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Michael Temple (Pioneer Investments): “Não estamos a ser pagos para manter qualidade de crédito em carteira”


Num pequeno almoço organizado pela Pioneer Investments em Lisboa, Michael Temple, diretor de research de crédito da entidade atualizou o posicionamento do Pioneer Funds – Strategic Income (produto Blockbuster Funds People) e falou das suas convicções e opiniões dobre a economia e os mercados de fixed income. “Nos EUA continuamos a ver um crescimento lento, mas razoável. Não é robusto, mas também não é uma recessão. A política monetária tem dado bastante suporte à economia e aos mercados, embora vejamos recentemente preocupações nos agentes de mercado de que os bancos centrais estão a chegar ao limite do que podem fazer”, destacou. Perante medidas cada vez menos convencionais, como as novas políticas de gestão de curva de yields do Banco do Japão e as aquisições de dívida de empresas por parte do BCE, o especialista destaca que “as autoridades monetárias estão a chegar à conclusão de que taxas negativas não são eficazes”. Segundo este, a visão da casa de investimentos é de que o Japão será o primeiro grande banco central a dar o próximo passo, executando o famoso ‘helicoter money’. Fala “da união das autoridades monetárias e fiscais no sentido de controlar o panorama fiscal e monetário em conjunto”, “num esforço para pôr a inflação a mexer e a curva de yields a inclinar positivamente”. Medidas possíveis passam “pelo aumento do investimento em infraestruturas, incentivos à contratação e subida de salários, talvez mesmo através de subsídios”, esclarece o especialista.

“Parte do que vimos nos mercados de crédito este ano, nos EUA em particular, tem sido uma tremenda compressão dos spreads e o achatamento simultâneo da curva de yields. Isto aconteceu principalmente em resultado da percepção de que a economia dos EUA poderá estar a caminho de uma recessão, mas muito mais importante, em resultado da aquisição de treasuries e dívida corporate dos EUA por parte de investidores asiáticos e europeus”, salienta Michael Temple.  

Segundo o especialista, a grande verdade é que este ciclo de crédito vai já muito longo, e é “um dos ciclos de crédito mais longos historicamente, e está a ficar velho”. Parte das razões passa pelo longo período de flexibilização monetária por parte dos principais bancos centrais, especialmente da FED, pelo que não temos visto taxas a subir e “são as taxas de juro a subir que historicamente determinam o final do ciclo de crédito”. No entanto, o profissional da Pioneer Investments salienta que começamos a ver sinais de um regresso da inflação, em resultado de uma melhoria dos mercados de trabalho, subidas do consumo e produção industrial e o efeito da subida dos preços da energia. O profissional destaca que os bancos centrais têm todo o incentivo a procurar a inflação, não só pelos efeitos no consumo – “a deflação faz com que o consumidor adie a decisão de consumir” – mas principalmente pelo potencial de desvalorização do stock de dívida.

Já no que concerne os mercados emergentes, o especialista considera “que algumas regiões dos mercados emergentes estão a ficar bastante atrativas, particularmente do Brasil, Argentina e Indonésia”, justificando com as expectativas de que a inflação deverá colapsar nesses países e os bancos centrais terão que reduzir taxas em consequência.

Posicionamento do Pioneer Funds  - Strategic Income

Com os olhos em 2017 e em resultado de todos os factores que referiu, Michael Temple destaca que a equipa de gestão não quer manter muita duration no portefólio, em relação ao benchmark. “A nossa exposição a crédito mantém-se num espaço de risco relativamente central, ou seja, em torno dos ratings BBB e BB dos mercados de crédito. Não temos muitos exposição ao potencial de uma subida dos incumprimentos, mas também não subimos muito na escala da qualidade, já que não estamos a ser pagos para manter qualidade de crédito em carteira”, esclarece, adicionando: “Estamos no meio, tanto em duration como em risco de crédito”. Já no segmento de risco de crédito ‘A’, a equipa de gestão tem dirigido o investimento para os mercados de crédito hipotecário, e a razão é simples, “o trade-off entre o spread em ativos hipotecários norte-americanos e o risco no segmento de crédito corporativo”.  O profissional resume a estratégia: “O ano de 2017 é mais acerca de construir um portefólio mais seguro, que não tenha, nesta fase, tanta exposição a duration ou risco de crédito, enquanto vai aproveitando algumas oportunidades que surgem das ineficiências de mercado”.

Alocação ativa nas diversas fases do ciclo de crédito

A história do Pioneer Funds  - Strategic Income tem sido uma história de alocação ativa. “Podemos dizer que separamos o segmento fixed income em dois, o risco e a qualidade”, descreve Michael Temple. No período de 2004 a 2006, o que se pôde observar foi um processo progressivo de retirada do risco da carteira, numa “antecipação da próxima fase do ciclo de crédito”. “Somos bastante contra-cíclicos, pelo que pela altura em que o ciclo de crédito chegou a um fim, tínhamos já ajustado o portefólio”, esclarece. Em 2009, a equipa de gestão tinha-se já posicionado com mais risco na carteira ao nível existente antes da crise financeira. Em meados de 2014, novamente, “começámos a retirar o risco de crédito de cima da mesa, processo que foi taticamente revertido quando vimos os spreads a aumentar para lá do razoável”, explica Michael Temple, esclarecendo que a equipa de gestão não previa uma recessão no presente ano. Atualmente, voltam a reduzir o risco em carteira, alocando os investimentos ao segmento hipotecário. Isto não resulta de uma convicção de que 2017 seja um ano de recessão, mas o processo de gestão é mesmo assim: “Vai-se lentamente protegendo o portefólio antes do final do presente ciclo de crédito, a não ser que voltem a surgir outras oportunidades táticas”.

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