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O preço do petróleo tocou no fundo? O que devem esperar os investidores?


A descida continuada dos preços do petróleo até tocar recentemente mínimos de uma década, tem sido um dos factores que tem marcado com ênfase tanto as obrigações como as ações em 2016. Agora, depois de dois meses de vendas e de pessimismo, podemos estar perante uma mudança de tendência.

“O preço do petróleo está completamente desequilibrado. Nunca se tinha registado um período tão longo de stocks em alta”, comenta Bastien Drut, estratega e analista da Amundi. Este indica vários factores que podem condicionar uma mudança de tendência. Por exemplo o facto das autoridades sauditas terem declarado recentemente que o ritmo dos preços estava a começar a ser irracional – algo que seria exacerbado pela incorporação do Irão na produção depois de  anos de sanções -, tem mostrado sinais evidentes de stress, em países como a Argélia, Azerbaijão ou Venezuela. “O excesso de oferta é enorme, mas acreditamos que os preços tocaram o seu mínimo e que se assistirá a um aumento que será lento, mas que se prolongará durante todo o ano”, declara o especialista da Amundi.

James C. Liu, estratega de mercado global da J.P. Morgan AM também fala sobre o efeito de um petróleo mais barato sobre o tecido empresarial norte-americano. “As empresas do sector da energia têm cortado custos, reduzido a sua produção, e têm-se consolidado, o que é provável que se traduza numa melhoria das margens dos lucros com o tempo”. No entanto, ao contrário do especialista da Amundi, Liu considera que “lamentavelmente não se espera que a recuperação dos preços do petróleo deste ponto de vista vá ser rápida”. “Visto que as possibilidades de que o sector de energia recupere a sua rentabilidade do passado são praticamente inexistentes, o mercado limita-se a esperar a estabilidade dos preços do petróleo” conclui.

Que se passa com o dólar?

Esta postura sobre o preço do ouro negro é chave também para determinar o rumo do dólar e, em última análise, da política monetária da Reserva Federal. Da Amundi, Bastien Drut recorda que uma das consequências da queda do preço do petróleo tem sido o fortalecimento do dólar, que se tem valorizado segundo os seus cálculos cerca de 25% (em termos comerciais ponderados) desde o verão de 2014. “Dois terços ou três quartas partes da valorização do dólar em termos comerciais ponderados, pode atribuir-se à queda das matérias primas. Se o petróleo recuperar, a tendência do dólar poderá suavizar-se, pelo que se poderá esperar uma pressão de queda nos valores”, declara o especialista. Acrescenta à equação a previsão de que o ciclo atual de endurecimento da política monetária nos EUA seja muito lento, um factor importante  dentro do cenário macro com o qual trabalha a Amundi. “Acreditamos que o dólar está próximo do máximo do seu ciclo de endurecimento”, afirma.

O estratega da J.P. Morgan AM mostra um ponto de vista similar sobre o rumo do dólar: “Infelizmente, o fortalecimento do dólar está a baixar o seu ritmo. Nos seus níveis máximos, o dólar ganhou cerca de 18,2% interanuais, embora este número se situe abaixo dos 12,8% do quarto trimestre. Se hoje fosse o fecho do primeiro trimestre, a valorização interanual seria aproximadamente de 6,3%”, explica. Liu constata desta forma que esta debilidade aconteceu nas semanas posteriores à Reserva Federal ter aplicado a sua primeira subida de taxas em nove anos. Sobre o efeito da divisa sobre os lucros das empresas norte-americanas, o estratega declara que  “apesar do dólar se manter em níveis sólidos, é provável que a estabilidade da sua trajetória permita que as empresas se adaptem”.

Como a FED é condicionada por estes fatores

A evolução do petróleo e das moedas também tem um efeito direto sobre o nível da inflação norte-americana. O estratega da Amundi recorda que a queda continuada do custo de vida nos EUA antecedeu o aparecimento das duas tendências descritas e considera, também, que “tanto a inflação gerada internamente como a importada mostram alguns progressos”. No primeiro caso porque, finalmente, se está a observar sinais de crescimento salarial nos EUA; e no segundo caso devido à recuperação dos preços da energia. Esta melhoria da inflação traria consigo “algumas decisões da FED, embora apenas esperamos uma pequena movimentação” e não será um movimento agressivo aclara Durt. O profissional conclui a sua análise macro vaticinando que as obrigações norte-americanas a dez anos irão terminar 2016 no intervalo entre 2% e 2,2% “devido à revalorização das expectativas sobre a FED”.

Michael Hasenstab, diretor de investimentos Global Macro da Franklin Templeton Investments, indica que, a partir de uma perspetiva global, “a queda da inflação geral foi guiada pelo colapso do preço do petróleo, embora a inflação subjacente tenha sido positiva e estável”. A previsão do especialista é que, quando se descontar o efeito do crude sobre as medidas anuais de inflação, começamos a ver, estatisticamente, uma recuperação da inflação geral”.

Hasenstab recorda que “o mercado de trabalho nos EUA é uma pedra-chave na tendência da inflação no país, que também orienta a tendência de inflação a nível mundial” e coincide com a visão de que os “EUA alcançaram o pleno emprego com uma pressão muito alta sobre os salários”. O diretor de investimentos assegura que “os níveis de inflação subjacente estão a ser subestimados pelos mercados”, e declara que está a antecipar um fecho no hiato global da produção à medida que os mercados emergentes recuperam. “Há mais riscos da inflação se mover para cima do que para baixo, embora os mercados parecem estar a colocar no mercado a deflação e riscos de que o valor desça. Pensamos que a inflação poderá surpreender os mercados”, conclui Hasenstab.

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