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“O gestor ativo deve pensar antes dos outros e diferenciar-se”


À margem da tertúlia realizada no ISEG, sobre o tema “bolsa, privatizações e financiamento da economia”, Manuel Puerta da Costa, do conselho de administração da BPI Gestão de Activos e administrador da Associação Portuguesa de Analistas Financeiros (APAF), falou à Funds People sobre os fundos de investimento e a gestão de ativos, mas também sobre o seu impacto no financiamento da economia.

A tertúlia teve como principal mote o financiamento e as privatizações. Podemos assistir ao aumento do investimento por parte dos fundos nas privatizações e no financiamento?

Os fundos nacionais que investem em ações portuguesas perderam alguma importância com a redução que houve nos últimos anos ao nível dos ativos sob gestão. A sua importância para o financiamento global diminuiu. Em termos de privatizações o modelo está praticamente esgotado. A indústria de asset management, como boa gestora de poupanças domésticas, pode ser de facto um bom veículo para a alocação eficiente dessas poupanças via mercado de capitais, com a existência de mais empresas no mercado, mas de menor dimensão. O importante é que se mude a cultura empresarial através de uma mudança nas empresas. Para que isso aconteça tem de existir uma maior capacidade das empresas em abrir o seu capital, existir uma necessidade de reporte de informação, e também uma maior abertura para dar a conhecer o seu negócio. O facto das empresas estarem cotadas permite-lhes ter uma maior visibilidade em relação à sua marca e a um potencial de crescimento maior. O mercado, em média, premeia a presença das empresas no mercado.

Como é que a gestão de ativos e os fundos podem tirar partido dessas mesmas privatizações?

A gestão de ativos tem todo o interesse em que exista uma grande diversidade sectorial, quando investe num determinado país. Portugal tem uma carência de alguns sectores em bolsa, como é o caso da exportação. A grande dinâmica (das re-privatizações) que ocorreu nos últimos 20 anos foi determinante para o crescimento do mercado de capitais e para a atual alocação de ativos. No entanto, creio que no futuro o impacto (das re-privatizações) será menor.

Referiu que o papel dos analistas financeiros tem vindo a mudar nos últimos anos. Atualmente como deve ser desempenhada essa função, dentro de uma instituição?

A distinção principal será através dos gestores passivos e dos ativos. Quem tem um mandato de fazer uma réplica de um índice não tem grande hipótese de pensar ‘out of the box’. Tem de tentar se aproximar da forma de pensar do mercado e das suas análises. Quase que diria que nessa matéria é difícil ser analista financeiro, sendo quase mais importante ser uma “máquina” para conseguir replicar os índices. O gestor ativo deve pensar, e bem, de preferência antes dos outros: devendo ser capaz de se diferenciar. Se pensar mal o resultado pode ser desastroso. O que vimos no passado é que existe muito espaço para aproveitar as imperfeições do mercado e portanto ser um gestor ativo em áreas menos exploradas, “under research”, costuma dar bom resultado, dando origem a fundos que depois se destacam na indústria. Mas não tem de ser apenas em pequenas capitalizações. Um gestor de ativos que tenha uma capacidade de ter um tracking error elevado vai, num universo de índices grandes, ter a capacidade de acrescentar valor. Isso pode ser feito através de uma análise financeira em que o gestor tenha de entender os modelos de negócio, a gestão para acrescentar valor, e a dinâmica das forças competitivas que envolvem a empresa e que lhe permitem explorar oportunidades. Entre as capacidades de um bom analista financeiro deve ser estar a de agir (por antecipação) e não a de se restringir a um comportamento reactivo.

Durante a tertúlia referiu como exemplo do excesso de regulação, o adensar de conteúdos dos prospetos dos IPOs. Qual o verdadeiro impacto desta situação?

O grande impacto vem do consumo de tempo para procurar informação relevante. Os analistas e os gestores vão procurar nos prospetos a informação que é importante para a sua análise. A questão da análise financeira das empresas, dos principais riscos e mais uma ou outra secção, são as mais vistas pelos analistas. A existência de carga legal em cima de toda a informação é mais um problema para o emitente do que propriamente para o gestor de ativos, já que este sabe onde procurar a informação que deseja, que rácios devem ir buscar, etc. O que acontece muitas vezes é que nos prospetos há informação duplicada, e até mesmo triplicada. Na gestão de ativos o relevante é, provavelmente, uma capacidade de síntese que permita poder ler o prospeto todo, já que raramente são lidos de forma completa.

Nesse sentido, o que poderá ser feito? 

Julgo que existem iniciativas por parte do Parlamento Europeu para tornar aquilo que é a obrigação de divulgação de informação de uma forma mais sintetizada. Diria que seria o desenvolvimento desejado por parte dos emitentes, e, talvez menos, pelos advogados. Mas penso que não iria desequilibrar a relação de forças e a transparência dentro do próprio mercado.

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