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“…O Fio da Navalha…”


A expressão inglesa Like a bull in China Shopilustra de forma ímpar o desassossego sobre o que pode vir a ser a narrativa desconcertante de uma correcção dos activos de taxa de juro. O problema de um touro encurralado numa loja repleta de delicadas loiças de porcelana é que este facilmente se assusta, e saí “desembestado” como se de um outro animal mais “medroso” se tratasse…

No romance de Somerset Maugham, “O Fio da Navalha”, a certa altura alguém questiona sobre o valor que se atribui a um magnífico jarro de porcelana chinesa pintado à mão. E o sentido da resposta é muito simples, a sua beleza única e inconfundível é atraiçoada pela sua fragilidade, o que para muitos, não o torna imprescindivelmente útil…

O valor é um conceito abstracto, mas este conceito não pode estar dissociado da necessidade, ou seja, um jarro em primeira instância serve para trazer água e satisfazer a necessidade básica de matar a sede.

Actualmente, o grande problema dos gestores de obrigações é que estes estão bullish por uma questão de sobrevivência, num mercado distorcido pelo papel desempenhado pelos bancos centrais, que lhes retiraram o pão precioso para comer, o carry

Não é pois de estranhar toda esta complacência sobre o valor do mercado obrigacionista europeu, onde o próprio valor relativo se esconde numa falsa pretensão de análise de fundamentais, ignorando-se a raiz do problema: o absoluto está caríssimo e o relativo está muito caro.

Numa altura em que as perspectivas de crescimento global estão a confirmar-se mais depressa, sendo que muitos ainda há poucos meses atrás nem sequer desconfiavam, podemos estar próximos de um ponto importante de viragem sobre a percepção da necessidade e da dimensão dos estímulos monetários que correntemente estão em vigor.

Nos EUA, parece cada vez mais que evidente que a Reserva Federal quer começar o quanto antes o seu processo de normalização de taxas de juros, sob pena de o ter que vir a fazer mais tarde, de uma forma intempestiva e mais acelerada.

Os receios desinflacionistas da valorização do dólar e da queda do preço do petróleo não evidenciam qualquer tipo de risco de transmissão à inflação core. Por outro lado, o abrandamento verificado na economia americana no primeiro trimestre foi circunstancial e explicado por factores extraordinários como o mau tempo e os problemas laborais ocorridos nos portos de oeste, que condicionaram em muito a actividade económica.

Mas, o que é relevante é que apesar destes condicionantes, foram criados em média cerca de 200 mil novos postos de trabalho durante o 1º trimestre, estando o custo de hora de trabalho a subir 4%, em termos anualizados durante os três primeiros meses do ano.

Neste contexto e sendo previsível a normalização dos dados económicos nos próximos meses nos EUA, é de antecipar que a probabilidade da FED subir a sua taxa directora, em Junho ou Setembro, é muito elevada, o que independentemente do mês em que se materializar não vai certamente deixar passar despercebida a época de estio aos investidores…

Na Europa, o BCE passeia-se no “fio da navalha”, numa altura que se começa a pressentir a necessidade de fazer um trimming da sua política monetária, onde a dose é excessiva. São por de mais evidentes as distorções que estão a ocorrer na curva de rendimentos, ao mesmo tempo que a inflação parece já ter ultrapassado o ponto sela, em virtude de uma recuperação dos preços dos commodities e da desvalorização do euro, em que o Brent em euros já subiu cerca de 30% desde o princípio do ano.

Não é difícil antecipar algum desconforto no seio do BCE à medida que os dados da inflação começarem firmemente a ressurgir, ao mesmo tempo que os analistas e os organismos internacionais vão ser forçados a rever em alta os dados do crescimento para este ano e para o próximo.

Uma taxa de depósito negativa de -0,2% e um Q.E. de 60 mil milhões euros ao mês, parece-nos cada vez mais demasiada munição, para uma economia que precisa de tempo para absorver este excesso de liquidez. Não faz sentido que o BCE faça agora um tapering do seu Q.E, mas aumentou significativamente a probabilidade que este se veja forçado a subir a sua taxa de depósito ou a aumentar o coeficiente de reserva dos bancos, para que o Quantative Easing possa ser efectivo e não perverso como de momento está a ser.

Neste contexto, há que ter algum cuidado com este pretenso convite de tomar risco em taxa de juro, em que os conceitos se confundem quando se investe numa obrigação a 30 anos para usufruir de meros 0,5%, ou seja, o facto de ser uma raridade não o torna por si numa preciosidade…

Assim, parece cada vez mais evidente que os primeiros sinais de claridade já surgem no firmamento. A festa já acabou, as luzes já se apagaram, mas continua muita a gente à porta a querer entrar porque não sabe para onde ir.

Lá dentro, o espaço é cada vez mais apertado, há muita água, muitos jarros de porcelana e muitos touros encurralados. Cuidado, depois não pisem os cacos…

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