O que se pode esperar da dívida pública europeia, assim que seja posto em marcha o QE?


Em janeiro o Banco Central Europeu anunciou uma drástica ampliação do seu programa de compra de ativos. Agora que os mercados tiveram tempo de digerir a notícia, os investidores querem saber como se vão comportar as obrigações governamentais da Zona Euro e onde estão as oportunidades no atual contexto de baixas taxas de juro. Em primeiro lugar, a magnitude do plano de ampliação de estímulos e sua estrutura aberta, sem uma data limite estabelecida, surpreenderam o mercado. Acreditamos que este aspecto será mais efetivo na hora de impulsionar as perspetivas de inflação do que os mercados antecipam.

2) Os mercados mostram-se demasiado pessimistas sobre o panorama de crescimento a curto prazo para a Zona Euro. Antes do anúncio de janeiro, os dados já tinham começado a mudar de rumo. As compras de ativos vão significar um impulso adicional para o progresso económico.

3) As decisivas medidas do BCE poderão alterar o equilíbrio entre a oferta e a procura em alguns segmentos de mercado de obrigações europeias e determinados ativos serão claramente beneficiados pelo programa.

4) Embora as as políticas monetárias da Zona Euro e de outras economias mais sólidas como os Estados Unidos e o Reino Unido continuem em caminhos opostos, os aspectos chave dos preços das obrigações continuarão a estar estreitamente vinculados. Historicamente, o prémio de risco vinculado à inflação (a rentabilidade exigida pelos investidores para compensar o risco de inflação) e o prémio de vencimento (a rentabilidade exigida por avançar na curva das yields) estão altamente correlacionadas nestes mercados.

Depois da análise dos pontos atrás mencionadas, há que referir que ainda existem questões sem resposta em relação aos aspectos práticos do programa ampliado de compra de ativos. Ainda não entendemos de todo como será levada a cabo a compra de ativos: poderá ser através de leilões invertidos ou diretamente no mercado secundário. A franja de vencimentos que as compras vão abarcar também ainda não é clara. Por último, foram revelados pouco detalhes sobre como é que o BCE evitará desajustes na curva das yields. Algumas obrigações vão ter uma maior facilidade de compra do que outras e, provavelmente, os participantes do mercado vão tentar explorar as compras do BCE. Isto poderá provocar importantes distorções.

Acreditamos que 2015 apresentará numerosas oportunidades para os gestores de ativos. Seguimos muito de perto as obrigações com maiores vencimentos das economias fora do núcleo da Zona Euro, as obrigações denominadas em euros e vinculadas à inflação, as covered bonds e as obrigações emitidas por entidades governamentais, já que poderão ser as principais beneficiárias da presença de um grande comprador no mercado.

Com as taxas em níveis muito baixos, ou até negativas para muitas obrigações da zona euro, as rentabilidades da dívida italiana e espanhola ofereceram uma yield positiva e uma curva inclinada. Isto não deixa de ser interessante, já que, ao mesmo tempo, um banco central comprometeu-se a realizar compras de grande envergadura nestes mercados. Esperamos que os diferenciais da rentabilidade (a diferença entre a rentabilidade de uma obrigação pública face ao bund alemão) continuem a convergir entre os países da Zona Euro, embora tenham mostrado mais amplitude do que os registados nos anos anteriores à crise.

A médio prazo é provável que as rentabilidades aumentem, mas manter-se-ão em níveis inferiores às cotas históricas. As rentabilidades europeias continuarão abaixo das pertencentes às economias que crescem mais rápido, como os Estados Unidos, mas, se o mercado começar a exigir maiores rentabilidades das obrigações do Tesouro norte-americano  - já que a taxa dos fundos da Fed está a aumentar – os investidores em ativos europeus procurarão o mesmo.

O principal risco sistémico no que se refere à união monetária centra-se na Grécia e na sua possível saída do euro. O mercado continua a mostrar nervosismo sobre a situação do país grego e, se os acontecimentos ocorrerem de forma desordenada, um programa de compra de obrigações ampliado não será suficiente para evitar que os investidores exijam um prémio de risco muito maior nos activos da Zona Euro. 

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