, e o sentimento neste segmento do mercado parece ter melhorado nos últimos meses, graças à maior participação dos bancos domésticos e dos investidores estrangeiros”.

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