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“O Brasil necessita de um rumo tanto político como económico para voltar à ribalta”


O Brasil tem estado numa posição económica bastante difícil, devido a uma combinação de má gestão política, escândalos de corrupção e quebra do preço das commodities nos mercados internacionais. Tendo em conta todas as notícias negativas que têm marcado o país nos últimos meses, pode ser surpreendente que o mercado de ações brasileiro, o Bovespa, já tenha valorizado em 2016 mais de 25% em euros.

No BPI acreditamos que existem empresas de grande qualidade no Brasil, com management capaz e que conseguem criar valor, apesar de todos os contratempos a que temos vindo a assistir. Apesar das condições económicas bastante negativas, há oportunidades para investidores dispostos a procurar empresas cujo valor está a desconto devido à situação macroeconómica brasileira e não devido aos fundamentais da empresa em análise.

O Brasil é um país com elevado potencial exportador, não só ao nível de commodities mas também em produtos agrícolas e manufacturados. Devido à desvalorização do real, as empresas exportadoras têm demonstrado resultados positivos que irão ter impacto no PIB brasileiro daqui para a frente. Adicionalmente, temos visto o combate à corrupção, incluindo a investigação a figuras políticas de relevo, como um sinal encorajador para o futuro do país. Apesar do impacto negativo no curto prazo, cremos que a aplicação da lei e do reforço do poder judiciário é um sinal de uma grande mudança que reforça os poderes das instituições brasileiras, o que terá um impacto bastante positivo no longo prazo. Acreditamos que uma mudança da estratégia governamental com maior enfoque em reformas estruturais e com uma atitude mais pró-negócio, é essencial para o futuro da economia brasileira.

Apesar de todo o pessimismo que envolve atualmente o mercado brasileiro, nós acreditamos que em alturas em que há muito pessimismo são boas alturas para investir. Pelas razões acima mencionadas, vamos manter uma carteira mais conservadora, até que alguns dos obstáculos referidos sejam resolvidos e haja maior visibilidade no mercado Brasileiro. Acreditamos que aos preços a que alguns ativos brasileiros se encontram, existe valor a ser capturado pelo investidor que seguir uma política de investimento ativa e de longo prazo.

E a economia?

Durante anos o Brasil foi um mercado de eleição para os investidores, em grande parte devido às políticas governamentais que tiraram milhões de brasileiros da pobreza aumentando a classe média. No entanto, os dados do governo divulgados recentemente mostram que 2015 viu a economia brasileira encolher 3,8% - a pior contração em 25 anos – tendência que deverá continuar em 2016.

A taxa de juro diretora do Banco Central Brasileiro, a taxa Selic, está a 14.25%, enquanto a inflação subiu para 10.71%, no fim de 2015, muito acima dos 6.5%, o limite superior da banda assumida pelo Banco Central Brasileiro para a inflação. Adicionalmente, também os dados do desemprego têm vido a deteriorar-se com o abrandamento da economia brasileira, tendo subido dos 5.3% registados há um ano para os 7,5% no fim de 2015. O real, moeda brasileira, sofreu uma desvalorização acentuada em relação ao dólar e a dívida pública bruta em percentagem registou um aumento para mais de 60% do PIB. No seguimento dos downgrades do rating da república brasileira por parte de duas das três principais agências de crédito para abaixo de grau de investimento, em setembro do ano passado, o governo propôs um plano de austeridade que incluía cortes de gastos e aumentos de impostos, totalizando cerca de 17 mil milhões de dólares.

Um dado macroeconómico bastante positivo para a economia brasileira, é que o país registou um superavit comercial em 2015. Devido a uma queda do valor das importações associado a um aumento das exportações, em muito alicerçado na desvalorização do real, não só se registou um superavit comercial como é expectável que este aumente no próximo ano. A título de exemplo, a exportação de veículos automóveis produzidos no Brasil aumentou 37% em Janeiro de 2016, quando comparado com Janeiro de 2015.

A pergunta que muitos investidores fazem é se o potencial da economia brasileira, um dos países denominados BRIC, foi significativamente diminuído. A nossa opinião é que não. No curto prazo, uma inversão da economia brasileira requer que alguns ou a maioria dos seguintes acontecimentos se realize: fim do impasse político, redução da incerteza fiscal no país, aumento do comércio mundial, estabilização do preço das commodities e do petróleo, crescimento sustentado, mesmo que mais lento, da economia chinesa e que a Reserva Federal proceda uma subida de taxas de forma mais lenta que o esperado. Idealmente, a economia brasileira também beneficiaria de um crescimento global mais forte, o que não é muito expectável, e reformas estruturais apoiadas em consenso político, que neste momento parece uma impossibilidade.

O Brasil continua a ser um dos BRIC, um país com um potencial tremendo, um enorme mercado interno, muitas indústrias inovadoras e um dos países mais ricos em recursos naturais à escala global. O que o país necessita é de um rumo tanto político como económico para voltar à ribalta das economias com maior potencial a nível mundial.

Cenários mais prováveis

Neste momento a evolução do cenário político brasileiro no curto prazo é marcado por um elevado grau de incerteza, sendo que o impacto esperado nos mercados está diretamente dependente da forma como esta situação evoluir.

Uma sondagem do Datafolha, departamento de pesquisas do jornal Folha de S. Paulo, divulgada dia 19 de março, mostra que 68% da população brasileira apoia o impeachment, valor que compara com 60% em fevereiro. Para uma melhor comparação, o apoio do povo brasileiro ao impeachment do antigo Presidente Collor era de 75%, um mês antes de este abandonar o cargo de Presidente brasileiro. A taxa de rejeição da Presidente Dilma é de 69% e está praticamente em máximos. Apesar do apoio do povo brasileiro ao impeachment, apenas 50% dos inquiridos acredita que tal irá acontecer. Para agravar a situação, quase 40% dos inquiridos acredita que um governo liderado pelo Vice-presidente Temer, que seria o próximo Presidente de acordo com a constituição, seria igual ao da Dilma e apenas 28% acredita que seria melhor. O que se conclui é que o povo brasileiro quer que a Presidente Dilma deixe a presidência, mas não veem um futuro governo liderado pelo Vice-presidente, cenário mais provável no caso de impeachment, como uma solução positiva para o país.

E os mercados?

Quanto à reação dos mercados estes têm reagido de forma positiva às notícias que indicam uma maior probabilidade de uma mudança política no Brasil. Tanto ao nível dos mercados de capitais como ao nível do câmbio. Nós acreditamos que no curto prazo os mercados brasileiros irão ser marcados por um alto índice de volatilidade que irá permitir preços de entrada bastante atrativos em empresas de qualidade, com uma forte capacidade de criação de valor e com um potencial de valorização no longo prazo bastante atrativo.

 

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