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O que se está a passar na China este verão?


Quando se está quase a cumprir um ano desde que a China protagonizou a infame segunda-feira negra de agosto de 2015, parece que se restaurou, pelo menos parte, da confiança nas bolsas do país. Por outro lado, o seu ritmo de crescimento continua a semear dúvidas, com os dados de produção industrial, vendas a retalho, investimento e concessão de crédito do mês de julho a desiludirem as expectativas do mercado. Em resposta a estes dados, o FMI reduziu a sua previsão de crescimento para o gigante asiático para 6,6% e vaticinou que esta taxa se irá reduzir até alcançar os 6% em 2020.

Adicionalmente, o Banco Popular da China notificou que a oferta de dinheiro cresceu o mês passado ao ritmo mais lento desde abril de 2015. Ma Jun, economista chefe da instituição, indicou que as reservas de divisas chinesas se estabilizaram em torno dos 3,2 biliões de dólares em julho, um sinal de que a taxa de câmbio do yuan está perto do seu equilíbrio, segundo informa a Bloomberg.

Para Nick Peters, gestor de fundos da Fidelity, os dados económicos chineses “continuarão a ser cruciais para avaliar como estão as autoridades a gerir a transição da sua economia”. Neste sentido, opina que “o aumento dos preços das matérias primas deverá reduzir a deflação dos preços na produção e dar um empurrão ao sector industrial do país”. A sua conclusão geral é que a “China deverá estar tranquila por agora, mas poderá reativar a volatilidade nos mercados, especialmente depois da sua divisa se ter depreciado de forma constante face ao dólar durante os últimos meses”.

Mais estímulos?

Aidan Yao e Shirley Shen, da equipa de análise e estratégia da AXA IM, opinam que a debilidade dos dados macro pode ser atribuída em parte ao facto de o país ter sofrido recentemente as suas piores inundações desde 1998, que causaram danos em metade do país: “O abrandamento do investimento em ativos imobiliários foi particularmente relevante, com o crescimento anual a recuar 1% para os 8,1%. É aqui onde as inundações poderão ter o impacto mais tangível, ao conter a produção industrial e atrasar as decisões de investimento”. Ainda que ambos os especialistas admitam que os indicadores mostram “um ajustamento em baixa generalizado e repentino da economia”, sublinham que “tendo em conta que este tem sido exacerbado pelas inundações, esperamos que a debilidade seja compensada, pelo menos parcialmente, com a subsequente reconstrução, nos próximos meses”.

Tendo esta tese em consideração, Yao e Shen continuam à espera que o crescimento económico prossiga a sua desaceleração no segundo semestre de 2016. “Um motor chave desta desaceleração é a nossa expectativa de que o mercado imobiliário arrefeça. De facto, o crescimento das vendas de habitações já tocou um teto em maio e está a começar a fazer pressão na construção”, detalham.

Os especialistas acrescentam às preocupações sobre o modelo de crescimento atual “a dependência da economia dos estímulos oficiais e do crédito”. Para eles, o exemplo mais óbvio é a divergência no investimento em ativos imobiliários por parte do sector público (22%) frente ao sector privado (2,1%), tendo em conta, além disso, que os primeiros recebem incentivos fiscais. Neste sentido, destacou a chamativa reação dos investidores a esta avalanche de dados: no passado dia 15 de agosto os valores chineses bateram máximos de sete meses, perante a expectativa de que o Banco Popular da China aprovasse um novo pacote de estímulo. Depois, a agência de rating Moody’s elevou as suas previsões de crescimento do país de 6,3% para 6,6%, em 2016 e de 6,1% para 6,3%, em 2017, ao prever o anúncio de um pacote de estímulos fiscais e monetários significativos, segundo informa a CNBC.

Da AXA IM também advertem que o crescimento da concessão de crédito, mesmo tendo abrandado, continua significativamente acima do crescimento do PIB nominal, “o que sugere problemas contínuos de má alocação do capital”. “Resolver o problema requererá que o governo empreenda duras reformas, que poderão pesar sobre a economia no curto prazo”, advertem os especialistas. A sua expectativa é que o governo continue a manter a sua vontade de misturar uma política fiscal proactiva e uma política monetária prudente para conseguir que o crescimento alcance o objetivo previsto para este ano.

Algumas certezas

De todos os rumores e expectativas, a única certeza que têm tido os investidores tem sido a aprovação da fusão entre as bolsas de Shenzen e Hong Kong, cuja execução está prevista para finais do ano. “A aprovação deste plano reflete que a reforma do mercado de capital vai num bom caminho na China. Ao eliminar a quota agregada de vínculos comerciais, tanto de Shenzen como de Shangai com Hong Kong, suspeitamos que Pequim tinha em mente a inclusão nos índices MSCI, já que o acesso restrito era uma preocupação chave”, comenta Nicholas Yeo, diretor de ações para a China e Hong Kong da Aberdeen.

Yeo afirma, não obstante, que o mais importante não é a inclusão das ações chinesas classe A nos índices MSCI, mas sim que “este plano reflita que a China está aberta a investidores estrangeiros que realizam apostas mais amplas nas empresas que negoceiem na região continental, que por sua vez poderão ver uma redução da sua dependência dos investidores retalhistas”.

O especialista da Aberdeen não espera uma entrada repentina de capital estrangeiro nas cotadas do Shenzen por dois motivos: as suas valorizações são mais elevadas que as de Hong Kong, e a desaceleração na China atua como um elemento dissuasor. “É mais provável que os fundos se encaminhem na outra direção. Os investidores da China continental continuam dispostos a diversificar os seus ativos no estrangeiro. Uma consequência de qualquer volatilidade é que podemos então explorar a depreciação em Hong Kong com participações a longo prazo”, sentencia Yeo.

 

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