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O que se passou na Índia este verão?


Dois meses depois de Raghuram Rajan se ter demitido como governador da Reserva do Banco da Índia, já se conhece a identidade do seu substituto, Urjit Patel, até agora vice governador. Para Leong Lin-Jing, gestor de fixed income asiático da Aberdeen, “o mercado deveria sentir-se confortável perante este claro sinal de continuidade política”. O especialista descarta mudanças na política de taxas de juro nos próximos seis meses e vaticina que “Patel será duro com a inflação, e isso será bom para o mercado de obrigações e trará benefícios económicos no longo prazo”.

O novo governador dispõe de um extenso currículo que valida o seu compromisso com a estabilidade de preços. Na verdade presidiu ao comité que recomendou a aplicação de um objetivo de inflação flexível e que fixou o objetivo de inflação nos 4%, com um desvio de +/-2%.

O gestor antecipa, deste modo, “uma melhor comunicação entre o Banco Central da Índia e o Governo”, dado que Patel é membro de uma nova comissão de Governo que busca adotar um objetivo de deficit fiscal dentro de um intervalo. “Isto seria uma pequena mudança para a política de taxa de câmbio do banco central que procura conseguir uma taxa de câmbio real efetiva”, acrescenta Ling-Jing.

O novo governador também foi assessor para o desenvolvimento dos mercados de divisas. Isto explica o recente fortalecimento destas “perante a expetativa de que o novo governador favorecerá uma política de taxas de juro mais cautelosa”. O gestor avisa que “pode produzir-se uma venda massiva se estas expetativas se desvanecerem e isto será agravado por um aumento do IPC, motivado por preços dos alimentos mais elevados”.

O especialista da Aberdeen afirma que “a nomeação de Patel é uma confirmação de que o primeiro ministro da Índia, Narendra Modi, está comprometido com as reformas. Com as importantes eleições estatais que se celebrarão no próximo ano, tem resistido à tentação de nomear um governador que se centraria no crescimento de curto prazo, em prejuízo do desenvolvimento a longo prazo”.

Matteo Germano, responsável global de investimentos multiativos da Pioneer Investments, fixa-se igualmente em que a preparação das eleições do ano que vem está a começar a ser evidente. Destaca a recente remodelação do Conselho de Ministros empreendida por Modi, “depois de um cuidadoso processo de seleção baseado em méritos”. Para Germano o propósito da decisão tomada pelo primeiro ministro é “impulsionar o seu programa, mudando os ministros a favor de um grupo de pessoas mais orientado para as reformas, com um olho posto nas eleições a nível estatal”.

Também este verão, o Congresso da Índia aprovou por unanimidade o Imposto sobre Bens e Serviços (GST na sua cigla em inglês), cuja implementação está prevista para abril de 2017. Na Mirae Asset, veem este passo como “uma reforma emblemática para unificar os 1.300 milhões de habitantes num mercado único”, dado que o GST substituirá 17 impostos distintos, além de “simplificar a estrutura arcaica do sistema fiscal atual, com centenas de exceções e cascatas de impostos sobre impostos”.

O maior benefício do GST é a melhoria da produtividade no médio prazo”, daclaram da gestora. O regime fiscal atual está desenhado de tal forma que incentiva a fragmentação da produção e da logística: “Uma implementação com êxito do GST eliminará a vantagem fiscal artificial dos bens produzidos dentro de uma região em relação a outros importados de outras regiões”, explicam. Ou seja, no futuro as empresas poderão beneficiar de economias de escala.

A reforma permitirá melhorar a eficiência administrativa, “ao substituir multiplos impostos por um apenas”. Da Mirae acreditam que também ajudará a uma estruturação mais eficiente: “a índia perde uma quantidade significativa de receitas fiscais, devido às cerca de 400 isenções sob o regime fiscal atual entre estados e a nível federal. Uma estrutura fiscal mais simples, com menos exceções leva a um sistema mais eficiente”. Segundo estimativas do Ministro da Economia do país, a aplicação do GST poderá impulsionar o crescimento em até 2%.

A Índia tem um governo relativamente novo que tem uma atitude mais reformista, e tem levado a sério o desafio de reduzir a inflação”, realça Rob Neithart, gestor do Capital Group. “Sabem que necessitam melhorar a capacidade da economia para crescer, e isto implica desregulação e atrair mais capital”, continua o especialista, que considera que como base desta situação “está um contexto favorável para atrair fluxos de capital para o país, o que deverá estabilizar ou apoiar a divisa”.

Também considera que é “um argumento muito positivo para uma desinflação estrutural, o que permitirá que se reduzam as yields na parte longa da curva à medida que se reduz o prémio por inflação”, pelo que vê oportunidades para gerar rentabilidades no mercado de obrigações denominadas em divisa local. “A Índia tem um mercado enorme de dívida pública, e é difícil conseguir acesso. Mas temos uma equipa operacional, e graças à sua ajuda, temos sido capazes de aceder a este mercado de forma relativamente fácil”, esclarece o gestor.

Alguns dados económicos

A economia do país registou durante o primeiro trimestre de 2016 um impressionante crescimento YoY de 7,9%, o maior dos últimos dois anos. “De aqui em diante, esperamos um momentum positivo continuado na atividade económica, mas muito mais moderado que no primeiro trimestre”, indica o responsável da Pioneer. A sua previsão é de que a Índia cresça em torno de 7,5% durante o ano fiscal de 2016. O especialista esclarece que “a Índia é uma economia relativamente protegida, no que respeita aos danos que possam vir de um abrandamento maior do comércio global em resultado do Brexit”, um dado a ter em conta para os investidores que procuram rentabilidades descorrelacionadas. Atualmente, as exportações representam em torno dos 20% do PIB, o que situa o país no bottom do conjunto de países Ásia Pacíifico.

A equipa de fixed income da Franklin Templeton Investments (composta por Christopher Molumphy, Michael Materasso, Roger Bayston, John Beck e David Zahn) fixa-se no último dado oficial sobre o IPC, correspondente ao mês de junho. Este manteve-se nos 5,8%, sendo o preço dos alimentos o maior responsável por este número. “As perspectivas sobre a inflação receberam um progresso natural favorável, em referência à forte temporada das monções que poderá ter ajudado a aliviar o forte incremento do preço dos alimentos, que tem sido uma fonte de problemas constante para o objetivo informal do banco central de reduzir a inflação para 5% em 2017”, detalham os especialistas.

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