O que resta da recuperação da bolsa indiana depois do rally de 2014?


“O mercado indiano é um dos poucos onde o sol aparece num mundo nublado”. É com estas palavras poéticas que se apresenta Sukumar Rajah, gestor do Franklin India. A Franklin Templeton Investments foi uma das primeiras gestoras que teve a visão de se instalar no país, onde opera desde 1993, sendo a primeira gestora privada na Índia. Desde o seu lançamento, o fundo conseguiu multiplicar por 10 a rendibilidade do benchmark, tendo-se situado no segundo quartil da sua categoria no último trimestre, bem como a um ano, a três, a cinco e a sete anos, desde do seu lançamento. O seu volume sob gestão ascende a 9.000 milhões de dólares. 

Oportunidades estruturais a longo prazo...

Rajah defende que as ações indianas são uma aposta estrutural a longo prazo, devido a alguns pontos. O primeiro deles é o seu perfil demográfico favorável: a população do país é jovem e o rácio de dependência (que mede a relação entre as pessoas muito jovens e mais velhas com capacidade para trabalhar) apresenta melhorias, que segundo o gestor poderão prolongar-se durante 30 anos. Do seu ponto de vista, o incremento da massa trabalhadora vai ter implicações positivas sobre o PIB indiano – poderá impulsionar a produtividade e o crescimento - e sobre a taxa de poupança, que agora está em 30% e que poderá chegar aos 40%.

O segundo factor diferencial é o potencial processo de urbanização, que se encontra atualmente numa fase incipiente dado que apenas um terço da população indiana vive nas cidades. Segundo Rajah a aceleração deste processo implicaria uma melhoria substancial da produtividade, o que teria repercussões positivas no PIB. 

Finalmente, o terceiro factor diferencial vem da capacidade de crescimento que a economia está a demonstrar. O gestor explica que “o 'gap' entre o crescimento económico mundial e o da Índia é cada vez maior a favor do país. Por isso esperamos que seja uma das economias que mais cresça, em termos nominais, em 2015”. A sua perspetiva aponta para um crescimento entre 7% e 8% no longo prazo, embora possa ser inferior no curto prazo devido às reformas estruturais que vão precisar de tempo para surtir efeito.

...e possibilidades no curto prazo

O gestor faz uma distinção entre as potenciais fontes de crescimento no longo e no curto prazo. No curto prazo, recorda que depois da desaceleração cíclica que o país enfrenta desde 2010, agora a conta corrente está a dar sinais claros de melhoria, até a um ponto em que se prevê que a economia indiana consiga terminar 2015 com um leve défice em conta corrente ou até com um ligeiro superavit. A isto ainda se deve juntar a melhoria detetada também no défice fiscal, graças, em parte, à queda do preço do petróleo que permitiu ao Governo cortar nalguns gastos.

O segundo elemento a vigiar no curto prazo é a inflação: em novembro de 2014 registou-se o IPC inter-anual mais baixo desde 2012 (4,4%) e Rajah acredita que em 2016 seja atingido o objetivo do Banco da Índia de situar a inflação abaixo de 6%. Adicionalmente, o gestor prevê que os investidores deverão esperar uma redução de 100 pontos base em todas as obrigações indianas ao longo do próximo ano se a inflação subir entre 2% e 3%. Da entidade consideram que o banco central, no entanto, tem margem para baixar as taxas de juro, o que seria uma grande ajuda para reduzir os custos de capital das empresas.

O Capex é o ponto seguinte a ter em conta. Rajah indica que muitas empresas indianas se viram obrigadas a atrasar os seus investimentos e a reduzir os gastos em infraestruturas até conhecerem o resultado das eleições do ano passado. “Agora temos um primeiro-ministro forte, com influência sobre o governo”, declara, realçando que este é um factor favorável para impulsionar múltiplas reformas que por sua vez estimularão o aparecimento de novos projetos. “Acreditamos que vão continuar a aumentar nos próximos dois ou três anos, devido ao compromisso do governo em melhorar o ambiente regulatório”, assinala o gestor.

O aumento das exportações também tem um papel relevante no curto prazo. Atualmente representam 30% do PIB indiano e, na opinião do gestor, há margem para aumentar essa percentagem. No caso do sector da manufatura, o aumento do gasto estatal em infraestruturas será um catalisador para essa indústria. No entanto, a notícia que é verdadeiramente favorável é que, ao contrário de países como a China, que basearam o seu crescimento na exportação manufatureira de baixa qualidade, na opinião do gestor a Índia também tem uma grande oportunidade de exportar serviços com valor acrescentado: “A Índia é líder no sector da provedoria de serviços de IT e de legislação do mundo”. Segundo Rajah, “um grande suporte para a melhoria das exportações vai ser a idade média da população indiana, atualmente em torno dos 26 anos”.

Como canalizar todas estas ideias através de um fundo de ações indianas

“As reformas não estão ainda consideradas no preço e as valorizações encontram-se em linha com a média histórica”, declara o especialista da Franklin Templeton. Esta é a situação perfeita para alguém cuja filosofia seja “maximizar oportunidades no mercado indiano, procurando cotadas subvalorizadas em relação a outros mercados”. Um dos efeitos positivos que mostra que o mercado está subestimado é o crescimento dos lucros, que se situa em 15% no próximo ano.

Além do crescimento dos lucros, outros dos requisitos que Sukumar Rajah procura através de um rigoroso processo bottom up é a sustentabilidade dos lucros ao longo do tempo e a qualidade do negócio. Além disso, procura empresas que tratem bem os seus acionistas, tanto os institucionais como os minoritários. “Temos empresas muito em carteira, e queremos continuar a ter”, sublinha. Na verdade, o gestor pode chegar a ter 20 reuniões com distintos membros da mesma equipa de direção de uma empresa, antes desta se tornar numa posição com algum peso dentro da carteira. Esta visão de longo prazo traduz-se numa baixa percentagem de rotação de ativos do fundo, que é de apenas 20% nos últimos dois anos, já que Rajah está convencido de que “ter ativos durante muito tempo em carteira irá trazer rendibilidade, bem como gerar alfa através de uma seleção de ativos consistente”.

O gestor considera que acumular muitos conhecimentos sobre cada negócio para conseguir determinar qual é o seu nível de estabilidade também é importante para gerir a gestão de liquidez do fundo: “É necessário ter um conhecimento profundo do mercado e grande conhecimento sobre as empresas para saber qual é o nível mais cómodo para comprar. A nossa necessidade de comprar e vender ativos é baixa”. Rajah considera que esta análise é muito mais crucial do que o estudo do volume de negociação, já que “não é necessariamente um bom indicador, especialmente num mercado emergente, que depende do momento”.

No top 10 das posições, podemos encontrar empresas de grande capitalização, principalmente devido à sua maior liquidez. “Gostamos de bancos privados, de empresas tecnológicas, de farmacêuticas e das industriais”, indica o gestor. Estas dez cotadas podem ter um peso no fundo entre 4% e 6%, o que faz com que a “carteira seja razoavelmente concentrada” em cerca de 60 cotadas. O fundo também pode investir entre 10% e 20% em empresas de menor capitalização, mas sempre com a premissa de que sejam empresas com potencial para se converterem em grandes capitalizações nos próximos dez anos.

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