Nordea: "Um QE à europeia iria debilitar a efetividade do programa OMT"


As últimas estratégias dos bancos centrais podem dar uma conversa de horas com um economista. Neste caso, esse diálogo foi mantido com Helge Pederseb, economista chefe da Nordea. O especialista partilha as suas previsões de mercado e os riscos que depreende para o médio e longo prazo. Começa por falar do BCE: por um lado existe o problema da inflação, que se situa em níveis muito baixos. No entanto, Pedersen espera que se vão fazendo gradualmente correções de subida, pois é importante ter em conta nas estatísticas o efeito sazonal: este ano a semana santa aconteceu mais tarde, pelo que os próximos números oficiais já deverão refletir a subida das commodities ou os gastos relacionados com o turismo. 

O economista-chefe constata que a autoridade monetária europeia terá de enfrentar uma escolha difícil: embora acredite que a inflação terá uma correção de subida, considera que será de uma forma muito ligeira (a sua estimativa é de que seja entre os 0,3% e os 0,4) já que a sua previsão é que continue a manter-se abaixo do objectivo dos 2% fixados pelo Banco Central. Pederson duvida sobre a efetividade de outra descida das taxas de juro, porque tal movimento poderia provocar uma guerra de divisas. "É difícil definir qual é o nível demasiado forte para o euro", acrescenta neste ponto. 

Quanto à possibilidade de se introduzirem medidas quantitativas ao estilo do QE americano, a reflexão do especialista é de que "se poderiam implementar, mas o problema estaria no facto de poderem debilitar o programa OMT. O OMT é condicionado e o QE não tem condicionalidade". Perante este cenário as possibilidades apresentadas pelo especialista são duas: ou se esteriliza o programa de recompra de ativos SMP, o que não teria um impacto tão forte na economia, ou se prolongaria os LTRO com uma nova ronda de liquidez "com a condição do dinheiro ser utilizado para conceder crédito, mas seria difícil". Qualquer que seja o caso, o representante da Nordea recorda que o BCE ainda dispõe de algumas ferramentas para usar.

Outra possibilidade é a instituição presidida por Mario Draghi permitir "uma deflação boa", nas palavra de Pederson. Ou seja, aproveitar este fenómeno para que "se mantenham baixos os preços da energia favorecendo as empresas dependentes". "Toda a gente fala dos riscos para o crescimento que irão pesar nos preços das commodities, mas quando baixam são um impulso para a recuperação", acrescenta. A preocupação genuína do especialista é que a zona euro seja conduzida a um contexto deflacionário que contenha quedas nos salários e nos preços do imobiliário, levando assim a "uma 'japonização' da Europa". 

inflação, desinflação e deflação?

O economista mostra-se preocupado em primeiro lugar com a redução  da rentabilidade da dívida, por poder gerar pressões inflacionistas sobre o sector financeiro, mas também por causa dos "aumentos pouco saudáveis para os ativos imobiliários", ou ainda a formação de bolhas, também nas ações, onde nota que os ganhos  dos últimos tempos "foram mais além daquilo que se poderia explicar".

Em particular, a sua previsão é de que as taxas de juro com as quais os títulos do tesouro norte-americano negoceiam a 10 anos, aumentem cerca de 1% durante este ano, na expectativa de que a Reserva Federal termine de retirar o QE em 2014 e comece a subir as taxas de juro no início de 2015, o que deverá fortalecer o dólar contra o euro. Até essa altura o responsável pela Nordea calcula que o PIB norte-americano deve estar perto dos 3%. 

Ao pedir ao especialista que explique o porquê dos títulos do tesouro norte-americano a 10 anos estarem a apresentar valores idênticos  aos dos homólogos espanhóis, a resposta do especialista não poderia ser mais concisa: "É por causa da má memória". O economista explica que a extraordinária queda de rendimento dos títulos numa década "não é tanto por causa das previsões de crescimento, mas sim pelo caminho que Espanha tem percorrido, pondo em prática várias reformas". O economista chefe qualifica a melhoria das exportações como uma "estratégia inteligente, que permitiu a penetração noutros mercados distintos dos europeus". 

Adicionalmente considera que Espanha beneficia de uma posição geográfica privilegiada , ao atuar como a porta que faz conexão com a Europa e a América do Sul, e aponta a boa reputação dos gestores espanhóis. No entanto, tendo em conta que os spreads da dívida espanhola, mas também da italiana, se têm vindo a estreitar, "algo poderá acontecer que ponha os investidores espanhóis nervosos", segundo Pedersen. "É difícil estabelecer quais são os diferenciais adequados, porque têm caído muito e demasiado rápido", refere.

"De um ponto de vista filosófico, o 'boom' foi condicionado pela concessão de crédito. Agora não se pode esperar  que isto volte acontecer, por meio da regulação ou da desalavancagem", reflete o especialista. Isto não implica que não haja crescimento, mas sim que a economia cresça a um ritmo inferior. Para Pedersen, o potencial de crescimento global está entre os 0,5% e 1%, inferior ao que costumava ser. Assim, se antes os EUA poderiam crescer 2,7% em média, agora  esse ritmo diminui para uma taxa de 2%. No caso da UE, o seu PIB passaria de um crescimento de 1,5% para 1%. 

Em defesa do forward guidance

O economista chefe manifesta-se um  fervoroso defensor da estratégia de visibilidade sobre as política monetárias ou o forward guidance, do qual se serviram tanto o BCE, como a Fed, como o Banco de Inglaterra. "O forward guidance é útil e necessário. Numa situação em que existe tanta abundância de liquidez é muito importante que esse programa exista, mas também é necessário saber quando é que se começa a retirar essa liquidez", afirma. "É bom ser o mais claro possível, quando o passo seguinte que se vai dar na política monetária pode provocar uma reação muito dolorosa no mercado", acrescenta Pedersen.

Importa recordar que na sua última reunião mensal, o presidente do BCE, Mario Draghi, voltou a utilizar esta ferramenta para insinuar, depois de um longo silêncio, que a entidade estaria disposta a recorrer a medidas heterodoxas para lutar contra a deflação. Ao perguntar ao especialista pela efetividade desta mensagem, em comparação com outras intervenções verbais, como a realizada em julho de 2012, o economista chefe afirma que "quando Draghi declarou que faria tudo o que fosse possível para salvar o euro, isso foi uma mensagem política. Agora a sua mensagem centra-se na melhoria da política monetária e é mais difícil de trazer para a realidade". "A política monetária é mais linear do que alguma vez foi porque a base monetária referente ao PIB aumentou até entre 70% ou 80%, face aos 20% de média histórica", continua o economista. "Por isso é importante desenvolver uma estratégia inteligente de comunicação", remata. 

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